Genoma ‘ressuscitado’ reescreve a história dos cavalos

Genoma ‘ressuscitado’ reescreve a história dos cavalos

Herton Escobar

27 Junho 2013 | 16h24

FOTO: Cavalo-de-Przewalski na Mongólia (Crédito: Claudia Feh/Association Pour le Cheval de Przewalski)

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Cientistas apresentaram ontem o genoma mais antigo já sequenciado, de um cavalo que viveu há 700 mil anos onde hoje é o oeste do Canadá. Os dados genéticos, extraídos de fragmentos de ossos que ficaram preservados no solo congelado da região, contam uma história bem mais longa do que a atualmente conhecida sobre a evolução desses animais, que estão entre os mais admirados e queridos pelos seres humanos há milhares de anos.

O genoma do fóssil, apresentado na revista Nature, é mais de dez vezes mais antigo do que o do hominídeo Denisovan, publicado no ano passado por cientistas na Alemanha, com cerca de 50 mil anos de idade. O trabalho só foi possível graças a novas tecnologias de sequenciamento e bioinformática, que permitiram colocar em ordem milhões de fragmentos de DNA preservados no osso pelas baixas temperaturas.

“Estimamos que será possível ultrapassar a marca de 1 milhão de anos (em genomas futuros)”, disse o pesquisador Ludovic Orlando, da Universidade de Copenhague, que encabeça a lista de autores do estudo.

O problema é que o DNA se degrada rapidamente após a morte e, mesmo no permafrost canadense, torna-se extremamente fragmentado e danificado com o tempo, dificultando seu sequenciamento.

Os pesquisadores utilizaram todas as tecnologias disponíveis para remontá-lo e, mesmo assim, conseguiram cobrir o genoma por inteiro apenas uma vez – normalmente, um genoma tem de ser sequenciado várias vezes para garantir a acurácia dos dados. “Com mais tempo, tenho certeza de que conseguiremos produzir um genoma de melhor cobertura”, disse o coordenador do estudo, Eske Willerslev.

Apesar dessa limitação, a leitura dos dados genéticos permite inferir uma série de características interessantes sobre a evolução dos equinos (animais do gênero Equus, que inclui os cavalos, zebras e asnos).

Idade maior. Além do fóssil de 700 mil anos, os pesquisadores sequenciaram o genoma de um outro cavalo extinto, de 43 mil anos, assim como o de um asno, de cinco raças de cavalos modernos domesticados e de um cavalo-de-przewalski, uma linhagem de cavalos selvagens da Mongólia.

Compararam tudo isso e chegaram à conclusão de que a linhagem evolutiva que deu origem aos equinos modernos tem entre 4 milhões e 4,5 milhões de anos – duas vezes mais antiga do que se propunha até agora.

Características associadas à força e velocidade em corridas, segundo o estudo, só se desenvolveram mais recentemente, nos últimos 200 mil anos. “Os genes que fazem do cavalo uma máquina de corrida não estavam presentes na origem, 700 mil anos atrás; eles são produtos de uma evolução bem mais recente”, diz Orlando.

Os dados também confirmam que os cavalos-de-przewalski representam a última linhagem de cavalos verdadeiramente selvagens do planeta. A espécie chegou a ser classificada como extinta na natureza, na década de 1960, mas foi reintroduzida às estepes da Mongólia nos anos 1990, utilizando-se animais de cativeiro, e hoje é considerada “apenas” ameaçada de extinção, com uma população de algumas dezenas de animais adultos reproduzindo-se livremente na natureza. “Não encontramos nada de DNA domesticado nesse animal. É 100% selvagem”, disse Willerslev.

Há outras raças chamadas “selvagens” no mundo – como os mustangues norte-americanos –, mas que descendem, na verdade, de cavalos domesticados que “escaparam”.

Com o aprimoramento da técnica, cientistas esperam pode sequenciar o genoma de fósseis ainda mais antigos – incluindo de outros ancestrais humanos.

FOTO: Fragmentos de ossos usados na pesquisa. (Crédito: Ludovic Orlando)