Somos mais bactéria do que gente

Somos mais bactéria do que gente

Corpo humano tem mais bactérias vivendo nele do que próprias células humanas.

Herton Escobar

21 Março 2010 | 13h23

Bactérias em cultura: esses riscos amarelos são tudo bactéria!

Eu nem te conheço, nunca te vi, mas uma coisa eu posso dizer com certeza (e você provavelmente não vai gostar, mas é verdade): Seu corpo, neste exato momento, e desde que você nasceu, está coberto de bactérias, vírus, fungos e outros seres “invisíveis”.

Seu rosto, suas mãos, seus braços, sua boca … Tudo cheio de microrganismos. O intestino, então, nem se fala! É bactéria pura.

De fato, temos mais bactérias vivendo dentro de nós do que células humanas. Dez vezes mais! Ou seja: se eu desmontasse seu corpo célula por célula e fizesse dois montinhos, um para células bacterianas e outro para células humanas, o montinho das bactérias teria 10 vezes mais células! Imagine só!

Isso só é possível, claro, porque as bactérias são muito menores do que uma célula humana, então mesmo com 10 vezes mais indivíduos elas ainda cabem confortavelmente dentro de nós. Ainda bem, pois sem elas não haveria digestão ….

Mas isso não é novidade. A novidade mais recente, publicada no início deste mês na revista Nature é que cientistas sequenciaram geneticamente todos esse trilhões de bactérias intestinais. Foi um trabalho meio sujo…. eles coletaram amostras de fezes de 124 indivíduos europeus, separaram todo o DNA que tinha lá dentro e sequenciaram. Identificaram na amostra total algo entre 1.000 e 1.150 espécies de bactérias, sendo que cada pessoa individualmente carrega uma média de 160 delas – as mais comuns e abundantes, que são compartilhadas pela maioria dos seres humanos (ou dos europeus, pelo menos… é provável que haja variação mais significativa entre pessoas de regiões e culturas diferentes, por conta da alimentação, estilo de vida, condições ambientais, etc)

Além disso, saíram recentemente alguns estudos muito interessantes sobre os micróbios que vivem na nossa pele, “do lado de fora”. No fim do ano passado, um grupo da Universidade do Colorado, nos EUA, sequenciou o DNA de amostras de bactérias coletadas de 27 partes do corpo humano: cabelo, ouvido, boca, mãos, braços, axilas, pernas, sola do pé, e por aí vai. Descobriram várias coisas legais. Entre elas, o fato de que o menu de espécies bacterianas varia de uma parte do corpo para outra. A biodiversidade das axilas é diferente da biodiversidade da sola do pé, que é diferente da biodiversidade do cabelo, e por aí vai.

Ou seja: cada parte do seu corpo é um ecossistema diferente, habitado por diferentes tipos de bactérias adaptadas às “condições ambientais” de cada um desses locais. Imagine só!

E mais: essa biodiversidade varia de pessoa para pessoa. Tanto que, segundo um estudo publicado na última edição da revista PNAS, a biodiversidade bacteriana dos dedos de uma pessoa pode ser usada como uma “impressão digital” para identificação de suspeitos numa investigação criminal, por exemplo. Os cientistas caracterizaram geneticamente a “impressão bacteriana” deixada por pessoas em mouses e teclados de computador, depois compararam essa impressão com 250 outras amostras e demonstraram que era possível identificar com precisão quem havia usado qual computador com base nas bactérias que aquela pessoa deixou para trás. Loucura né? Cada um com as bactérias que merece…..

Então, por favor, continue a tomar banho e lavar as mãos antes de comer, mas não espere se livrar das bactérias, porque elas fazem parte de você.

Abraços (cheios de bactérias) a todos.

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