Brasil prepara seu 1º modelo climático para o IPCC

Brasil prepara seu 1º modelo climático para o IPCC

Herton Escobar

20 Fevereiro 2013 | 14h14

Cópia da reportagem publicada hoje no Estadão, com algumas informações adicionais.

Supercomputador Tupã, no Inpe. FOTO: THIAGO TEIXEIRA/ESTADÃO – Copyright

Herton Escobar / O Estado de S.Paulo

O próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), órgão das Nações Unidas que representa a ciência nas discussões sobre o tema, terá uma contribuição inédita brasileira. Pela primeira vez, o Brasil vai produzir um modelo de previsão climática global, que poderá ser incorporado ao portfólio internacional de modelos que o IPCC usa para fazer suas projeções sobre o futuro do clima do planeta.

O trabalho de validação do modelo brasileiro já foi submetido a uma revista especializada e está em fase final de revisão para ser publicado, o que gabaritará o Brasil a submetê-lo para o IPCC. Com isso, o País se tornará o primeiro da América Latina e apenas o segundo do Hemisfério Sul a contribuir com modelos de mudança climática global para o painel, ao lado da Austrália.

Apesar de não ter ainda o mesmo grau de sofisticação dos modelos produzidos no Hemisfério Norte – principalmente nos Estados Unidos e na Europa -, o modelo brasileiro deverá trazer informações mais detalhadas sobre fenômenos tropicais importantes, que hoje são um ponto fraco do modelos internacionais. Por exemplo, sobre fenômenos climáticos relacionados a variações de temperatura das águas do Atlântico Sul e ao desmatamento da Amazônia, do Cerrado ou de outros biomas brasileiros, que podem trazer consequências climáticas continentais ou até globais.

Segundo o pesquisador Paulo Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desenvolvimento do modelo, além de contribuir para o entendimento das mudanças climáticas globais, trará benefícios locais, com o aprimoramento da capacidade de previsão do tempo e da ocorrência de eventos climáticos extremos no Brasil – como as chuvas fortes que alagaram São Paulo nos últimos dias.

“Não há como fazer uma boa previsão do clima global se não tivermos modelos capazes de fazer uma ótima previsão do tempo local”, afirma Nobre, que apresentou os primeiros resultados do modelo ontem, numa reunião da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Entre eles, a constatação de que o desmatamento da Amazônia aumenta a ocorrência do fenômeno El Niño.

O modelo enviado para publicação, chamado Besm-OA 2.3 (sigla em inglês para Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre – Oceano-Atmosfera), vem sendo desenvolvido desde 2008 por uma força-tarefa de cientistas ligados ao Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, à Rede Clima do governo federal e ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas.

Todos utilizam o supercomputador Tupã, instalado no Centro de Ciências do Sistema Terrestre (CCST) do Inpe, necessário para rodar toda a matemática por trás das previsões. A máquina custou R$ 50 milhões, pagos pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI) e pela Fapesp.

Capacitação. A opção de desenvolver um modelo próprio, em vez de adaptar um modelo já pronto de outro país, foi uma decisão estratégica com o intuito de formar uma nova geração de pesquisadores e capacitar o Brasil a produzir ciência de qualidade nessa área, segundo o pesquisador Carlos Nobre (irmão de Paulo), que foi um dos idealizadores do programa e hoje é secretário de Políticas e Programas de Pesquisa do MCTI. “É um esforço de desenvolvimento de competência”, disse.

Só a Rede Clima, por exemplo, já formou 74 mestres, doutores e pós-doutores em 5 anos e tem outros 184 em formação, com um investimento de R$ 4,7 milhões do CNPq. Resultado: 127 trabalhos já publicados em revistas internacionais e 72, em periódicos nacionais.

Estes números são do relatório de atividades 2011-2012 da Rede Clima, ainda não publicado. O relatório do período 2010-2011 e outras informações sobre a rede podem ser obtidas neste link.

Sobre o relatório. O próximo relatório completo do IPCC só deverá ficar pronto daqui a dois anos, no fim de 2014. Será o quinto Relatório de Avaliação (AR 5, em inglês) produzido pelo painel.

A primeira parte do documento, porém, deverá ser aprovada já em setembro deste ano – justamente a que trata das previsões de aumento da temperatura e das mudanças climáticas associadas ao aumento da concentração de gases do efeito estufa na atmosfera.

As previsões são baseadas em dezenas de modelos produzidas por vários centros de pesquisa no mundo todo – quase todos no Hemisfério Norte. Cientistas brasileiros já colaboram há anos com o IPCC, mas nunca antes com um modelo global de previsão climática.

Segundo Guy Brasseur, diretor do Centro de Serviços Climáticos da Alemanha, o modelo brasileiro será crucial para preencher lacunas relacionadas a fenômenos climáticos da região tropical. “Os trópicos são um sistema extremamente complicado de modelar”, disse, em evento na Fapesp.

Seja qual for a nova previsão do IPCC, Brasseur já adianta que será “praticamente impossível” manter o aumento da temperatura global abaixo do limite “tolerável” de 2ºC. Isso exigiria uma redução de 80% nas emissões de CO2.