Meteoro na Rússia: maior do que se imaginava

Meteoro na Rússia: maior do que se imaginava

Herton Escobar

18 Fevereiro 2013 | 11h46

Vejam abaixo cópia da reportagem que publiquei na edição de sábado do Estadão sobre o meteoro que caiu na Rússia na sexta-feira. Confesso que, ao escrever a matéria, fiquei extremamente preocupado com a possibilidade de estar relatando dados “exagerados” sobre o tamanho do meteoro e a energia produzida por ele. Naquele primeiro momento, a Nasa havia estimado que ele tinha 15 metros de diâmetro e 7 mil toneladas de massa (!!) ao entrar na atmosfera, e que a energia liberada na sua explosão era equivalente à de 20 bombas atômicas … ou mais (!!!).

“Não pode ser tudo isso … “, pensei. Mas eram números oficiais da Nasa, e eles lá entendem muito mais do assunto do que eu, então confiei nos especialistas e botei os números na reportagem. “Provavelmente vão revisar esses números para baixo no fim de semana”, pensei.

E não é que revisaram mesmo? Só que para cima!!!

Segundo as novas estimativas da Nasa, o meteoro que caiu sobre a Rússia tinha 17 metros de diâmetro e 10 mil toneladas de massa ao entrar na atmosfera. E, ao explodir, liberou uma energia equivalente à de 500 mil toneladas de dinamite (TNT), comparado às 18 mil toneladas de TNT da bomba atômica de Hiroshima. Imagine só!

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Herton Escobar / O Estado de S.Paulo (16/02/13)

A expectativa era de que a notícia do dia seria a passagem “de raspão” de um asteroide de 45 metros pela órbita da Terra, conforme previsto por astrônomos um ano atrás. Porém, a queda inesperada de um meteoro de 15 metros na Rússia, ontem de manhã, roubou a cena de maneira espetacular e acordou a humanidade para o risco real – ainda que pequeno – de o planeta ser atingido sem aviso por objetos espaciais, com consequências potencialmente destrutivas.

Mais de mil pessoas, incluindo centenas de crianças, ficaram feridas pela passagem do meteoro sobre Chelyabinsk, na região central da Rússia, segundo informações do Ministério do Interior russo. A cidade, localizada a 1,5 mil km de Moscou, nos Montes Urais, tem 1 milhão de habitantes. A queda ocorreu às 9h20 do horário local (1h20 em Brasília).

A maior parte dos ferimentos foi causada por estilhaços de vidro, lançados contra as pessoas no momento em que a onda de choque gerada pelo meteoro arrebentou portas e janelas por toda a cidade.

Especialistas estimam que o meteoro tinha 15 metros de diâmetro e 7 mil toneladas de massa ao entrar na atmosfera terrestre, com uma velocidade de 64 mil km/h, segundo a Nasa. Ao entrar na atmosfera, o atrito e o calor gerados pela resistência do ar fizeram o meteoro se desintegrar gradualmente, fazendo-o brilhar e deixando o rastro de “fumaça” que aparece nas fotos e vídeos do evento.

Em um determinado momento, o calor e o atrito se tornaram tão grandes que o meteoro “explodiu” em um bola de fogo superluminosa, produzindo uma energia equivalente à de 20 bombas atômicas, segundo cálculos preliminares de alguns cientistas. A atmosfera, felizmente, serviu como um escudo, absorvendo a maior parte dessa energia. A explosão ocorreu entre 30 e 50 km de altitude, segundo a Academia de Ciências da Rússia.

É possível que fragmentos do meteoro (chamados, então, de meteoritos) tenham chegado ao solo intactos. Um buraco de alguns metros de diâmetro na superfície congelada do Lago Chebarkul, a 80 km de Chelyabinsk, foi atribuído à queda de um pedaço do meteoro (foto acima). (Informação atualizada: Sim, vários fragmentos do meteoro já foram recuperados.)

Segundo os especialistas, não há nenhuma relação entre a queda do meteoro e a passagem do asteroide 2012 DA14, que foi a mais próxima desse tipo já registrada da Terra. Foi uma incrível coincidência os dois eventos terem ocorrido no mesmo dia.

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Relatos. Vários vídeos do meteoro foram postados na internet ao longo do dia por moradores de Chelyabinsk, com imagens impressionantes.

A explosão luminosa é seguida de um grande estrondo, acompanhado pela passagem de uma onda de choque supersônica que chacoalhou a cidade, arrebentou janelas e portas, balançou carros, jogou pessoas para trás, entortou placas e até derrubou o muro de tijolos de uma fábrica. Um efeito semelhante ao que é gerado pela passagem de aviões supersônicos, quando voam próximo do solo a velocidades acima da do som (1,2 mil km/h).

Muitas pessoas se feriram justamente porque estavam com o rosto próximo às janelas, para ver o meteoro quando ele brilhou no céu.

“Houve pânico. Não sabíamos o que estava acontecendo. Íamos de uma casa a outra para ver se as pessoas estavam bem”, contou um morador, Sergey Hametov, à agência Associated Press. “Vimos uma grande explosão de luz, saímos para ver o que era e escutamos um grande estrondo.”

“As imagens são mesmo impressionantes”, disse ao Estado o astrônomo Sylvio Ferraz Mello, do Instituto de Astronomia da Universidade de São Paulo (IAG-USP), depois de assistir aos vídeos. “Um meteoro com essa luminosidade e essa dimensão não é algo tão comum; é um acontecimento ímpar, especialmente sobre uma área urbana.”

Segundo os especialistas, foi o maior meteoro a atingir a Terra em mais de um século, desde o evento de Tunguska, na Sibéria, em 1908 (mais informações nesta página), também na Rússia.

Pequenos asteroides e fragmentos de rocha e poeira espacial caem na Terra a todo momento – são eles que causam as chamadas “estrelas cadentes”, por exemplo. A grande maioria deles, porém, desintegra-se ainda na alta atmosfera. Dos poucos que chegam à superfície, a maioria cai no mar (que cobre 70% do planeta). E, dos poucos que caem em terra firme, menos ainda caem sobre áreas urbanas.

Sem previsão. Segundo os astrônomos, não há como prever nem evitar esse tipo de evento. “Temos de aprender a conviver com esse fenômeno, que felizmente é bem menos comum e menos destrutivo que outros com os quais estamos acostumados, como terremotos e furacões”, diz o astrônomo Fernando Roig, do Observatório Nacional (ON), no Rio de Janeiro.

As agências espaciais dos Estados Unidos e da Europa possuem programas de monitoramento permanente de Objetos Próximos da Terra, incluindo asteroides e cometas. Quase 10 mil já foram identificados, dos quais 1,4 mil são considerados potencialmente perigosos.

A maioria tem entre 30 metros e 1 quilômetro de diâmetro. Objetos menores, como o que caiu na Rússia ontem, são praticamente impossíveis de detectar. “São invisíveis até entrarem na atmosfera”, resume Ferraz Mello.

O fato de o meteoro atingir ou não o solo e o poder destrutivo desse impacto dependem de fatores como ângulo de trajetória, tamanho e composição do objeto, que pode ser feito de diferentes tipos de rocha e metais. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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Para entender os nomes:
Asteroides, meteoros e meteoritos são, essencialmente, a mesma coisa, chamada de nomes diferentes de acordo com o que acontece com ela. Um asteroide é um pedaço de rocha (que pode também conter metais como ferro e níquel) que gira em torno do Sol, como a Terra e os outros planetas fazem. A maior parte deles está concentrada num “cinturão” de asteroides entre Marte e Júpiter, mas suas órbitas podem ser desviadas, colocando-os em rota de colisão com outros objetos (entre eles, o nosso planeta). Quando um asteroide entra na órbita da Terra, ele é chamado de meteoro. Quando um fragmento de um meteoro é encontrado, ele é chamado de meteorito. Em resumo: um meteoro é um asteroide que entrou na atmosfera terrestre, e um meteorito é um pedaço de meteoro que chegou até o chão.