QUE DIA É HOJE?

QUE DIA É HOJE?

Herton Escobar

14 Novembro 2010 | 13h30

Amanhecer (ou anoitecer, não tenho certeza) visto do avião. (Foto: Herton Escobar)

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Recentemente, voltando do Japão para o Brasil via Nova York, olhei para o meu itinerário de voo e levei um susto. Meu voo saía de Tóquio às 18h20 do dia 5 (sexta-feira) e pousava em Nova York exatamente às 18h20 do mesmo dia 5. Imagine só!

Como é possível passar mais de 10 horas dentro de um avião e chegar do outro lado do planeta exatamente na mesma hora que saiu, como se você nunca tivesse saído do lugar?
Como sempre, um acontecimento rotineiro, quando examinado com um pouco mais de cuidado e interesse, revela fatos fantásticos sobre o funcionamento do Universo.

Você pode achar que está parado agora, sentado à frente do seu computador enquanto lê esse texto. E está mesmo, em relação à cadeira, à mesa e o chão em que você está pisando. Em relação aos outros planetas e o resto do Universo, porém, você está girando e viajando no espaço a velocidades alucinantes!

Neste exato momento, seu corpo está girando no espaço a 1.600 km/h. Você só não percebe isso porque está preso à superfície da Terra pela gravidade e o resto do planeta está girando junto com você na mesma velocidade. (Ou melhor, você é que está girando junto com o resto do planeta, mas enfim … o antropocentrismo não invalida a teoria neste caso.)

Essa é a velocidade arredondada de rotação da Terra. Ou seja: se um astronauta pudesse ficar parado no espaço olhando para baixo, ele veria você passando por baixo dele a 1.600 km/h. Imagine só! Como a Terra tem uns 40 mil km de circunferência no Equador, a essa velocidade leva 24 horas para dar uma volta completa. Um dia.

O giro ocorre no sentido oeste-leste, do ponto de vista do Sol. O Boeing 767 que me transportou de Tóquio a Nova York, por sua vez, viajava a aproximadamente 900 km/h também no sentido oeste-leste. O voo levou 13 horas e uns quebrados. Como tinha horário de inverno nos EUA, o avião pousou no mesmo fuso horário que decolou.  Muito bizarro.

Mas é claro que tudo isso é relativo … Estamos falando do tempo que marcamos no relógio e não no tempo “real”, por assim dizer. De acordo com o meu relógio de pulso, eu fiz uma viagem instantânea. Já o meu relógio biológico, infelizmente, não se seu conta disso. Minhas células continuaram a envelhecer normalmente durante as 13 horas que fiquei dentro do avião. Na verdade, talvez tenham envelhecido até mais do que o normal, de tão cansativa que foi a viagem …

Na hora de mandar as matérias do Japão era uma loucura. A primeira edição do jornal “fecha” (vai para a gráfica) às 20h de São Paulo, que era 7h do dia seguinte para mim, em Nagoya. Quando terminava o dia da conferência e eu escrevia minha matéria relatando os acontecimentos do dia, era noite no Japão e manhã no Brasil. Meus editores ainda estavam tomando café da manhã e eu me preparando para ir dormir. E quando eu sentava para tomar café no dia seguinte, eles estavam ainda fechando a edição do dia anterior. Quando a minha matéria chegava às bancas às 6h de segunda-feira, com a notícia do domingo, por exemplo, eu já estava escrevendo a matéria com os acontecimentos da segunda-feira. E tudo que eu tinha escrito no domingo já poderia ter mudado antes de o jornal chegar às bancas. Quase fiquei louco.

Numa viagem dessas o conceito de passado-presente-futuro fica muito embaralhado.

E para finalizar, vale lembrar que, além de estar girando a 1.600 km/h em volta do eixo da Terra, você e a Terra estão também girando juntos a mais de 100.000 km/h em torno do Sol.

Parado, em movimento. Presente, futuro. Tudo muito relativo.
Abraços a todos.