Na fronteira do espaço interestelar: Quando chegaremos lá? … Edward Stone responde

Na fronteira do espaço interestelar: Quando chegaremos lá? … Edward Stone responde

Herton Escobar

03 Julho 2013 | 13h38

A sonda Voyager, da Nasa.

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Trinta e seis anos após ser lançada do Cabo Canaveral, na Flórida, a sonda Voyager 1 está próxima de deixar o sistema solar definitivamente para trás e, com isso, inaugurar o capítulo final de uma das missões mais incríveis e de maior sucesso da história da exploração espacial. Já os seres humanos responsáveis por esse grande feito da ciência e da engenharia terão de se resignar a assistir o espetáculo a distância para sempre, limitados a receber os dados matemáticos enviados pela nave em sua viagem eterna pelo espaço interestelar.

Esse veredicto que anula nossos sonhos de um dia viajar pela galáxia não é de nenhum cético sem imaginação nem desafeto das ciências espaciais. Pelo contrário. Quem fala é o astrofísico Edward Stone, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), de 77 anos, que lidera a missão Voyager praticamente desde a sua concepção, em 1972, quando ele ainda era um jovem professor de 36 anos. Segundo ele, os seres humanos jamais chegarão tão longe quanto as suas sondas gêmeas (Voyager 1 e Voyager 2), que agora estão a mais de 18 bilhões e 15 bilhões de quilômetros do Sol, respectivamente; muito além de Netuno e Plutão, nas periferias mais extremas do sistema solar.

“Com a nossa tecnologia atual, e mesmo levando em conta qualquer evolução tecnológica previsível do futuro, acho que estamos limitados a chegar até Marte e nada além disso”, disse Stone ao Estado ontem, por telefone, pouco depois de desembarcar no Rio de Janeiro para participar da Conferência Internacional de Raios Cósmicos (ICRC, na sigla em inglês), que ocorre na capital fluminense entre os dias 2 e 9 deste mês.

Para lamento dos fãs de Star Trek e outros entusiastas da ficção científica espacial, Stone acredita que os seres humanos nunca deixarão o sistema solar, e que as mensagens levadas pelas sondas Voyager na forma de um disco de ouro, muito provavelmente, nunca serão recebidas por nenhum alienígena – apesar de ele considerar a existência de vida em outros planetas praticamente uma certeza.

“O espaço é muito vazio, e há uma probabilidade muito baixa de que a Voyager chegará mais próximo de alguma estrela do que ela está do Sol agora – e ela já está muito longe”, afirma Stone. “Acho que a mensagem foi mais para nós mesmos; um recado de que chegáramos a um ponto em que éramos capazes de enviar uma mensagem desse tipo ao espaço, para se tornar uma parte da Via Láctea para sempre.”

Lançadas em 1977, as sondas Voyager foram durante 12 anos, pioneiras no estudo dos planetas gigantes gasosos (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) e suas luas – algumas das quais, como Europa e Enceladus, podem até conter formas extraterrestres de vida microbiana e precisam ser investigadas, segundo Stone. Agora, e desde 1989, elas estão viajando rumo ao espaço interestelar, levando com elas discos de ouro contendo dados, imagens e sons sobre a localização do sistema solar, sobre os seres humanos, nossa cultura, nossa ciência e o restante da vida na Terra. A expectativa é que em breve as Voyagers se tornem os primeiros artefatos humanos a romper a barreira da heliosfera, a “bolha” de partículas ionizadas formada pelo campo magnético do Sol, que protege o sistema solar das partículas de alta energia que varrem o espaço interestelar do “lado de fora” dele.

A que está mais próxima de romper essa barreira magnética e histórica é a Voyager 1, que está bem mais longe do que a sua irmã Voyager 2. Segundo uma série de três trabalhos publicados no início deste mês pela revista Science, a sonda chegou em meados do ano passado a uma zona desconhecida na fronteira da heliosfera, batizada de “heliosheath depletion zone” ou “magnetic highway” (algo como “rodovia magnética”, mas que não soa tão bonito em português), onde ainda prevalece o campo magnético do Sol, mas já há uma penetração de raios cósmicos de alta energia. Uma zona de transição que não estava prevista nos modelos e ninguém sabe qual é sua “espessura” ou quanto tempo mais a Voyager 1 levará para ultrapassá-la – mas que certamente é um prelúdio do fim do sistema solar.

Abaixo, os destaques da entrevista com Edward Stone:

Edward Stone em 1992, com uma réplica da Voyager, quando era diretor do Jet Propulsion Laboratory (JPL) da Nasa. Crédito: Nasa/JPL

Quanto tempo o senhor acha que levará para a Voyager 1 atravessar esta “rodovia magnética” e chegar, finalmente, ao espaço interestelar?

Não sabemos. Essa região não estava em nenhum dos nossos modelos do sistema solar e, portanto, não temos nenhum modelo disponível para guiar nossos pensamentos até uma resposta. Mas certamente estamos numa fronteira: campo magnético do Sol ainda está presente, as partículas ainda se movem ao longo desse campo magnético e são aceleradas pelo vento solar, mas há partículas do lado de fora passando pela rodovia também; então é difícil imaginar que esta zona se estenda por muito tempo ainda, ou não estaríamos tão conectados com o “lado de fora” já. Pode ser que demore alguns meses, pode ser que demore mais alguns anos. Não sabemos.

Uma vez que a sonda romper essa fronteira, quanto tempo levará para sabermos disso aqui na Terra. Como é a comunicação dos cientistas com o aparelho?

A comunicação com a sonda demora 17 horas para ir e voltar. É uma comunicação demorada, mas se você pensar no tempo que vai levar para analisarmos os dados quando eles chegarem, isso é o de menos. O indicador essencial que vamos procurar (de que a Voyager chegou ao espaço interestelar) é uma mudança na direção do campo magnético, que deverá mudar de “leste-oeste” para “norte-sul”. Pode ser que esta mudança seja óbvia e abrupta, mas pode ser que ela ocorra lentamente ao longo de vários meses. Não sabemos, mas vamos descobrir isso. De qualquer forma, vamos precisar de alguns meses para analisar os dados e ter certeza de que o que estamos vendo é um sinal natural verdadeiro e não uma “artefato” técnico dos instrumentos da sonda.

O que vamos aprender lá fora?

Bem, a heliosfera é uma grande “bolha” criada pelo Sol ao redor dele mesmo, pelo seu campo magnético. Dentro dessa bolha, tudo é regido pelo Sol. Do lado de fora, é o espaço interestelar. Lá, o campo magnético é o da Via Láctea e as partículas que permeiam o espaço e o vento que as acelera são oriundos de outras estrelas, que explodiram vários milhões de anos atrás.  Então, há uma diferença substancial entre o ambiente do lado de fora e do lado de dentro da heliosfera. Agora, estamos bem no limite entre uma coisa e outra; e, como sempre, estamos descobrindo que essa fronteira é algo muito mais complexo do que os nossos modelos indicavam que poderia ser. As coisas mais interessantes que descobrimos são sempre aquelas que não antecipávamos descobrir.

E o que vai acontecer depois? A Voyager 1 continuará viajando para sempre no espaço?

Sim, ela é uma embaixatriz silenciosa do planeta Terra, destinada a orbitar o centro da nossa galáxia para sempre, como fazem todas as estrelas. Então, a cada 240 milhões de anos, mais ou menos, ela completará uma órbita da galáxia – você pode chamar isso de “ano celestial”, se quiser –, e continuará a fazer isso por vários bilhões de anos. Será um pedacinho da Terra lá fora, em sua própria jornada ao redor do centro da Via Láctea.

O senhor acha que a mensagem que ela carrega algum dia será recebida por alguém?

Muito improvável. O espaço é mesmo muito vazio, e há uma probabilidade muito baixa de que a Voyager chegará mais próximo de alguma estrela do que ela está do Sol agora – e ela já está muito longe.

Mas o senhor acha que existe vida fora da Terra? Quais são suas opiniões sobre isso?

Acho que deve haver vida microbiana em muitos lugares; ficaria surpreso se não houvesse. A busca por vida fora da Terra é algo absolutamente fundamental, e é apenas uma questão de evolução tecnológica para avançarmos nessa busca. Hoje sabemos que a maioria das estrelas possui sistemas planetários ao redor delas, e à medida que nossa tecnologias avançam, seremos capazes de observar as atmosferas de planetas individuais, em busca de sinais de gases que indiquem a presença de vida na sua superfície. É algo que vai acontecer.

Com todos esses sistemas planetários por aí, acho muito improvável que vida microbiana não tenha evoluído em pelo menos alguns deles. Mesmo aqui no sistema solar, há lugares fora da Terra onde há água líquida e onde pode haver (ou ter havido) vida microbiana, como as luas Europa e Enceladus – e também Titã, onde há lagos de metano líquido cheios de moléculas orgânicas complexas.

Então acredito que vida microbiana seja comum. Vida inteligente já é outra história, e não sei estimar a probabilidade de ocorrência dela universo afora.

Qual sua opinião sobre a exploração humana do espaço? Com todos os avanços da robótica, o senhor acha que ainda precisamos mandar seres humanos ao espaço, com todos os riscos envolvidos?

Não sei se “precisar” é a palavra correta nesse caso. Acho que o espaço é a nova fronteira de atividade humana que precisamos desbravar. A primeira foi a terra, depois os oceanos, depois a atmosfera, e agora o espaço, que ainda é uma fronteira nova – que começamos a explorar há apenas uns 50 anos. Acho muito difícil prever qual será o limite ou o objetivo máximo da aventura humana no espaço, mas está claro que chegaremos nem perto deste limite antes de deixar a órbita da Terra.

Na órbita da Terra, é uma coisa: você pode voltar para casa rapidamente em caso de emergência, ou alguém pode vir te ajudar ou mandar alguma coisa para você me questão de dias. Quando você deixa a órbita, é outra coisa: você não pode voltar pra casa e ninguém pode te socorrer. De qualquer forma, há um desejo humano de fazer isso, assim como há um desejo humano de escalar o Monte Everest, apesar de todos os riscos envolvidos.

O senhor acha que a espécie humana ainda vai colocar os pés em outro planeta?

Imagino que Marte seja um lugar onde os humanos poderiam ir; mas o que isso significaria exatamente, eu não sei.

De qualquer forma, acho que nunca chegaremos tão longe quanto as sonda Voyager. Correto?

Acho que você pode dizer isso com bastante segurança.

Então é bom cuidarmos direitinho do nosso planeta …

Pode apostar que sim.

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