Pessoas não imaginam o quanto estão expostas na internet

Pessoas não imaginam o quanto estão expostas na internet

Basta estar online para ser monitorado; mas é possível tomar algumas precauções para proteger sua privacidade no mundo digital, diz professora que será uma das palestrantes do próximo USP Talks

Herton Escobar

21 Maio 2018 | 07h00

Foto: Wikipedia

Cada usuário é responsável por salvaguardar sua privacidade no mundo digital; mas para isso é preciso estar ciente dos riscos que a internet oferece. E a maioria das pessoas “não tem clareza sobre o quanto se expõe” na rede, diz a especialista Elizabeth Saad Corrêa, professora titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) nas áreas de Jornalismo, Internet e Sociedade, e coordenadora do grupo de pesquisa COM+.

Beth será uma das palestrantes do USP Talks sobre Privacidade na Era Digital, que acontece amanhã, das 18h30 às 19h30, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (Masp). O evento é gratuito, com distribuição de ingressos no local à partir das 16h30. Também haverá transmissão ao vivo pelo Facebook. O outro palestrante será o professor Dennys Antonialli, coordenador do Núcleo de Direito, Internet e Sociedade da Faculdade de Direito da USP.

Veja abaixo a entrevista de Elizabeth ao blog na íntegra.

O que o escândalo recente envolvendo o Facebook e a Cambridge Analytica nos diz sobre privacidade nas redes sociais e na internet?

Esse caso trouxe à tona um cenário que já existia (e existirá) nos ambientes das plataformas sociais digitais. O uso “gratuito”destas plataformas tem por modelo de negócio o uso comercial dos dados que os usuário oferecem à plataforma em todos os momentos: no cadastramento, nas postagens, interações, likes, salvamentos, etc. Ele apenas alertou os desavisados que a proximidade não é o principal objetivo neste cenário.

A privacidade virou uma ficção no mundo digital?

Não diria ficção, mas à medida em que ampliou-se o uso das plataformas, e à medida em que a inteligência de dados e a “algoritmização” da rede vêm se tornando um processo cotidiano e parte fundamental da infra-estrutura tecnológica das redes digitais, a privacidade vai perdendo sua força. Quanto mais os públicos usam a rede e interagem por meio de plataformas e apps, mais eles ficam visíveis e expostos aos sistemas de coleta, mineração e inteligência de dados. Pode não ser uma atitude consciente e deliberada do indivíduo comum, mas é o próprio usuário que alimenta os dados da rede e reduz sua privacidade.

É possível ser ativo nas redes sociais e usar a internet (fazendo compras online, usando aplicativos de trânsito, pesquisando informações no Google, etc) sem abrir mão da sua privacidade? Como fazer isso?

É possível até certo ponto. Para isso o usuário precisa ser um leitor atento dos protocolos de privacidade de cada ambiência. Precisa configurar os usos de cada uma delas conforme suas decisões de estar visível, compartilhar e se expressar. Precisa decidir, por exemplo, se quer indicar para a rede — mesmo que seja “apenas” para os amigos — a sua localização geográfica. Precisa controlar o acesso às suas fotos e imagens, e por aí vai. Novamente, cabe ao usuário controlar a sua privacidade na rede.

As pessoas têm noção do quanto estão expondo seus dados pessoais quando navegam na internet? Fazem isso conscientemente, ou estão sendo “espionadas” sem saber?

Penso que o público em geral, menos envolvido com o cotidiano da rede, não tem clareza sobre o quanto se expõe. Falamos aqui de um espaço de sociabilidade que facilitou a expressão do indivíduo para um coletivo, mas que lhe traz recompensas do tipo likes, comentários carinhosos, coraçõezinhos, etc. Sem esquecer do outro lado da coisa, onde a mesma exposição pode trazer resultados negativos para o indivíduo e seu coletivo. A espionagem é implícita e existe sempre — basta você deixar o seu smartphone ativado com o microfone, com a geolocalização, ou usar seu cartão de crédito em qualquer lugar, que você ja está sendo espionado. Nem precisa entrar no Facebook.

Essa perda de privacidade tem um lado positivo? O que a sociedade perde e ganha com essa nova realidade?

O lado positivo vem na esteira da facilidade e rapidez das múltiplas formas de interação, gerando supostamente um tempo maior para que cada um possa construir novas relações sociais, de trabalho, etc. Quem não gosta, por exemplo, de fazer suas transações bancárias por um aplicativo, sem precisar enfrentar a fila da agência bancária? O lado negativo está no acionamento dos mecanismos de controle e vigilância que este imenso volume de dados e informações oferece para uma diversidade de usos: polícia, inteligência, identificação pessoal, etc.