COMO VOCÊ SE MOVE

COMO VOCÊ SE MOVE

Herton Escobar

26 Setembro 2010 | 20h28

ENGRENAGENS CELULARES

Alguns dias atrás sofri uma cãibra incrivelmente dolorosa na panturrilha direita (vulga “batata da perna”) …

A cãibra, para quem não sabe, é uma contração involuntária de um músculo esquelético — uma das poucas coisas que nós, normalmente, controlamos de fato no nosso corpo. O que me causa uma certa revolta … Afinal, quem a minha panturrilha pensa que é para se contrair sozinha, contra a minha vontade? Motim celular!!! Não posso aceitar uma coisa dessas!

Mas muita calma nessa hora … Pensando um pouco melhor, é incrível que só tenhamos cãibras de vez em quando, pois o sistema de controle das contrações musculares é um negócio tão complexo, tanto do ponto de vista mecânico quanto fisiológico, que deveria dar “tilt” umas 50 vezes por dia. Cada movimento que você faz, por mais simples que seja, envolve uma cadeia surpreendentemente complexa (e incrivelmente instantânea!) de reações bioquímicas e engrenagens moleculares.

Os músculos esqueléticos que movem o seu corpo (assim chamados porque estão presos ao esqueleto) são, essencialmente, feixes empacotados de milhões e milhões de células musculares (as chamadas fibras), que têm uma anatomia completamente diferente das outras células do corpo. Esqueça aquela imagem clássica de um saquinho gelatinoso cheio de organelas “boiando” lá dentro … As células musculares são como tubos recheados de tubinhos ainda menores e perfeitamente ordenados, chamados miofibrilas

Dentro das miofibrilas, por sua vez, estão fibras ainda menores de proteínas (as famosas actina e miosina), que se encaixam como engrenagens mecânicas e se movimentam umas sobre as outras para produzir força.

Não precisa entender todas a reações e moléculas envolvidas. O conceito principal é que cada movimento do seu corpo – seja para apertar uma tecla no computador ou fazer uma série de polichinelos na academia – envolve forças mecânicas de contração e relaxamento muscular que são comandadas bioquimicamente pelo cérebro. Para digitar cada letra deste texto, o meu cérebro enviou um comando para os músculos dos meus dedos dizendo: “indicador direito, estique para cima e aperte a tecla U”, ou “dedinho esquerdo, desça 2 cm e pressione a tecla Z”, e assim por diante, até o ponto final.

Essa ordem viaja como um impulso elétrico (chamado potencial de ação) pela “network” de neurônios que conecta o cérebro a todos os músculos e outros órgãos do corpo. Cada célula (fibra) muscular tem uma terminação nervosa individual de comando conectada a ela. Quando o potencial de ação atinge essa terminação, há uma injeção de cálcio na célula. Esse cálcio interage com a actina, permitindo que os “ganchos” da miosina se encaixem nela e a movimentem. (veja esses vídeos na internet para uma explicação gráfica mais detalhada: Estrutura do músculo esquelético e Interação actina-miosina)

Esses desenhos que você vê nos vídeos e nas ilustrações de livros didáticos não são formas simbólicas … elas são formas reais! Cada molécula do nosso corpo tem uma estrutura específica. As coisas não interagem apenas quimicamente, mas também fisicamente. As moléculas se encaixam e se separam como peças de um quebra-cabeça … ou como as engrenagens de uma máquina, no caso da contração muscular. Não é a movimentação do músculo que faz a actina e a miosina se moverem. É a força da miosina “agarrando e puxando” a actina que causa a contração do músculo. E é a contração dos músculos que faz o seu esqueleto se mover.

Tudo isso está acontecendo milhões e milhões de vezes por segundo, na velocidade de um piscar de olhos, para cada movimento que você faz. Na verdade, mais rápido do que um piscar de olhos … pois piscar os olhos também é um movimento muscular. Imagine só!

A cãibra, voltando ao episódio que motivou toda essa conversa, ocorre geralmente quando você exige tanto do músculo que acaba causando um “curto-circuito” nesse sistema todo. A miosina puxa a actina até onde pode e não larga mais. O músculo se contrai totalmente e “trava” momentaneamente, causando dor … até que o curto-circuito passa, a miosina solta os ganchos da actina e o músculo consegue relaxar novamente. Fim do motim celular.

Abraços a todos.