Cientistas acham vírus da zika em macacos

Cientistas acham vírus da zika em macacos

Estudo levanta hipótese de que micos, saguis e outros primatas podem se tonar reservatórios naturais do vírus, dando origem a um ciclo silvestre da doença, semelhante ao da febre amarela -- o que tornaria sua erradicação impossível

Herton Escobar

31 Outubro 2018 | 06h00

Foto: Alex Silva/Estadão

Imagine se o vírus da zika, além de ser transmitido entre pessoas por mosquitos urbanos, como ocorre com a dengue, também pudesse infectar macacos selvagens e se tornar endêmico na natureza, como acontece com a febre-amarela. Esse é o panorama contemplado por um estudo publicado ontem na revista Scientific Reports.

A pesquisa identificou o vírus da zika em dezenas micos e saguis mortos em São José do Rio Preto, no interior paulista, e na região metropolitana de Belo Horizonte, a capital mineira. Os animais foram mortos por pessoas durante a epidemia de febre amarela no Sudeste, no início de 2017, quando havia o medo — injustificado — de que eles eram os responsáveis por disseminar o vírus.  

Os cientistas resolveram investigar as carcassas para ver se os animais estavam mesmo infectados e não encontraram o vírus da febre amarela em nenhum deles. Mas acharam o vírus da zika, que é um parente próximo. Dos 82 macacos mortos analisados (gêneros Callithrix e Sapajus), 32 tinham o vírus.

Estudos genéticos mostraram, depois, que o vírus era o mesmo que infectava pessoas. “O vírus saiu dos seres humanos e passou para os macacos”, diz o pesquisador Maurício Nogueira, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), que coordena o estudo. 

O risco associado a isso é que os macacos se tornem reservatórios selvagens do vírus da zika (ZIKV), capazes de dar origem a novos surtos, como ocorre de tempos em tempos com o vírus da febre amarela. Isso tornaria a erradicação dele praticamente impossível, segundo os pesquisadores.

“Quando não há um reservatório silvestre alguém tem que trazer o vírus de fora”, explica Nogueira. Quando o vírus passa a ser endêmico, porém, “ele está sempre batendo na porta, até achar uma população suscetível”. Nesse caso, a estratégia de monitoramento e controle do vírus teria de ser adaptada, levando em conta essa ameaça permanente. Por exemplo, com o uso de vacinação preventiva em áreas de risco — quando houver uma vacina disponível.

Desde que o ZIKV chegou ao Brasil, em 2013, a transmissão têm ocorrido apenas entres seres humanos, por meio do Aedes aegypti, que é um mosquito essencialmente urbano. Os números da doença vêm caindo gradativamente desde o pico da epidemia de 2015, por conta das medidas preventivas e da imunidade natural que foi sendo adquirida pela população. Em 2017, o Ministério da Saúde registrou 17,5 mil “casos prováveis” de doença aguda causada pelo zika. Neste ano, até agora, foram 7,4 mil — a maior parte deles (36,5%) no Sudeste.

“O vírus continua por aí”, alerta Nogueira, que é presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

O sagui-estrela é um dos macacos investigados no estudo; muito bem adaptado a áreas urbanas. Foto: Marcos de Paula/Estadão

O infectologista Marcos Boulos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenador de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde, disse que o estudo faz uma verificação importante, mas que não implica na necessidade de novas medidas de controle, porque as características do vírus do zika tornam improvável a ocorrência de uma nova epidemia numa mesma população.

“É importante saber que essa possibilidade existe, mas não há um grande impacto naquilo que já estamos fazendo”, diz. Uma possível medida de prevenção adicional — se a hipótese de reservatório silvestre for confirmada —, seria orientar e vacinar pessoas que fiquem expostas ao vírus em regiões de mata.

Transmissão. Os pesquisadores coletaram mosquitos Aedes aegypti das mesmas regiões em que os macacos viviam e verificaram que muitos deles também carregavam o vírus da zika. Por enquanto não há evidências, porém, de que tenha havido transmissão de macacos para seres humanos. “Não sabemos ainda a quantidade de vírus que os macacos podem produzir, e se isso é suficiente para infectar o mosquito de volta”, diz Nogueira. Em outras palavras, resta saber ainda se os macacos são hospedeiros “amplificadores” ou “terminais”, que recebem mas não transmitem o vírus.

O grupo agora está coletando mosquitos e o sangue de macacos selvagens na região de Manaus (AM), para ver se o ZIKV está circulando por ali, na selva amazônica. O vírus da zika foi originalmente descoberto nas florestas africanas de Uganda, em 1947, justamente durante um trabalho de monitoramento da febre amarela.

O vírus já havia sido identificado em macacos no Ceará em 2016 por cientistas ligados à Rede Zika, mas essa é a primeira vez que ele é registrado claramente no contexto da epidemia, segundo reportagem da Agência Fapesp.

Também assinam o novo trabalho na Scientific Reports pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, do Instituto Adolfo Lutz, da Universidade de São Paulo, da Universidade Estadual Paulista, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Dengue e da University of Texas Medical Branch (UTMB).