‘Nossa revolução é digital’, diz manifestante

‘Nossa revolução é digital’, diz manifestante

Herton Escobar

20 Junho 2013 | 22h27

Neste momento histórico para o Brasil (concorde ou não você com as manifestações, é histórico), permitam-me fugir mais uma vez do tema central deste blog:

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, não participou das manifestações de rua em São Paulo, e talvez nem saiba o que está se passando no Brasil, mas deu uma contribuição essencial para os movimentos populares que estão incendiando o Brasil. O site de relacionamento criado por ele em 2004 na Universidade Harvard é hoje a principal ferramenta de comunicação usada pelos manifestantes de São Paulo e outras cidades brasileiras para organizar seus eventos e disseminar suas opiniões e demandas livremente, sem qualquer tipo de filtro.

“Graças a Deus o Facebook está aí para ajudar a gente, senão não tinha essa massa de gente aqui”, disse ao Estado a bailarina Luana Marques, de 22 anos, que participou da grande manifestação do dia 17 e da comemoração da redução da tarifa de ônibus ontem, na Avenida Paulista.

Desde o início das manifestações do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo, no dia 7 de junho, as discussões sobre os protestos de rua no Brasil passaram a dominar quase que completamente o Facebook. Até as 19h30 de ontem, o compartilhamento de informações sobre o tema já havia impactado potencialmente 900 milhões de internautas, de acordo com monitoramento da empresa Scup. A Copa das Confederações parece que nem existe. É pela rede social que as notícias dos protestos – sejam dos veículos de comunicação ou produzidas pelos próprios internautas – são transmitidas e compartilhadas em tempo real por milhares de pessoas.

“Acho que eles (os políticos) ainda não entenderam o que está acontecendo”, disse ao Estado o fotógrafo Douglas Agostinho Teodoro, de 34 anos, que liderou espontaneamente um grupo de centenas de pessoas pelo centro de São Paulo na quarta-feira à noite, para comemorar a redução da tarifa de ônibus e fazer novas reivindicações. “Eles são de uma geração analógica, e nossa revolução é digital. Eles não entenderam que a gente não precisa mais esperar quatro anos para dar nossa opinião nas urnas. A gente dá nossa opinião a hora que quiser, na internet. O Brasil não funciona, mas o Facebook funciona.”

No dia 13 de junho, quando a Polícia Militar reagiu com brutalidade a mais uma manifestação em São Paulo, foram vídeos e relatos postados por internautas no Facebook que revoltaram pessoas em todo o Brasil, desencadeando um grande processo de mobilização que resultou nas manifestações populares do dia 17. Mensagens contra a corrupção, contra políticos, contra a decadência na saúde e até contra a Copa do Mundo espalham-se em velocidade viral pela internet, fomentando debates em grande escala sobre importantes temas nacionais. A página do Movimento Contra a Corrupção (MCC) no Facebook, por exemplo, tem mais de 600 mil seguidores.

O resultado é muita gente nas ruas, mas também a falta de uma liderança e uma pluralidade de reivindicações que, segundo alguns, enfraquece o movimento. As manifestações são espontâneas e, portanto, não seguem uma única figura ou um único tema. Teodoro, porém, não vê isso como um problema. “Essa é a verdadeira anarquia; não tem nenhum controle, mas todo mundo se regula. É o povo assumindo o controle”, diz. “Os caras esperavam uma revolução tipo Che Guevara, com um luta armada. Só que eu não carrego armas, só carrego o meu skate. Eles não têm a menor ideia do que está acontecendo, porque não sabem nem ligar o Facebook.”

— Colaborou Edison Veiga