Praia de Noronha que teve ataque de tubarão será reaberta com restrições

Praia de Noronha que teve ataque de tubarão será reaberta com restrições

Visitação na Baía do Sueste só será permitida das 10h às 15h e praticantes de snorkel precisarão ser acompanhados por guias

Herton Escobar

23 Dezembro 2015 | 17h49

Vista da Baía do Sueste. Foto: Ana Sacoman/Estadão

Vista da Baía do Sueste. Foto: Ana Sacoman/Estadão

A praia da Baía do Sueste, em Fernando de Noronha, continuará fechada amanhã, enquanto pesquisadores e analistas ambientais avaliam as circunstâncias do ataque de tubarão a um banhista, ocorrido na segunda-feira (21). A visitação será reaberta na sexta-feira, dia 25, mas com restrições. Até o dia 4 de janeiro, o acesso à praia só será permitido da 10h às 15h e os passeios de snorkel só poderão ser feitos com guias credenciados pelo Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha.

As informações foram divulgadas hoje à tarde pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, responsável pela gestão de áreas protegidas federais — incluindo o parque nacional e a Área de Proteção Ambiental (APA) de Fernando de Noronha. O ofício completo pode ser lido aqui: http://goo.gl/6f9v40. A praia, interditada desde terça-feira, está sendo monitorada por meio de mergulhos e sobrevoos com drone, para verificar a presença de tubarões que possam ameaçar os banhistas, ou qualquer outro fator de risco. Até agora, nada de anormal foi detectado.

Márcio de Castro Palma da Silva, um turista paranaense de 33 anos, foi mordido por um tubarão quando fazia snorkel no Sueste, no fim da tarde de segunda-feira. Foi o primeiro ataque de tubarão registrado em Fernando de Noronha, em várias décadas de convívio pacífico entre pessoas e peixes no arquipélago. Silva teve a mão direita e parte do antebraço arrancados pela mordida, mas foi socorrido rapidamente e passa bem. Não há evidências de que ele tenha motivado o ataque. Segundo os fiscais do parque que o socorreram, ele estava de colete flutuador e praticando o snorkel dentro das regras e da área permitida. Segundo o coordenador de fiscalização do parque, Tadeu Oliveira, tudo indica se tratar de um acidente, resultado de um encontro inoportuno entre o homem e o tubarão.

Tartarugas na Baía do Sueste. Foto: © All Angle By Zaira Matheus

Tartarugas são abundantes na Baía do Sueste. Foto: © All Angle By Zaira Matheus

“Segundo relatos de familiares, dos médicos que o atenderam aqui em Noronha e da pessoa representante do comitê que registra os incidentes com tubarões em Recife, não houve molestamento do animal”, diz a bióloga e fotógrafa submarina Zaira Matheus, em um relato postado no Facebook. Ela foi uma das pessoas autorizadas pelo ICMBio a mergulhar no Sueste no dia seguinte ao acidente, junto com o engenheiro de pesca Leonardo Veras, curador do Museu do Tubarão na ilha. “Encontramos um ambiente normal, típico da Baía do Sueste com muita lagostas e cardumes de sardinhas, guarajubas, cocorocas; enfim um mergulho normal. Fizemos dois voos de drone e nada de anormal foi avistado como era esperado”, relatou.

O mais provável é que o animal responsável pelo ataque tenha sido um tubarão-tigre, uma espécie oceânica migratória que não é residente na baía, mas que ocasionalmente se aproxima das praias e tem um comportamento tipicamente mais agressivo. Segundo Veras, ele seria o único tubarão com uma mordida forte e afiada o suficiente para produzir a lesão observada na vítima — que, aparentemente, teve a mão e o antebraço arrancados numa única mordida. A água da baía estava relativamente turva no dia do acidente, o que pode ter favorecido o ataque.

“O tigre tem esse costume de morder para investigar as coisas”, disse Veras ao Estado, por telefone. “Já encontraram todo tipo de coisa no estômago desse animal: placa de automóvel, lata de cerveja, bola de futebol. Ele tem esse comportamento, que é esquisito, mas é típico da espécie.” A Baía do Sueste, de águas rasas e tranquilas, é muito frequentada por tartarugas marinhas, que são uma presa do tubarão-tigre, cuja mordida é forte o suficiente para quebrar seus cascos.

Horário de risco

Veras acredita que restringir os horários da prática de snorkel na praia pode ser uma boa medida, visto que o tigre costuma se aproximar da costa de noite, e que a menor visibilidade (por conta da redução da luz) aumenta o risco de o tubarão confundir a pessoa com um tartaruga ou outro tipo de presa. O ataque de segunda-feira ocorreu por volta das 17h45. As outras espécies que são residentes da baía (tubarão-limão e tubarão-lixa) não são agressivas e convivem há décadas com os banhistas, sem qualquer problema.

“Fernando de Noronha para mim é o melhor local de mergulho do Brasil; podemos avistar tubarões enquanto mergulhamos, fotografamos, podemos inclusive nadar com eles. Aconteceu um acidente inédito e a partir daí medidas têm que ser tomadas e temos que entender um pouco mais do comportamento deles para evitar acidentes futuros”, conclui Zaira, em seu depoimento no Facebook. “Quando entramos num ambiente que não é o nosso temos que entendê-lo e respeitá-lo cada vez mais. Vou continuar mergulhando querendo muito ver um tigre; mergulho em Noronha há mais de 15 anos e nunca avistei um. Espero que o visitante esteja bem, que todos possam superar este trauma e em breve nos visitar novamente.”

*Post atualizado às 20h25, com o nome da vítima; e novamente às 11h do dia 24.

Baía do Sueste. Foto: © All Angle By Zaira Matheus

Baía do Sueste. Foto: © All Angle By Zaira Matheus

Ambiente marinho da Baía do Sueste. Foto: © All Angle By Zaira Matheus

Ambiente marinho da Baía do Sueste. Foto: © All Angle By Zaira Matheus

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