Técnica converte diretamente células da pele em células cerebrais

O feito, um avanço para transplantes celulares, evita questões éticas relacionadas à pesquisa com células-tronco embrionárias.

taniager

09 Junho 2011 | 14h30

Malin Parmar, diretora da equipe de pesquisa que conseguiu reprogramar as células da pele. Com o tempo, sua pesquisa poderá fornecer novos tratamentos, como para a doença de Parkinson. Crédito: Lunds universitet.

Malin Parmar, diretora da equipe de pesquisa que conseguiu reprogramar as células da pele. Com o tempo, sua pesquisa poderá fornecer novos tratamentos, como para a doença de Parkinson. Crédito: Lunds universitet.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Lund na Suécia conseguiu criar tipos específicos de células do cérebro, a partir da pele humana sem passar pela etapa de células tronco. A técnica surpreendentemente simples envolve a ativação de três genes nas células da pele, genes conhecidos por estarem ativos na formação das células cerebrais na fase fetal. O artigo do estudo foi publicado na revista científica PNAS recentemente.

A equipe conseguiu criar células do cérebro ao reprogramar fibroblastos – células do tecido conjuntivo responsáveis pelo preenchimento dos espaços intracelulares do corpo e pelas ligações de órgãos e tecidos diversos. O feito abriu um novo campo com potencial para avanços significativos em pesquisas sobre transplantes celulares. A descoberta ainda altera fundamentalmente a visão da função e capacidade das células maduras. Ao começar com células maduras, em vez de células-tronco, os pesquisadores evitam também questões éticas relacionadas à pesquisa com células-tronco embrionárias.

Segundo a diretora da pesquisa Malin Parmar, a receptividade dos fibroblastos para novas instruções foi uma surpresa para os pesquisadores, pois duvidavam que o experimento fosse funcionar.

Em experiências onde dois genes adicionais eram “ligados”, os pesquisadores foram capazes de produzir células dopaminérgicas do cérebro – produtoras de dopamina –, as mesmas que morrem na doença de Parkinson. A descoberta é, portanto, um passo fundamental para a produção de células nervosas para transplante a partir de células da pele do próprio paciente. As células também podem ser usadas como um “modelo de doença” em pesquisa sobre várias doenças neurodegenerativas.

Ao contrário dos métodos de reprogramação antigos, onde as células da pele são transformadas em células-tronco pluripotentes conhecidas como células IPS, a reprogramação direta significa que as células da pele não passam pela fase de células-tronco quando são convertidas em células nervosas. Ao pular esta fase, provavelmente se elimina o risco da formação de tumores quando células são transplantadas – algumas células-tronco continuam a se dividir e formar tumores após o transplante, o que tem sido um grande obstáculo em pesquisas com este tipo de células.

Antes que a técnica de conversão direta possa ser usada na prática clínica, será preciso fazer mais pesquisas sobre como as novas células nervosas sobrevivem e funcionam no cérebro. No futuro, médicos serão capazes de obter neurônios para um paciente, a partir de simples fragmentos de pele ou de amostras de cabelo. Células criadas a partir de outras provenientes do próprio paciente também poderiam ser supostamente melhor aceitas pelo próprio sistema imunitário do corpo, que aquelas transplantadas de doadores de tecidos.

Os pesquisadores acreditam que no futuro, por exemplo, as células que produzem dopamina poderão ser criadas a partir de células extraídas em biópsias de pessoas com Parkinson e serem transplantadas no próprio doador.