Evolução: excepcional assimetria de mosca garante acasalamento

Pesquisadores acreditam que a assimetria seria uma característica sexual secundária para atrair as fêmeas.

taniager

27 Setembro 2010 | 18h16

a) Macho simétrico com os dois tarsos anteriores modificados. b) Macho assimétrico com o tarso esquerdo modificado. c) Macho simétrico com os dois tarsos sem modificação. d) e) Tarso não modificado e tarso modificado vistos em microscópio eletrônico em escala micrométrica. Crédito: cortesia de A. Stark & C. Daugeron

a) Macho simétrico com os dois tarsos anteriores modificados. b) Macho assimétrico com o tarso esquerdo modificado. c) Macho simétrico com os dois tarsos sem modificação. d) e) Tarso não modificado e tarso modificado vistos em microscópio eletrônico em escala micrométrica. Crédito: cortesia de A. Stark & C. Daugeron

Uma equipe internacional de cientistas liderada por Christophe Daugeron, do laboratório “Origine, structure et évolution de la biodiversité » (MNHN/CNRS),   acaba de descobrir um caso excepcional de assimetria dos tarsos, parte superior das patas anteriores de certos machos da espécie de mosca Empis jaschhoforum endêmica no Japão. Em trabalho publicado na revista Biology Letters recentemente, os pesquisadores relatam que esta assimetria seria uma característica sexual secundária para atrair as fêmeas.  

O mais extraordinário é a natureza polimórfica desta assimetria: em uma população de 33 machos, 14 são assimétricos com o tarso esquerdo ou direito consideravelmente modificado, 18 são simétricos sem nenhuma alteração dos dois tarsos anteriores e um é simétrico com dois tarsos modificados. 

Uma análise morfológica mostra que o tamanho dos tarsos varia independentemente do tamanho geral dos indivíduos; portanto, não há nenhuma relação entre o tamanho dos indivíduos e o polimorfismo, caso comum de polifenismo característico (vários fenótipos discretos produzidos por um mesmo genótipo). A persistência de polimorfismo deve ser explicada então pelos dois morfismos principais, macho assimétrico e macho simétrico não modificado: seria uma vantagem seletiva de suas respectivas morfologias. 

A maioria das espécies da família Empidinae forma enxames de reprodução em que os “presentes nupciais”, geralmente uma presa, são entregues pelos machos às fêmeas antes do acasalamento. Às vezes a presa é envolta em um casulo de seda produzido pelas glândulas localizadas nos tarsos anteriores dos machos. O valor nutritivo do presente da noiva pode ser importante para a fêmea, mas o benefício nutricional é baixo ou nulo nas espécies onde o macho “engana” a fêmea oferecendo um objeto não comestível ou um casulo vazio. 

Acasalamentos podem ocorrer também sem qualquer transferência prévia;  neste caso, a presença no macho de tarsos consideravelmente  desenvolvidos pode aparentar um casulo de seda ou presa e constitui, da mesma forma como o presente nupcial, um estímulo visual à longa distância que favorece a escolha dos machos pelas fêmeas. A morfologia e a ornamentação pronunciada dos tarsos modificados dos machos assimétricos poderiam ter evoluído neste sentido. 

A persistência de machos simétricos sem modificações na população de Empis jaschhoforum poderia ser explicada por um voo de melhor qualidade, permitindo-lhes a preferência pelas fêmeas em curtas distâncias.