Receita para o Brasil ganhar seu primeiro Nobel: “paciência e planejamento estratégico”

Herton Escobar

10 Fevereiro 2013 | 20h22

Entrevista com o astrônomo Brian Schmidt, de 45 anos, pesquisador da Universidade Nacional da Austrália e co-ganhador do Prêmio Nobel de Física de 2011, por descobrir que o universo está se expandindo de forma acelerada (em vez de estar em desaceleração, como se imaginava até então). Publicada na edição de hoje do Estadão, com algumas informações adicionais

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

A ciência brasileira está avançando rapidamente e tem plenas condições de ganhar um prêmio Nobel, mas será preciso paciência e muito planejamento estratégico para chegar lá. Segundo o astrônomo Brian Schmidt, vencedor do Nobel de Física em 2011, muito mais que um símbolo de mérito individual, a conquista do maior prêmio da ciência tem de ser vista como parte de um esforço coletivo, que reflete a capacidade do país de organizar com eficiência todo o seu sistema de educação, pesquisa e inovação, desde a escola primária até a indústria.

Os prêmios virão naturalmente se você fizer tudo certo. Mas tem de ser tudo mesmo”, afirma Schmidt. “Só colocar dinheiro na ciência não basta; a ciência tem de ser parte de uma estratégia maior. A educação, a ciência e a indústria têm de avançar juntas. É um processo gradual, lento, que pode ser um tanto frustrante, mas em algum momento você vai olhar para trás e ver como as coisas melhoraram. E no meio do caminho você vai ganhar um Nobel.”

Schmidt passou a semana passada no Brasil, participando de uma conferência sobre cosmologia na Universidade de São Paulo. Em um dos intervalos, conversou com o Estado na lanchonete da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, onde ocorreu o evento.

Sem formalidades e bem humorado, Schmidt defendeu a adesão do Brasil ao Observatório Europeu do Sul (ESO), tema de muita ansiedade na comunidade astronômica brasileira (veja post abaixo). Além, é claro, de falar sobre o futuro do universo (“vazio e gelado”), sobre aspirações humanas e até um pouco de religião.

O senhor disse uma vez que a ciência não precisa mais de gênios. Pode falar um pouco mais sobre isso – no contexto de um país como o Brasil, que ainda sonha em ganhar seu primeiro Nobel?

A ciência hoje é muito diferente do que costumava ser. No mundo moderno, prêmios Nobel não são ganhos por nerds esquisitos que não sabem se relacionar socialmente; são ganhos por pessoas que sabem trabalhar em grupo, com colaboradores ao redor do mundo, e que são capazes de juntar recursos e ideias para fazer grandes descobertas de forma coletiva. Há pessoas geniais, claro, mas elas são a raridade. O trabalho dos gênios de antigamente hoje é feito em sua maior parte por computadores, pela tecnologia.

Qual a melhor estratégia, então, para ganhar um prêmio Nobel?

O ideal, no caso do Brasil, seria promover uma grande variedade de atividades, porque os prêmios Nobel surgem quase sempre como uma surpresa, e por isso é muito difícil prever onde eles vão aparecer. As surpresas não podem ser planejadas, mas você tem de estar envolvido em muitas atividades para que elas tenham maiores chances de acontecer. Prêmios Nobel são muito difíceis de produzir e talvez por isso eles sejam tão importantes. Eles são simbólicos de toda a estrutura de pesquisa de um país. Não adianta achar que você vai investir em duas ou três pessoas brilhantes, dar a elas tudo que precisam e elas vão ganhar o prêmio Nobel; não é assim que funciona. É um objetivo que envolve um monte de coisas: como você investe nas suas universidades, nos seus jovens talentos; como você educa suas crianças; se seus pesquisadores têm oportunidades para viajar e trabalhar em colaboração com equipes internacionais.

Como o senhor vê a ciência brasileira no mundo hoje?

Eu diria que a ciência brasileira está nos seus primórdios, mas com um futuro promissor. A maneira como os cientistas brasileiros interagem com o resto do mundo mudou muito nos últimos dez anos. Não há dúvida de que o Brasil está crescendo rapidamente, mas é importante que o País seja paciente e estratégico em seus investimentos. Uma coisa que eu noto claramente é que o sistema universitário aqui está cada vez mais forte e isso é muito importante. Outro fator essencial, porém, é garantir que o maior número possível de pessoas tenha acesso a uma educação de qualidade, para que você possa selecionar os seus talentos. O Brasil tem quase 200 milhões de pessoas e posso te garantir que o talento está espalhado igualmente por toda a população, em todos os lugares; então, para obter o melhor custo-benefício nos investimentos, você precisa incorporar o maior número possível de pessoas ao sistema. Mas também não adianta investir numa coisa só de cada vez; a pesquisa, as universidades, as escolas e a indústria têm de avançar simultaneamente.

No caso específico da astronomia, o senhor acha que o Brasil precisa virar sócio do ESO para ser competitivo?

Absolutamente. Para ter impacto na astronomia, assim como em outras áreas da ciência, é preciso ter bons pesquisadores. E esses pesquisadores precisam ter acesso à melhor infraestrutura de pesquisa possível. Na Austrália, onde já se faz astronomia desde a década de 1940, nossa prioridade número um é entrar para o ESO, justamente por isso. Porque para ser competitivo na astronomia você precisa ter acesso a uma grande variedade de instrumentos, para uma grande variedade de aplicações, e sabemos que não somos capazes de fazer isso sozinhos. O Brasil e a Austrália não são a mesma coisa, mas acho que a mesma lógica se aplica aqui. A entrada no ESO tem de ser vista como parte de uma estratégia maior de desenvolvimento científico e tecnológico a longo prazo para o País. O Brasil deve investir um monte de dinheiro em astronomia e não dar dinheiro suficiente para outras áreas? Claro que não. Tudo tem de ser parte de uma estratégia integrada.

Como convencer os governos a investir em astronomia – que é uma ciência básica e cara –, quando há tantas outras coisas mais urgentes a se fazer? Por que construir um telescópio em vez de uma escola ou um hospital, por exemplo? Ou pesquisar galáxias em vez de pesquisar o câncer ou a dengue? É um argumento que se ouve muito no Brasil.

Por que investir na astronomia? Bem, porque é interessante! Porque a astronomia atiça a imaginação das crianças e é uma ótima maneira de atrair jovens para as ciências físicas. Se você olhar para as pessoas que vão se tornar os cientistas e os engenheiros do futuro, verá que foi a astronomia ou os dinossauros que as fizeram ficar interessadas na ciência em primeiro lugar. E esse envolvimento precoce é extremamente importante. Sem falar que a astronomia faz umas coisas estranhas de vez em quando. A tecnologia de Wi-Fi, por exemplo, foi inventada por um astrônomo australiano com base em técnicas que ele usava para procurar buracos-negros em evaporação. Ele não achou os buracos-negros, mas desenvolveu uma tecnologia revolucionária que vale bilhões de dólares no mundo todo.

O senhor descobriu que o universo está se expandindo de forma acelerada. O que vai acontecer com ele?

A situação é a seguinte: daqui a 100 bilhões de anos, todas as galáxias que enxergamos hoje estarão tão longe de nós que elas se tornarão invisíveis, mesmo com o uso de telescópios. As estrelas da Via-Láctea ainda serão visíveis, mas todas as outras galáxias desaparecerão. Olharemos para o universo e ele parecerá vazio. O resultado é que cosmólogos como eu ficarão desempregados, pois não haverá mais nada para olhar; restarão apenas astrônomos de estrelas e planetas (risos).

Cem bilhões de anos é um tempo inacreditável. O universo hoje tem menos de 14 bilhões! Por que devemos nos importar com isso? Por que gastar tempo e dinheiro estudando coisas que não tem nenhuma influência prática na nossa vida?

Olha, no fim das contas, fazemos astronomia pelas mesmas razões que fazemos arte e literatura. Fazemos porque somos seres humanos e queremos entender qual é o nosso lugar no universo. Por que toda a matéria que enxergamos corresponde a apenas 4,5% de tudo que existe no universo? Por que o universo continuará a se expandir para sempre e o que vai acontecer com ele e conosco? São perguntas fundamentais! Não posso prometer que nossas pesquisas vão produzir uma torradeira mais eficiente, mas acho que a maioria das pessoas gostaria de saber as respostas a essas perguntas. Os benefícios diretos da astronomia são difíceis de explicar, mas, essencialmente, a razão pela qual fazemos astronomia é para “entender”. O governo me dá dinheiro para fazer astronomia por causa dos benefícios econômicos; eu faço astronomia para entender. Por que a religião existe? Pelo mesmo motivo. As pessoas querem entender qual é o lugar delas no universo; é para isso que serve a religião e ela pode conviver com a ciência sem problemas.

Olhar para os limites do universo fez do senhor uma pessoa mais ou menos religiosa?

Eu me defino hoje como um agnóstico militante. Não sou ateu, porque ser ateu e negar a existência de Deus é algo que também exige fé, de que você pode provar a inexistência de algo. Dito isso, vou deixar claro que não sou religioso de maneira nenhuma. Sou ambivalente: eu não sei se Deus existe e não estou preocupado com isso, porque acho que é impossível saber.

O senhor imaginava ­– ou tinha expectativa — que sua pesquisa poderia valer um prêmio Nobel quando começou o projeto?

Eu cresci em Montana e no Alasca; ou seja, numa parte rural dos Estados Unidos (Schmidt tem dupla cidadania, americana e australiana). Quando entrei na Universidade do Arizona, minha expectativa era conseguir um diploma em astronomia e depois conseguir um emprego “normal”. Eu sabia que na astronomia eu aprenderia várias coisas úteis: bastante sobre física, o básico da engenharia, um pouco sobre programação, comunicação. Aí eu iria para a indústria e conseguiria um emprego para fazer alguma coisa qualquer. Para minha grande surpresa, porém, eu me saí muito melhor na universidade do que esperava, e consegui entrar para a pós-graduação em Harvard — algo muito muito além das minhas expectativas. Mas a ideia de ganhar um prêmio Nobel nunca apareceu no meu radar. Ninguém nunca me perguntou sobre isso e eu nunca sonhei com isso; era simplesmente algo que não me preocupava, porque era algo que “não acontecia com pessoas como eu”. Quando começamos nosso projeto de pesquisa, em que eu estava medindo a taxa de expansão do universo, eu tinha uma amiga bióloga de Harvard que estava no carro um dia comigo e me perguntou o que eu fazia exatamente. E ela me contou que o orientador dela dizia que ela “só deveria trabalhar com coisas que pudessem render um prêmio Nobel algum dia”. Eu lembro que dei risada e falei: “A única chance de eu ganhar um prêmio Nobel com essa pesquisa é se o universo estiver fazendo algo bem estúpido; tipo acelerando”. Mesmo assim, quando descobrimos e confirmamos que o universo estava fazendo exatamente isso, achei muito legal, mas não achei que ganharíamos o Nobel. Mas ganhamos.