‘Futebol é um capítulo da nossa história social’

‘Futebol é um capítulo da nossa história social’

Em tempos de crise, futebol resgata as raízes do orgulho nacional, diz o sociólogo do esporte Mauricio Murad, que será um dos palestrantes do próximo USP Talks, sobre Futebol: Esporte, Cultura e Paixão

Herton Escobar

16 Junho 2018 | 08h00

Torcedoras assistem a um jogo do Brasil. Foto: Fabio Motta/Estadão (2014)

Em tempos de crise econômica e moral, o futebol resgata as “raízes mais profundas” da coletividade nacional e entra em campo como uma “marca vencedora” da sociedade brasileira. “O futebol brasileiro representa a consolidação de uma identidade coletiva, de um símbolo nacional, apesar de todas as suas contradições”, diz o sociólogo Mauricio Murad, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universo – Universidade Salgado de Oliveira, especialista em sociologia dos esportes e apaixonado por futebol (como todo mundo).

Murad será um dos palestrantes do USP Talks deste mês, que entra no clima da Copa do Mundo com o tema “Futebol: Esporte, Cultura e Paixão”. O evento acontece nesta terça-feira, dia 19, das 18h30 às 19h30, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (MASP). A entrada é gratuita e haverá transmissão ao vivo pelo Facebook. O outro palestrante será o professor Varley Costa, coordenador do UFMG Soccer Science Center, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Leia abaixo a entrevista de Murad ao Estado.

O que o futebol tem de tão especial, que faz dele esse fenômeno mundial, capaz de encantar milhões de pessoas ao redor do mundo, de forma tão apaixonada? Coisa que nenhum outro esporte é capaz de fazer com tamanha intensidade.

Eu destacaria três características: 1) Poucas regras, claras e simples, que dificilmente mudam; 2) É um esporte barato, que exige poucos e simples equipamentos para ser praticado, e não custa nada para se organizar uma pelada de rua; 3) É a modalidade mais imprevisível, onde o fraco pode vencer o forte com mais frequência, e assim imita a vida como ela é.

E por que ele deu tão certo no Brasil, a ponto de sermos conhecidos como “o país do futebol”?

No Brasil, a história do futebol é um capítulo da nossa história social, da luta contra a discriminação racial e de classe. Por isso o futebol representa tanto a coletividade do país; as nossas raízes mais profundas.

Historicamente, qual é o papel do futebol — e da seleção brasileira — na construção e evolução da cultura brasileira?

O futebol brasileiro representa a consolidação de uma identidade coletiva, de um símbolo nacional, apesar de todas as suas contradições, de todos os seus prós e contras, que expressam as contradições dessa coletividade. Esse processo de consolidação aconteceu entre as décadas de 1940 e 1960; época em que a cultura brasileira procurava pensar o nosso país, por meio de suas raízes históricas e seus fundamentos sociais. O futebol foi uma de suas expressões mais marcantes.

Qual é a importância dessa Copa do Mundo para o Brasil, do ponto de vista social e cultural, considerando o momento político e econômico que o país vive atualmente?

A possibilidade de se confirmar que, no Brasil, quem fracassa de verdade são as elites políticas e econômicas, que vivem uma profunda crise, sobretudo moral. Apesar da trágica corrupção dos governos, dos empresários, da CBF e de suas federações, o futebol como arte e cultura popular pode mostrar a sua marca vencedora — a mesma marca histórica e cultural que está na base da capoeira, do samba, do frevo, do carnaval e de outras festas e celebrações populares, símbolos do país.

A paixão pelos clubes de futebol no Brasil é tão grande que muitas vezes beira o fanatismo e, infelizmente, acaba desencadeando ódio e violência entre as torcidas. Como o senhor enxerga essa questão, e como lidar com isso? 

Esse é um dos lados mais sombrios do futebol: a violência, que confunde adversário com inimigo. É preciso combater as gangues infiltradas nas torcidas e preservar a maioria, que está lá pela festa, com um plano nacional de punição no curto prazo, prevenção no médio prazo e reeducação, no longo prazo.

O USP Talks é uma iniciativa de jornalismo e divulgação científica da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo, e apoio da Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo (FUSP). Os eventos acontecem todos os meses, sempre sobre um tema diferente. Assista à todos os eventos anteriores no nosso canal do YouTube: https://goo.gl/oaZZmT

Mauricio Murad. Foto: Fabio Motta/Estadão (2016)