Pesquisa sobre zika e microcefalia vai acompanhar bebês por 3 anos em Jundiaí

Pesquisa sobre zika e microcefalia vai acompanhar bebês por 3 anos em Jundiaí

Pesquisadores querem investigar melhor (e por mais tempo) a relação entre o vírus e a ocorrência de má-formações congênitas

Herton Escobar

02 Março 2016 | 16h50

Gestantes aguardam atendimento na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, em Aracaju -- referência para gestações de alto risco em Sergipe. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Gestantes aguardam atendimento na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, em Aracaju — referência para gestações de alto risco em Sergipe. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O Hospital Universitário de Jundiaí iniciou ontem um projeto de pesquisa que vai acompanhar centenas de bebês durante três anos, com o objetivo de investigar a relação epidemiológica entre o zika vírus e má-formações congênitas.

Todas as gestantes que forem atendidas no hospital serão convidadas a participar do estudo. As que aceitarem serão divididas em três grupos: 1) gestantes já consideradas de alto risco por algum outro fator (ex: hipertensão ou diabetes), porém sem sintomas de infecção por zika, dengue ou chikungunya; 2) gestantes que tiveram algum sintoma dessas três doenças ao longo da gestação, como febre e manchas vermelhas na pele; e 3) mulheres que sofreram aborto.

Amostras de sangue, saliva e urina serão colhidas de todas as participantes periodicamente, ao longo da gestação, para análises de virologia. No momento do parto também serão coletadas amostras do bebê, da placenta e de leite materno.

A meta é recrutar cerca de 500 gestantes, segundo o coordenador do estudo, o infecto-pediatra Saulo Passos, da Faculdade de Medicina de Jundiaí. O acompanhamento pós-parto será feito com a ajuda de um grupo de senhoras voluntárias, que farão contato semanalmente com as famílias.

Perguntas (ainda) sem resposta

O objetivo é investigar mais a fundo a relação da microcefalia (e outras má-formações congênitas) com os vírus transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti (em especial, o zika). Os pesquisadores querem entender, por exemplo, se há uma relação direta de causa e efeito entre as duas coisas; se o zika é capaz de causar microcefalia sozinho ou precisa estar associado a outros fatores de risco; se casos assintomáticos de infecção também podem levar à microcefalia;  e se há outras sequelas congênitas associadas a esses vírus, que talvez só sejam perceptíveis quando a criança estiver mais velha.

“Mesmo na ausência da microcefalia, não dá para garantir que essas crianças não vão ter problemas neuropsicomotores no futuro”, observa Passos. Por isso as crianças serão acompanhadas durante três anos — mesmo as que nascerem aparentemente saudáveis. Somente pela comparação dos três grupos os pesquisadores poderão determinar o que é culpa do zika (ou não) e quais são os outros fatores de risco envolvidos no desenvolvimento dos bebês. Além de zika, chikungunya e dengue, as amostras serão testadas para a presença de herpes, sífilis, citomegalovírus e outros agentes infecciosos que, sabidamente, podem causar má-formações congênitas.

As primeiras amostras foram coletadas ontem, incluindo as de uma mãe que não teve sintomas, mas deu à luz um bebê com microcefalia, e de outra que veio do Nordeste, teve sintomas de zika, mas deu à luz um bebê normal.

A pesquisa será desenvolvida em parceria com o virologista Paolo Zanotto, do Instituto de Ciência Biomédicas da USP, e outros pesquisadores da chamada Rede Zika, apoiada pela Fapesp.

Ainda que o zika não seja o único culpado, Passos está certo do envolvimento do vírus no aparente surto de microcefalia que está se espalhando pelo Brasil. “Temos de encarar esse vírus com muito respeito. Nunca vimos um inimigo tão oculto, mas tão devastador”, alerta o pediatra, que foi a Sergipe no mês passado com Zanotto e outros pesquisadores paulistas para ver de perto o avanço do zika e da microcefalia no Nordeste. Veja um vídeo e leia o relato dessa expedição aqui: Zika e Microcefalia: O mistério de Sergipe

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