Atualização do caso Rui Curi: 5 meses depois, USP ainda não deu parecer

Herton Escobar

07 Junho 2013 | 14h58

Passados praticamente cinco meses desde que a USP anunciou a criação de uma comissão para investigar as acusações levantadas contra o professor Rui Curi, diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), o caso continua sem um parecer da universidade. O prazo original dado à comissão investigadora (cujos membros não foram revelados), no dia 9 de janeiro, era de 60 dias. Procurada esta semana pela reportagem, a assessoria de comunicação da reitoria informou que “a comissão ainda não concluiu os trabalhos e não há previsão de quando isso ocorrerá”.

Acusações de fraudes científicas supostamente cometidas em trabalhos publicados por Curi e colaboradores foram postadas originalmente em dezembro, em um blog americano chamado Science Fraud (agora desativado). Desde então, pelo menos dois trabalhos foram retratados e três, oficialmente corrigidos (um deles foi primeiro corrigido e depois, retratado). A correção mais recente foi publicada na segunda-feira (dia 3), referente a um trabalho publicado em dezembro de 2012 na revista PLoS One. Três imagens do trabalho continham problemas: uma era duplicada, outra continha “rearranjos” e outra era incorreta.

A correção publicada pela revista fornece as imagens corretas e ressalta que os resultados e as conclusões do estudo continuam válidas. Curi é um entre 11 autores do trabalho, incluindo ex-alunos do seu laboratório na USP e sua mulher (autora correspondente no trabalho), que agora estão na Universidade Cruzeiro do Sul.

As denúncias originais contra Curi também estão sendo investigadas pela Comissão de Integridade na Atividade Científica (Ciac) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Um parecer sobre o caso era esperado para a última reunião da comissão, prevista para ocorrer no fim de abril, depois adiada para fim de maio ou início de junho, porém não realizada até agora por “falta de quórum”, segundo informações da comissão.

Rui Curi foi procurado pelo Estado, mas não quis se pronunciar.

Leia os posts anteriores sobre o caso aqui.

Outros cientistas brasileiros foram “notícia” recentemente no site Retraction Watch, que publica anúncios de trabalhos retratados no mundo todo. Também nesta semana, o blog noticiou a retratação de dois trabalhos brasileiros na área de odontologia, por duplicação (o mesmo estudo publicado em duas revistas diferentes).

Outro caso recente de grande repercussão foi o do trabalho pioneiro sobre clonagem de embriões e derivação de células-tronco embrionárias humanas, publicado pela revista Cell, que também continha imagens incorretas. A revista fez uma rápida investigação e concluiu que os erros não influenciavam os resultados do trabalho, e que o estudo permanecia válido. O autor principal da pesquisa, Shoukhrat Mitalipov, pediu desculpas publicamente, mas, ainda assim, ficou uma mancha … especialmente pelo histórico dessa área de pesquisa, vitimada cerca de dez anos atrás pela grande farsa do pesquisador sul-coreano Hwang Woo-Suk. Depois de um escândalo daqueles, imaginava-se que qualquer trabalho sobre clonagem de embriões humanos seria revisado rigorosamente 10 vezes antes de ser publicado; mas, aparentemente, não. (leia o post sobre a pesquisa aqui: Cafeína faz clonagem de embriões humanos funcionar)

 

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