OCEANOS EM CRISE

OCEANOS EM CRISE

Herton Escobar

07 Setembro 2010 | 13h01

FOTO: BRIAN SKERRY/NATIONAL GEOGRAPHIC

FOTO: BRIAN SKERRY/NATIONAL GEOGRAPHIC

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Se você ama os oceanos, como eu, assista essa palestra no Youtube: Ocean’s Glory and Horror (em inglês). Se você não ama, ou nunca parou muito tempo para pensar sobre o que está acontecendo por lá, assista duas vezes.

O palestrante é Brian Skerry, um fotojornalista especializado em fotografia submarina, autor de uma fantástica e preocupante reportagem sobre o impacto da pesca sobre a biodiversidade marinha global (Global Fisheries Crisis), publicada em 2007 na revista National Geographic. Faz tempo, mas eu me lembro muito bem dela…. E, infelizmente, ela continua tão atual e relevante quanto 3 anos atrás.

A palestra, feita nas Ilhas Galápagos no início deste ano, é um pouco longa, mas vale a pena assistir até o fim. Skerry aborda vários pontos importantes, dos quais eu destaco dois ou três abaixo.

A primeira coisa, como ele bem coloca, é que o oceano “não é um supermercado” do qual podemos ficar tirando comida eternamente e indiscriminadamente. Vários estudos científicos mostram que os estoques pesqueiros do mundo estão à beira do colapso. Em outras palavras, que o peixe está acabando!

Quem mais sofre nessa história são os grandes peixes, como o atum-azul e os tubarões, que, como Skerry também coloca muito bem, são os “leões e tigres” dos oceanos. Os grandes predadores. Animais magníficos. Poderosos. Que dominam a cadeia alimentar e são essenciais para o equilíbrio ecológico dos oceanos. Mas que, por viverem debaixo d’água, acabam não chamando tanto a atenção do público.

O Steven Spielberg também não ajudou muito. Tubarão (Jaws) é um filme fantástico, uma obra-prima do cinema, mas infelizmente deixou um legado terrível para esses peixes magníficos, que carregam desde então a fama de devoradores de homens. Uma fama totalmente desmerecida. Claro que ocorrem ataques, principalmente envolvendo surfistas, assim como às vezes pessoas são atacadas por leões na África ou por um cachorro bravo na rua. Mas os tubarões não vivem para comer pessoas, como a maioria das pessoas imagina. Na verdade, existem centenas de espécies de tubarão no mundo, e só algumas são realmente agressivas, como o branco e o tigre. O resto passa nadando por você sem dar a menor bola. Você pode até tentar tocar neles debaixo d’água que eles vão sair “correndo”, como qualquer peixe.

Já ouvi muita gente dizer que tem medo de mergulhar porque tem medo de encontrar um tubarão. Enquanto que a maioria dos mergulhadores, como eu, entra na água sempre sonhando com esse encontro. Pena que ele está cada vez mais difícil de acontecer … Todos os anos, milhões e milhões de tubarões são mortos, e muitas espécies estão ameaçadas de extinção. Em muitos casos, são pescados apenas por suas barbatanas, que são usadas para fazer sopa na Ásia. E o resto do animal é simplesmente jogado de volta ao mar, ainda vivo, para afundar e morrer.

Um fim nada digno para um animal que habita esse planeta há muito mais tempo do que nós, desde o tempo dos dinossauros. Um organismo tão perfeito, tão eficiente e tão bem adaptado ao seu ambiente que não precisou mudar quase nada em dezenas de milhões de anos de evolução. (Outro exemplo disso, bem lembrado por Skerry na palestra, são as tartarugas-de-couro, que também estão por aí singrando os oceanos e botando ovos nas praias há muitos milhões e milhões de anos.)

Quer ver um bicho pré-histórico? Não precisa ir ao museu, não… basta olhar para um tubarão-branco ou uma tartaruga-de-couro. Eles sobreviveram a seja lá qual foi a tragédia que matou os dinossauros, 65 milhões de anos atrás … mas talvez não sobrevivam muito mais tempo a nossas redes, arpões e poluentes. Imagine só!

Por fim, de todas as fotos que Skerry mostra na palestra, a mais impressionante para mim é a de um pescador segurando um punhado de camarões, com uma pilha de peixes mortos ao fundo. Esse, em resumo, é o resultado perverso da pesca de arrasto, em que os barcos arrastam uma rede sobre o leito do oceano. O objetivo é pegar camarões, só que os camarões, obviamente, não estão sozinhos no fundo do mar …. então a rede engole tudo que vem pela frente, camarões, peixes, moluscos, corais, e deixa um rastro de destruição em tudo que ficou para trás.

Quando a rede é içada, lotada, o pescador separa só o camarão do bolo e o “resto” é jogado de volta ao mar, já morto ou à beira da morte. No fim das contas, para cada punhado de camarão que chega ao mercado para virar espetinho na praia ou servir de enfeite para cocktail, centenas de outros animais ficaram mortos pelo caminho. Ecossistemas inteiros foram destruídos.

Algumas semanas atrás eu escrevi sobre o dilema ético de autorizar a caça sustentável de baleias. A cena de uma baleia sendo morta é realmente revoltante. Mas, se pensarmos bem, o impacto ambiental causado pela pesca de um camarão é muito maior do que o impacto causado pela caça de uma baleia – ainda que, para a conservação de cada espécie individualmente, a perda de uma baleia tenha um peso muito maior do que a perda de um único camarão.

(Mais uma vez, antes que alguém comece a me criticar: Não estou defendendo que se mate baleias!!! Estou apenas fazendo uma reflexão sobre o impacto real de cada atividade e sobre as consequências de nossos hábitos sobre o futuro do planeta.)

Abraços a todos.