A LENDA DO PLANETA ADORMECIDO

A LENDA DO PLANETA ADORMECIDO

Herton Escobar

17 Novembro 2010 | 12h12

Vulcão Merapi, na Indonésia. (foto Slamet Riyadi/AP)

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Na semana passada a revista Science publicou um trabalho científico argumentando que o surgimento da Cordilheira dos Andes foi um dos principais fatores que impulsionou o desenvolvimento da biodiversidade amazônica atual. O soerguimento das montanhas inverteu o fluxo do Rio Amazonas — que antes corria para o oeste e desaguava no Pacífico, em vez do Atlântico, como faz hoje — e modificou significativamente a paisagem da região, criando uma série de hábitats diferenciados que impulsionaram a formação de novas espécies (num processo chamado de “especiação”). Isso tudo cerca de uns 10 milhões de anos atrás …

O foco do trabalho é na biodiversidade. Mas a coisa que mais me impressionou (que certamente não é novidade, mas apresentou-se de uma forma muito evidente no trabalho) foi pensar que até alguns milhões de anos atrás, a Cordilheira dos Andes simplesmente não existia …. imagine só!

Parece loucura olhar para uma cadeia de montanhas daquele tamanho e imaginar que elas nem sempre estiveram ali. Que aquilo tudo um dia foi plano, ou mais ou menos plano. Que o que está hoje milhares de metros acima da superfície um dia já esteve debaixo dágua … Mas esteve mesmo! Aliás, uma das peças mais importantes no quebra-cabeça científico que Charles Darwin montou em sua cabeça para desenvolver a teoria da origem das espécies foi a descoberta de uma floresta fóssil (petrificada) e de conchas marinhas no alto dos Andes chilenos. Ali ele se deu conta de como o tempo geológico é vasto, e como as coisas podem mudar ao longo desse tempo.

Hoje sabemos de fato que os Andes nem sempre existiram (eles foram e continuam a ser erguidos por forças tectônicas geradas pelo encontro das placas Nazca e Sul-Americana … a primeira mergulha por baixo da segunda, fazendo com que sua borda se dobre para cima … e é essa dobra que forma as montanhas …. agora, imagine a força que é necessária para dobrar a borda de um continente inteiro!!)

Sabemos também que todos os continentes estiveram um dia grudados uns nos outros. E que topos de montanhas já foram leito de oceano. Que o nível dos mares já variou tremendamente ao longo da história, para cima e para baixo. Que as espécies que existem hoje não são as mesmas que existiram ontem. E assim por diante.

(Se você é frequentador das praias do Sudeste, saiba, por exemplo, que todas aquelas lindas ilhas que você enxerga da costa nem sempre foram ilhas. Míseros 10 mil anos atrás o nível dos oceanos estava muito mais baixo e elas estavam ligadas ao continente. Era terra firme daqui até lá, e muito mais pra frente ainda….)

E mais: não pense que essas transformações todas pararam de acontecer só porque nós estamos aqui e gostamos de viver uma vidinha tranquila. Nosso planeta parece estático, mas é apenas uma ilusão produzida pelo fato de nós vivermos muito rápido e o planeta mudar muito devagar. Claro que as coisas são mais calmas hoje do que eram bilhões de anos atrás, quando a Terra ainda estava em formação. Mas ela continua extremamente ativa … E não é preciso muita imaginação para perceber isso. Na verdade, não é preciso imaginação nenhuma! Basta olhar para o vulcão Merapi, na Indonésia, que neste exato momento está cuspindo fumaça e cinzas incandescentes do interior da terra, e que já matou centenas de pessoas.

Basta lembrar também daquele vulcão com nome impronunciável da Islândia, que fechou o espaço aéreo da Europa durante sei lá quantos dias. E dos terremotos e tsunamis que insistem em atingir a costa oeste da Indonésia, matando milhares de pessoas. E que devastaram recentemente o Haiti e partes do Chile. Basta pensar no arquipélago do Havaí, que é todo formado por vulcões submarinos. E lembrar que debaixo do Parque Nacional de Yellowstone tem um super vulcão adormecido que, se um dia explodir, pode causar uma extinção em massa na Terra ….

Lá no fundo, nosso planeta ainda é uma bola de rocha quente, derretida e ativa. Imagine só!

Abraços a todos.