INTELIGENTE PRA CACHORRO … OU CORVO

Herton Escobar

21 Setembro 2010 | 12h12

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FOTO: SIMON WALKER

“A inteligência é uma diferença quantitativa e não qualitativa.”

Essa frase me foi dita cerca de um ano atrás pelo biólogo molecular Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais, quando o entrevistei para uma reportagem comemorativa dos 150 anos da publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin. O tema da matéria era: O que nos faz humanos? Se o nosso genoma é quase 99% idêntico ao do chimpanzé, e em grande parte também idêntico ao de todos os outros vertebrados, onde é que está a diferença? O que diferencia o ser humano dos outros seres vivos deste planeta?

A resposta aparentemente mais óbvia é “a inteligência”. Nós somos inteligentes (ou melhor: temos a capacidade para sermos inteligentes), e os outros animais são burros. Certo? Bem, não exatamente … Quanto mais eu observo o mundo animal, mais eu me impressiono com as coisas incríveis que certas espécies são capazes de fazer.

O que o professor Fabrício quis dizer (e eu concordo totalmente com ele) é que alguns animais são mais inteligentes do que os outros, mas todos são inteligentes de alguma forma. Ou seja: o que varia é a “quantidade” de inteligência, e não a ausência ou presença dela (o que configuraria uma diferença “qualitativa”). O homem é a espécie mais inteligente de todas, mas isso não significa que outros animais não sejam, também, inteligentes.

O exemplo mais óbvio é o cão, às vezes tão inteligente que parece até gente. Mas há muitos outros, talvez menos óbvios, porém igualmente impressionantes. Veja esse corvo da Nova Caledônia, por exemplo, na foto acima. Foi ele que me fez lembrar dessa frase de um ano atrás …

Outra característica que poderia ser apontada como um diferencial do ser humano é a nossa capacidade de utilizar ferramentas. Você não vê nenhum outro animal por aí construindo lanças para caçar seu jantar nem usando garfos para se alimentar dele. Muito menos construindo computadores e digitando textos em seus teclados. Mas esse corvo usa, sim, uma ferramenta. Ele usa gravetos para cutucar pequenas tocas e extrair larvas de besouro de dentro de troncos de árvores. E isso requer inteligência. Um estudo publicado na última edição da revista Science mostrou que essas larvas são uma parte importantíssima da dieta desses pássaros, e que eles têm uma dificuldade imensa para aprender a “manusear” os gravetos quando jovens. Mas é um aprendizado que vale a pena, pelas deliciosas e nutritivas larvas de besouro.

Há vários outros exemplos. Chimpanzés também usam gravetos ou caules de folhas para “pescar” cupins. Baleias nadam em círculos e usam bolhas de ar para “aprisionar” cardumes de krill. Leões caçam em grupo utilizando estratégias que parecem ter sido combinadas e desenhadas previamente numa reunião. Esquilos enterram comida antes do inverno, assim como nós estocamos comida na geladeira para o fim de semana. Pássaros constroem ninhos de dar inveja a qualquer arquiteto ou engenheiro humano.

Enfim … Tem inteligência de sobra por aí no reino animal. Nós é que, muitas vezes, não somos inteligentes o suficiente para perceber isso.

Abraços a todos.