A diferença entre o Gigante e o Monstro

A diferença entre o Gigante e o Monstro

Herton Escobar

21 Junho 2013 | 18h18

Herton Escobar, cidadão brasileiro

O gigante acordou. Não há dúvida. O povo brasileiro cansou de assistir passivamente às muitas injustiças que ocorrem neste país e foi às ruas demonstrar sua indignação. Ótimo. Finalmente! Já era hora de acordar mesmo.

Mas muito cuidado nessa hora também …

Os eventos dramáticos a que testemunhamos ontem em várias cidades do Brasil deixaram muito claro como um movimento legítimo, pacífico e de origem democrática pode facilmente se transformar em um movimento radical, antidemocrático, violento e extremamente perigoso. É preciso muito cuidado, a partir de agora, para que este gigante não se transforme em um monstro fora de controle, solto por aí.

As cenas de violência e vandalismo generalizado em Brasília, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, Salvador e outras cidades brasileiras são chocantes e inaceitáveis num regime democrático. É claro que os vândalos que praticaram esses atos são uma minoria na sociedade, e que não representam movimento social nenhum, mas eles saem às ruas no rastro das manifestações populares. Cuidado! Se todo mundo começar a sair às ruas de qualquer jeito, a qualquer hora, e gritando o que der na telha, queimando bandeira dos outros, agredindo jornalistas e botando fogo em boneco, a coisa vai fugir ao controle rapidamente. O caos não pode ser usado para estabelecer a ordem. Vai começar a morrer gente nas ruas, e não vai ter polícia que segure, nem com bala de borracha voando para todo lado. Vai virar guerra civil.

Igualmente interessante e preocupante é ler os comentários das pessoas no Facebook. Por um lado, é extremamente positivo que milhões de pessoas estejam discutindo tão intensamente a política e o futuro do Brasil, em vez de um monte de futilidades que normalmente se discute por aí. Por outro lado, é extremamente preocupante ver o radicalismo e a cegueira de muitos desses posicionamentos, propagando-se como fogo de palha pelas redes sociais. Cuidado! A mesma liberdade de expressão digital que nos permite dizer o que quisermos na internet é uma porta aberta para a livre disseminação de incoerências, irracionalidades e inverdades de todos os tipos. Muitas das “informações” que são postadas nas redes sociais (e também publicadas por alguns meios de imprensa, infelizmente) são incorretas, distorcidas ou puramente mentirosas. É uma mesa de bar: cada um fala o que quiser e bate a mão na mesa, com o viés que for de seu interesse particular. Portanto, não acredite nem concorde com qualquer coisa que cair no seu ouvido, na sua caixa de email, no seu timeline do Facebook ou no feed do Twitter. Não deixe sua indignação ser contaminada pela irracionalidade. Não siga pessoas que usam máscaras, por mais bem intencionadas que possam parecer.

Já tem um monte de gente falando em derrubar a presidente, convocando greves gerais para “parar o Brasil” e até defendendo a violência como um caminho aceitável para a mudança. Muito cuidado nessa hora, pois o tiro pode sair perigosamente pela culatra. Não importa se você é de esquerda ou de direita; se votou no Lula ou no FHC, na Dilma ou no Serra, no Haddad, no Alckmin, no Maluf ou seja lá quem for; uma coisa que precisa ser defendida e respeitada por todos é a democracia – que, não faz muito tempo, muita gente foi torturada e precisou morrer neste País para defender. A Dilma, o Alckmin e o Haddad foram eleitos democraticamente e isso precisa ser respeitado. Quando começa a se falar em mudança pelo uso da força, flerta-se perigosamente com o retorno de um regime autoritário.

Tem muita coisa errada neste país que precisa ser consertada com urgência. O Brasil tem um monte de problemas (assim como qualquer outro país), mas também tem um monte de virtudes. Nossa democracia é jovem e o sistema político precisa de uma série de ajustes, mas é uma democracia sólida, e os ajustes precisam ser feitos pelas vias democráticas, nunca pela força.

É uma situação muito diferente da que existia aqui até míseros 25 anos atrás (quando a democracia foi restaurada, com a publicação da Constituição de 1988). E muito diferente, também, do que vem acontecendo mais recentemente no Oriente Médio e na África, com as revoltas iniciadas pela Primavera Árabe. Lá, as pessoas estão lutando contra regimes autoritários e ditatoriais. Estão lutando para conquistar aquilo que nós, aqui no Brasil, já conquistamos a duras penas: a democracia, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a igualdade de direitos. Cuidado para não colocar tudo isso a perder com uma revolução mal direcionada. Precisamos de um gigante do bem, não de um Godzilla. Precisamos de progresso, não de destruição.