DE OLHO NO PEIXE-LEÃO

DE OLHO NO PEIXE-LEÃO

Herton Escobar

26 Junho 2011 | 21h29

Peixe-leão arpoado nas Bahamas. FOTO: Herton Escobar/AE

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Ontem foi publicada no Estadão a minha primeira matéria especial como “repórter viajante”, sobre a invasão do Caribe pelo peixe-leão (tema do meu primeiro post aqui no blog também, desde que deixei o Brasil, sete meses atrás). Para ser  mais exato, não é apenas “uma matéria”, mas um grande pacote de informações multimídia, incluindo textos, infográficos, fotos e vídeos, que produzi ao longo de várias semanas de trabalho em Bonaire e nas Bahamas.

Abaixo, copio o trecho de uma matéria que, infelizmente, não tive espaço para incluir nos textos do jornal impresso, mas que está disponível no material online, sobre um projeto de pesquisa na ilha de Eleuthera, nas Bahamas. No final de abril/início de maio tive a oportunidade de passar alguns dias no Cape Eleuthera Institute (www.ceibahamas.org) e de acompanhar seus pesquisadores em alguns mergulhos para o monitoramento de peixes-leões. Vejam como foi …

MATEMÁTICA SUBMARINA

Em Eleuthera, uma ilha longa e estreita a leste de New Providence, nas Bahamas, outro projeto de longo prazo busca avaliar o impacto do peixe-leão sobre a biodiversidade dos recifes de coral. Todos os meses, jovens pesquisadores do Cape Eleuthera Institute (CEI), uma instituição privada de pesquisa, saem de lancha para vistoriar 24 pontos de recifes localizados em águas rasas da Baía de Rock Sound, ao sul da ilha. Em cada um deles, a bióloga Skylar Miller consulta uma tabela com um “número-alvo” de peixes-leões que deveriam existir ali, segundo parâmetros estabelecidos pela pesquisadora Stephanie Green, da Universidade Simon Frasier, no Canadá, que supervisiona o estudo. Cada ponto funciona como um experimento controlado. Seis recifes são mantidos totalmente livres de peixes-leões. Outros seis são deixados intocados, com quantos peixes-leões aparecerem por ali naturalmente. E 12 são mantidos artificialmente com números pré-determinados de peixes-leões. Alguns com poucos, outros com muitos.

“Se tiver mais peixes-leões do que o número-alvo, removemos o excesso. Se tiver menos, adicionamos o que for preciso”, explica Skylar. “É um tanto estranho ter de colocar mais peixes-leões na água, quando o que queremos de fato é nos livrar deles, mas só assim temos como avaliar qual é o impacto de uma determinada densidade sobre os recifes.”

A cada visita mensal, os pesquisadores fazem uma avaliação do estado de saúde dos recifes, anotando o tamanho, o número e a variedade de espécies nativas presentes para, no final, fazer comparações e tentar correlacionar isso com o número de peixes-leões em cada um deles.

Na vistoria de maio, Skylar teve de adicionar dois peixes-leões ao recife denominado Ponto 90, onde a densidade-alvo é de 29 peixes, mas havia apenas 26. Ficou faltando acrescentar mais um, ainda. Já no ponto 74, onde a meta é manter o recife livre de peixes-leões, foram encontrados 11 invasores que não estavam lá no mês anterior. Sete foram removidos e quatro, escaparam.

Fora das áreas de pesquisa, o número-alvo de peixes-leões é sempre o mesmo: zero.  Ou o menor possível. O Estado acompanhou os pesquisadores do CEI numa caçada no sul de Eleuthera, num ponto de mergulho conhecido como “buraco na parede”. Bastou alguns minutos para Skylar avistar o primeiro peixe-leão, um macho adulto de quase 40 centímetros, pairando sobre o ponto mais alto do recife, como um rei leão que observa a savana africana do alto de sua pedra na colina. Usando um arpão conhecido como “estilingue havaiano”, Skylar não teve dificuldades para capturar o animal – que, demonstrando a característica arrogância da espécie, praticamente não se moveu à medida que ela se aproximava.

O golpe do arpão não mata instantaneamente o peixe, que fica se esperneando na ponta da lança. Com uma luva grossa nas mãos, para se proteger dos espinhos venenosos, Skylar puxa o peixe-leão pela cabeça e o coloca em um saco plástico transparente para transporte. Uma nuvem de sangue flui da ferida, tingindo a água dentro da sacola. Por causa da profundidade (20 metros), o líquido que seria vermelho aparece como verde, dando ao evento uma aparência um tanto fantasmagórica.

Ao fim do mergulho, de 45 minutos, a sacola fica lotada com dez peixes-leões de bom tamanho. De volta ao laboratório, abrimos o estômago do maior deles, de 37 centímetros, e contamos 19 peixinhos embolados numa massa semi-digerida. Uma pequena amostra do mal estar que o apetite do peixe-leão pode causar à biodiversidade dos recifes se não forem removidos.

O trabalho de monitoramento continuará até o fim de 2012, e os primeiros resultados devem sair em 2013. Até lá, os estilingues havaianos terão de dar conta do recado.

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A matéria completa sobre o peixe-leão nas Bahamas pode ser lida aqui: Bahamas ainda busca solução para controlar invasor

Tem também um texto bem interessante sobre o uso do peixe-leão na culinária e as tentativas que estão sendo feitas para transformá-lo numa espécie de pesca comercial, que pode ser lida aqui: Peixe-leão para o jantar

O vídeo acima mostra a bióloga Skylar Miller e o estagiário Avery Goelz fazendo contagem de peixes-leões em um desses recifes de águas rasas da Baía de Rock Sound. O peixe-leão gosta de ficar entocado nos recifes, quando não está caçando, por isso várias vezes é preciso enfiar as cabeças no meio dos corais para encontrá-los. (infelizmente não pude gravar as cenas da caçada que eu descrevo no fim da matéria, porque o equipamento fotográfico que eu tinha naquele momento só podia ir até 10 metros de profundidade, e aquele foi um mergulho mais fundo – passando de 20 metros. Agora já tenho uma câmera que vai até 40 metros.)

Abaixo, uma cópia da reportagem como foi publicada no Estadão de ontem.

Abraços a todos.