Jovens pesquisadores pedem adesão do Brasil ao ESO

Jovens pesquisadores pedem adesão do Brasil ao ESO

Herton Escobar

22 de outubro de 2013 | 13h57

FOTO: Modelo 3D da Via Láctea, desenvolvido com base em pesquisas desenvolvidas no ESO. Crédito: ESO/NASA/JPL-Caltech/M. Kornmesser/R. Hurt

A saga da adesão do Brasil ao Observatório Europeu do Sul (ESO) segue em frente, sem previsão de epílogo, oito  meses após o envio do projeto ao Congresso. O capítulo mais recente envolve a publicação de uma carta de apoio, assinada por mais de 130 jovens astrofísicos brasileiros, pedindo a ratificação do acordo (assinado originalmente em dezembro 2010 pelo então ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, e enviado ao Congresso para análise em fevereiro deste ano).

Para quem não conhece, o ESO é um consórcio de pesquisa astronômica, envolvendo 14 países europeus, que opera vários telescópios de ponta no topo dos Andes chilenos. É considerado o mais avançado e mais produtivo observatório astronômico da atualidade.

Segundo os jovens (pós-graduandos de instituições brasileiras e estrangeiras), “a adesão do Brasil ao consórcio ESO representará um enorme passo para a astronomia brasileira”. Uma cópia eletrônica da carta foi enviada por e-mail a todos os parlamentares da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara no início deste mês, além de cópias em papel, via correio, para o presidente da comissão e para o relator do projeto, na semana passada. A íntegra da carta pode ser lida neste link: http://brasilnoeso.blogspot.com.br/

As últimas informações repassadas ao Estado pelos Ministérios das Relações Exteriores e da Ciência e Tecnologia, no início deste mês, são de que  o projeto de adesão “foi aprovado pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN) em 11 de setembro e encontra-se sob exame da Comissão de Constituição de Justiça e Cidadania (CCJC), da Comissão de Finanças e Tributação (CFT) e da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCTCI)”, e que “uma vez aprovado pela Câmara dos Deputados, o texto seguirá para exame no Senado Federal”.

Quanto tempo essa análise vai levar, ninguém sabe. Considerando que 2013 já quase acabou e 2014 será um ano eleitoral (e que astronomia não tem nenhum valor em qualquer tipo de negociação política), é provável que o projeto continue na fila de espera do Legislativo até 2015, pelo menos.

Trata-se de um tema polêmico, inclusive dentro do Instituto de Astronomia da USP, que é a principal instituição de pesquisa astronômica do País. A maioria da comunidade científica é favorável à adesão, mas há alguns pesquisadores influentes do instituto que são contra.

Independentemente dessa opinião, o fato é que o acordo foi assinado, e a carta dos jovens pesquisadores chama atenção para um ponto importante no seu penúltimo parágrafo: “A falta de cumprimento com o acordo assinado pelo então ministro Sérgio Rezende em 2010 significaria, além de tudo, a perda da confiança no Brasil para grandes acordos internacionais e um mal-estar para os cientistas brasileiros. Já que, desde o pré-acordo no final de 2010, o ESO dá ao Brasil os mesmos direitos de uso de suas instalações que os países-membros daquela instituição.”

É isso mesmo. O Brasil já aparece no site do ESO como membro há mais de dois anos, e pesquisadores brasileiros vem desfrutando das regalias desse status durante todo esse período, apesar de o País ainda não ter ratificado o acordo nem ter feito qualquer pagamento ao consórcio. Na prática, estamos curtindo o “clube” há quase três anos sem pagar matrícula nem mensalidade. Algo que certamente “não pega bem” para o País.

Vale lembrar aqui (e torcer para que não se repita) o fiasco da participação brasileira no consórcio de construção da Estação Espacial Internacional (ISS), no início dos anos 2000. O País se comprometeu a construir uma série de peças para a estação e, em troca, teria o direito de enviar um astronauta brasileiro para lá. O tenente coronel Marcos Pontes, da Força Aérea Brasileira, passou então oito anos em treinamento na Nasa, aguardando sua vez de embarcar num ônibus espacial e ser lançado ao espaço. Só que sua vez nunca chegou, porque o Brasil nunca construiu nenhuma das peças que prometeu e acabou sendo eliminado do consórcio. Para minimizar o vexame e não “morrer com o astronauta na mão”, por assim dizer, o País pagou US$ 10 milhões à agência espacial russa para colocar Pontes dentro de uma cápsula Soyuz e enviá-lo à ISS, essencialmente, como um “turista espacial”, em abril de 2006. No fim das contas, botamos um homem no espaço, só que pagando em dinheiro — não em ciência nem em tecnologia.

FOTO: Vista interna do detector de partículas do CMS, um dos experimentos instalados no LHC para detectar o bóson de Higgs. Crédito: © 2008 CERN

CERN. Outro acordo internacional que corre risco de cair no limbo é o da associação do Brasil à Organização Europeia de Pesquisas Nucleares (CERN) — que opera o maior acelerador de partículas do mundo (o famoso LHC) e que confirmou, recentemente, a existência do bóson de Higgs, tema do Prêmio Nobel de Física deste ano. Em entrevista recente ao correspondente do Estado em Genebra, Jamil Chade, o diretor do CERN, Rolf Heuer, disse que o Brasil é um “buraco negro” e criticou a demora do País em entregar a documentação necessária para sua adesão ao consórcio.

Em resposta à entrevista, os Ministérios das Relações Exteriores e da Ciência e Tecnologia emitiram o seguinte comunicado ao Estado:

 

“Sobre a adesão do Brasil ao CERN, não procede a informação de que o Brasil “não teria dado notícias”; o processo de adesão do Brasil como membro associado (status superior ao atual, de observador) ainda se encontra em curso. O Governo brasileiro assinou Declaração de Intenções com o diretor geral (DG) do CERN em setembro de 2010, que estabeleceu cronograma de trabalho para a eventualidade da adesão brasileira como membro associado.

Em visita ao CERN em abril de 2011, o MCTI sublinhou o interesse brasileiro em manter as tratativas de adesão brasileira; esclareceu, porém, ao DG do CERN, os cortes no orçamento do MCTI naquele ano. Em julho de 2012, o MCTI enviou comunicação oficial ao CERN, convidando missão daquela entidade a vir ao Brasil e entregando relatório sobre o panorama da ciência e tecnologia no Brasil. Em outubro de 2012, realizou-se visita de força-tarefa do CERN ao Brasil, com o objetivo de conhecer a infraestrutura brasileira de pesquisa e inovação, em particular na área de física de altas energias. A visita incluiu reuniões de trabalho com entidades como CNPq, CAPES, CGEE, SENAI, CBPF, Cenpes/Petrobras, COPPE/UFRJ, LNLS, IFT/UNESP, FAPESP e SBPC.

A força-tarefa do CERN elaborou relatório com avaliação positiva dos critérios para associação do Brasil ao órgão:
– base sólida em física de partículas;
– capacidade industrial desenvolvida, com possibilidade de realizar contratos para fornecimento de equipamentos ao CERN;
– compromisso do Brasil com apoio à pesquisa básica e participação no CERN.

Em maio de 2013, foram encaminhadas respostas a questionário do CERN referente ao processo de adesão do Brasil àquela Organização. A minuta do relatório da força-tarefa do CERN encontra-se sob análise do Governo brasileiro para verificação factual e comentários e deverá ser encaminhada para exame pelo Conselho do CERN, cuja próxima reunião está prevista para 12 de dezembro. Após aprovação do relatório pelo Conselho do CERN, a entidade e o Governo brasileiro ainda deverão aprovar os termos do acordo de associação, para subsequente encaminhamento ao Congresso Nacional para análise.”

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: