QUE 2013 TRAGA MUITO MAIS, COM MUITO MENOS

QUE 2013 TRAGA MUITO MAIS, COM MUITO MENOS

Herton Escobar

27 Dezembro 2012 | 18h40

Homem observa a cidade de Xangai em 2011. (FOTO: Carlos Barria/Reuters)

O ano está acabando e chegou a hora de refletir sobre o que se passou nos últimos 12 meses … o que melhorou, o que piorou; no que se avançou, no que se fracassou, e assim por diante.

Do ponto de vista dos políticos e dos economistas, parece que apenas uma coisa interessa: se o PIB cresceu ou encolheu; se a economia cresceu mais ou menos do que se esperava. Isso me causa uma angústia danada. Por que é que o PIB tem sempre que crescer? Porque é que todo mundo tem sempre que ficar mais rico; vender mais coisas, comprar mais coisas; produzir mais e consumir mais? Porque é que as pessoas nunca se contentam com aquilo que já tem; e porque é que os países, em vez de produzir mais riqueza, não se preocupam mais em distribuir melhor a riqueza que já produzem?

Claro que as diferenças nacionais e regionais têm de ser levadas em conta. “Crescer” para os Estados Unidos e para a Índia, por exemplo, são coisas completamente diferentes. Para o Brasil e a Nigéria, também. Muitos países, infelizmente, precisam crescer muito ainda para garantir condições mínimas de qualidade de vida a suas populações; para produzir alimento, água potável, serviços básicos de saúde, educação, energia, saneamento básico, etc. Outros “precisam” crescer simplesmente para enriquecer e garantir a continuidade de um padrão de vida insustentável, conquistado às custas de muita degradação ambiental, muita especulação e exploração de mão de obra barata em outras vizinhanças.

Não sou “ecochato” e não estou cuspindo no prato que comi. Morei muitos anos nos Estados Unidos, já viajei muito pela Europa, e sei como a vida nesses lugares é “uma beleza”, cheia de confortos, serviços e produtos interessantes. Mas é preciso ser realista. Se todos os pobres do mundo ascenderem ao padrão de vida dos ricos, nosso mundo está perdido … simplesmente não há recursos naturais ou minerais suficientes no planeta para sustentar 7 bilhões de norte-americanos e europeus, com uma casa enorme, um carro enorme, dez tomadas em cada parede, um McDonald’s numa esquina e um Walmart na outra para cada um! Nem perto disso.

Pelos cálculos da Global Footprint Network, se todo mundo no planeta tivesse o padrão de vida médio dos Estados Unidos, a população máxima que o planeta seria capaz de sustentar seria 1,7 bilhão de pessoas (um quarto da população atual). Mais do que isso e os serviços ambientais dos quais dependemos para sobreviver começariam a entrar em colapso (como já estão entrando). Pode ser o fim do mundo mesmo!

O que os países ricos deveriam fazer é se esforçar para consumir menos, e não mais! Consumir menos comida, menos energia, menos combustíveis, menos insumos, menos coisas inúteis. Enquanto que os países pobres precisam focar esforços em crescer de forma sustentável, justa e equilibrada, sem repetir os erros e os exageros do passado dos outros. O último relatório sobre O Estado do Mundo (The State of the World), do Worldwatch Institute, tem um capítulo exatamente sobre isso, chamado “O caminho do decrescimento em países superdesenvolvidos”.

O problema é que, por mais sustentáveis que os países em desenvolvimento tentem ser, eles terão de crescer para se desenvolver, e esse crescimento inevitavelmente implicará num aumento significativo do consumo de energia, água, alimentos, minérios e outras matérias-primas de um modo geral – o que, por sua vez, resultará num aumento da produção de poluentes, resíduos e outras formas de contaminação ambiental, assim como dos problemas e dos custos de saúde associados a eles.

Basta ver o que está acontecendo com as emissões de dióxido de carbono e outros gases do efeito estufa envolvidos no aquecimento global. A China já é, de longe, o maior emissor de CO2 do mundo, responsável por 28% das emissões globais do gás, seguida pelos EUA com 16%, de acordo com o último relatório do Global Carbon Project. Isso, levando em conta que as emissões per capita da China (que tem 1,3 bilhão de habitantes) ainda são muito inferiores às dos Estados Unidos (que tem “apenas” 310 milhões de habitantes). Imagine, então, se um dia todos os chineses passarem a viver como os americanos e a emitir gases do efeito estufa como eles? A Índia, com 1,2 bilhão de pessoas, também tende a aumentar muito suas emissões nas próximas décadas. E o Brasil também, ainda que nem tanto.

Qual a solução? Não sei … e mesmo que soubesse, seria complexa demais para explicar em apenas alguns parágrafos por aqui. Só sei que, de um jeito ou de outro, vamos ter que aprender a viver melhor com menos no futuro, e que vamos precisar de muita ciência e tecnologia para nos auxiliar nessa transição. É um caminho inevitável; a única dúvida é se vamos trilhá-lo à força, sofrendo no caminho, ou por vontade própria, mostrando inteligência e aprendendo ainda mais ao longo do caminho. Porque o planeta simplesmente não vai aguentar muito mais por muito tempo. Os recursos são finitos, e uma hora a conta vai chegar.

Enfim, apenas uma reflexão de fim de ano … Abraços a todos e feliz 2013!