O que são e como funcionam as vacinas

O que são e como funcionam as vacinas

Pesquisador da USP fala sobre os mecanismos de ação e a segurança das vacinas; tema do próximo USP Talks, dia 28 de agosto. Evento é gratuito e aberto ao público, no auditório do MASP

Herton Escobar

23 Agosto 2018 | 07h00

Vacina contra a febre amarela. Foto: Rafael Arbex/Estadão

Vacina de vírus inativado. Vacina com partículas virais. Vacina de DNA. Sabe o que tudo isso significa? O pesquisador Luís Carlos Ferreira, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) explica na entrevista abaixo o que são as vacinas, seus diferentes tipos, como elas funcionam, e as questões de segurança e eficácia relacionadas a elas.

Responsável pelo Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas da USP, ele será um dos palestrantes do próximo USP Talks, dia 28 de agosto, ao lado da epidemiologista Carla Domingues, coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, que falará sobre a volta do sarampo e os riscos associados à queda nos índices de vacinação de várias outras doenças no Brasil.

Mais detalhes sobre o evento no link: https://goo.gl/3yyPmC. O evento é gratuito e aberto ao público.

Como funcionam as vacinas, de uma forma geral? 

Luís Carlos Ferreira: As vacinas têm por finalidade simular uma doença infecciosa, só que de forma segura, sem causar a doença nem efeitos colaterais graves. Uma vez aplicada, a vacina desencadeia uma série de reações imunológicas, que levam a um estado de proteção (imunidade protetora) contra a doença para a qual a vacina foi desenvolvida. Essa proteção tem como principais características a longevidade e a especificidade. Para a maioria das vacinas atualmente disponíveis a imunidade protetora é atribuída à produção de anticorpos que reconhecem o patógeno (agente causador de doença) e o impedem de se multiplicar e causar a doença no indivíduo vacinado.

Existem diferentes tipos de vacinas? Quais são, e quais as diferenças essenciais entre eles?

LCF: Atualmente existem mais de 60 vacinas desenvolvidas e aprovadas para uso em seres humanos. Vinte e oito (28) delas estão disponíveis para a população brasileira. Quanto à composição, as vacinas são classificadas em três grandes grupos. As de primeira geração incluem vacinas que contêm na sua formulação microrganismos inteiros vivos, mortos ou atenuados (ou seja, incapazes de causar doença). As vacinas de segunda geração contêm na sua formulação frações ou fragmentos de patógenos, como proteínas e açúcares, muitas vezes produzidas por microrganismos diferentes daqueles que causam a doença.  Por fim, existem as vacinas de terceira geração, que utilizam apenas a informação genética do patógeno (são as chamadas vacinas genéticas). Todas as vacinas atualmente disponíveis são de primeira ou segunda geração.

As vacinas são seguras? Por que algumas pessoas têm reações adversas a elas — podendo até levar à morte em alguns casos?

LCF: Para a grande maioria da população as vacinas em uso são seguras e não causam reações adversas graves. Em geral, reações locais são muito brandas ou imperceptíveis; mas, em alguns indivíduos, reações podem ser notadas (febre, inflamação local, mal estar, irritação na pele, etc). Em um número ainda menor de pessoas, reações mais graves, como alergias, infecções locais ou sintomas semelhantes à doença para qual a vacina foi desenvolvida podem ser notados (em geral menos de um para cada 100.000 pessoas vacinadas). Registros de mortes associadas às vacinas são ainda mais baixos e, quando bem analisados, constata-se que a causa da morte não foi relacionada à vacina, mas a outro evento.

Como a segurança das vacinas se compara a dos medicamentos, de uma forma geral?

LCF: Assim como qualquer medicamento, vacinas devem ser utilizadas segundo prescrições e orientações médicas. As vacinas devem ser aplicadas na idade correta, em quantidade correta e em número de doses correto para que funcionem e não causem efeitos colaterais indesejáveis. Antes de ser liberada para uso em seres humanos, cada vacina passa por uma série de testes clínicos que avaliam a sua segurança e a eficácia em seres humanos. Esses testes clínicos levam anos para serem concluídos. Qualquer vacina que mostre uma incidência maior de efeitos colaterais indesejáveis ou confira uma baixa proteção imunológica à doença para a qual foi desenvolvida é reprovada e não é comercializada.

Seria possível, com mais pesquisas, produzir uma vacina 100% segura (sem risco de efeitos colaterais)?

LCF: À medida que as tecnologias de desenvolvimento e produção se aprimoram, as vacinas se tornam mais seguras e eficazes para uso em humanos. Uma vacina desenvolvida hoje é, em geral, mais segura do que vacinas desenvolvidas no passado. No entanto, assim como qualquer medicamento, há um risco (muito baixo) de que certas pessoas desenvolvam reações colaterais. Existe também o risco de pessoas vacinadas não desenvolverem a proteção imunológica que se espera delas. No entanto, esses casos são muito limitados e não impactam o benefício que as vacinas trazem para uma população, caso a maioria das pessoas seja vacinada corretamente.

Quais são as doenças consideradas prioritárias para o desenvolvimento de novas vacinas nesse momento? E em que pé está esse desenvolvimento?

LCF: Hoje temos cerca de 60 vacinas que se mostram eficazes para a prevenção de doenças infecciosas. No entanto, existe pelo menos uma centena de patógenos para os quais ainda não se dispõe de vacinas eficazes e seguras para uso em seres humanos. Por exemplo, não temos vacinas para prevenir infecções hospitalares nem muitas doenças sexualmente transmissíveis (como HIV e sífilis), respiratórias ou diarreicas, sejam elas causadas por vírus, bactérias ou parasitos. Também não dispomos de uma única vacina capaz de prevenir infecções por fungos (candidíase, aspergiloses entre outras) ou parasitos (como doença de Chagas e malária) que causam um grande número de doenças e ainda matam milhares de pessoas anualmente. Tais vacinas representam um enorme desafio a ser enfrentado. As armas para enfrentarmos esse desafio são o conhecimento científico e a determinação política de priorizar os investimento nessa área.