SOBRE NEUROCIÊNCIAS EM NATAL 3

SOBRE NEUROCIÊNCIAS EM NATAL 3

Herton Escobar

21 Dezembro 2012 | 16h18

Um leitor de longa data do meu blog, Roberto Takata, me enviou algumas perguntas sobre o “caso Nicolelis” para postar em seu próprio blog, chamado Gene Repórter. São perguntas honestas e pertinentes, que outras pessoas também levantaram nos últimos dias, então posto aqui a respostas para informação de todos. Obrigado.

1) Alguns comentaristas em sítios web e blogues (inclusive em seu Imagine Só!) dizem que há motivação política nessas reportagens – seria por causa do apoio de Nicolelis a Lula, a Haddad, por crítica à prefeita afastada de Natal, pesquisadores descontentes com o sucesso do cientista, etc. Como responderia a essas críticas? Houve, em algum momento, ingerência por parte da direção do jornal?

São críticas sem fundamento, puramente especulativas. A proximidade do Prof. Nicolelis com lideranças políticas do PT em Brasília é de conhecimento público há muito tempo. Não é fofoca, não é especulação, não é julgamento; é um fato, que ele mesmo nunca fez questão de esconder. Um fato que se torna relevante no contexto da reportagem, considerando-se a quantidade de recursos públicos federais que foi investida nos projetos do Prof. Nicolelis ao longo dos últimos anos. Traçar um perfil do Prof. Nicolelis e escrever sobre a sua influência na ciência brasileira sem mencionar essa proximidade política seria mau jornalismo da minha parte. Não há nenhuma motivação político-partidária por trás da reportagem e não houve nenhuma ingerência da diretoria do jornal sobre a sua produção. A reportagem é 100% baseada em fatos, complementados por opiniões de pessoas amplamente gabaritadas para opinar sobre o assunto.

2) Como surgiu essa pauta e como ela foi desenvolvida? Foi por denúncia (poderia nomear a pessoa, caso não prejudique a fonte)?

Não foi preciso “denúncia”. As críticas e os questionamentos apresentadas sobre o Prof. Nicolelis são correntes e disseminadas na comunidade científica brasileira há muito tempo (apesar de desconhecidas do grande público), e se intensificaram muito no último um ano e meio, desde o “racha” ocorrido entre ele e sua antiga equipe de pesquisadores no IINN-ELS. Como repórter de ciência do Estadão, deparei-me diversas vezes com essas críticas e questionamentos em conversas informais com pesquisadores das mais diversas áreas e de grande credibilidade, de modo que não podia mais ignorá-las. Especialmente agora, que o governo federal resolveu dar R$ 33 milhões para o Prof. Nicolelis desenvolver o seu Projeto Andar de Novo no Brasil. Ao fazer isso, o governo, na prática, se tornou um patrocinador do projeto e incumbiu o Prof. Nicolelis de representar a ciência brasileira aos olhos do mundo na abertura da Copa do Mundo. Nesse contexto, qualquer informação relacionada ao Projeto Andar de Novo e às pesquisas do Prof. Nicolelis torna-se de interesse público e merece ser acompanhada de perto pela sociedade daqui para frente.

3) Qual foi o prazo de apuração da reportagem? Por que o prazo inicial dado para a resposta de Nicolelis foi de apenas 4 dias para um conjunto tão grande perguntas (é algum tempo médio no qual a maioria das fontes responde)?

No jornalismo diário, infelizmente, somos obrigados a trabalhar com prazos curtos. É algo inerente à dinâmica de um jornal diário; caso contrário as reportagens nunca seriam concluídas, pois bastaria alguém dizer que está ocupado para postergar indefinidamente a publicação de uma informação. Quatro dias, na verdade, é um prazo longo de resposta para os nossos padrões (normalmente precisamos das informações “para ontem”, como se costuma dizer). As perguntas enviadas ao Prof. Nicolelis eram muitas, porém diretas e objetivas. Ele foi procurado diversas vezes pela reportagem, mas optou por não se manifestar. Não pediu mais tempo para respondê-las nem questionou qualquer um dos dados apresentados nas perguntas. Pelo contrário, debochou da seriedade das perguntas, sugerindo que a entrevista fosse feita só depois da abertura da Copa do Mundo de 2014. Depois que a reportagem foi publicada, escreveu no Twitter que as perguntas enviadas a ele eram “genéricas” e não refletiam as críticas apresentadas na matéria. O que não é verdade; basta ler as perguntas (copiadas nos posts anteriores) para perceber que elas são bastante detalhadas e refletem fielmente o conteúdo da reportagem.

Apesar das suas muitas manifestações no Twitter, o Prof. Nicolelis até agora não fez nenhum contato com o jornal, que permanece à sua disposição caso ele se interesse em conceder uma entrevista para esclarecer suas posições.

4) Nicolelis, pelo twitter, afirma que um repórter do Estadão apareceu no IINN-ELS sem agendar horário, isso é verdade? O repórter tentou marcar depois? É verdade que ele disse que não estava a serviço do jornal?

Eu estive em Natal por alguns dias na última semana de novembro e “me convidei” para conhecer o IINN-ELS. Enviei um email para o Prof. Nicolelis e fui bater à porta do instituto. O Prof. Nicolelis respondeu que não seria possível conhecer o IINN-ELS sem agendamento prévio, porque a equipe toda estava muito ocupada com experimentos. O que não foi problema. O professor tinha todo o direito de negar a minha entrada naquelas circunstâncias, tanto que em nenhum momento da reportagem eu digo que ele “impediu o repórter de entrar no prédio” ou algo desse tipo. Apenas reproduzi o que me disseram (de forma 100% espontânea) os funcionários na entrada do instituto: que o Prof. Nicolelis há muitos meses não aparecia por lá; o que acabou se transformando numa informação relevante no contexto da matéria.

5) V. Sra. sabe como funciona o processo de produção científica, preparação de manuscritos, submissão, análise, revisão e publicação de artigos? Bem como os prazos médios dessas etapas? Por que consideram apagão o fato de um trabalho iniciado a partir de agosto de 2011 não estar publicado em revistas indexadas até dezembro de 2012? Poderia explicitar melhor os critérios para desconsiderarem resumos de congressos no período como indicação da produção? (Considerando-se os prazos de 12 a 20 meses para o aceite a partir do envio do original.)

Sim; sou repórter de ciência do Estadão há 13 anos e conheço muito bem os prazos e as etapas envolvidas no processo de publicação científica. Como já escrevi neste blog, não há dúvida de que o IINN-ELS estava produzindo ciência de qualidade até antes do “racha”, em agosto de 2011, que é o que mostra a lista de trabalhos divulgada pelo Prof. Nicolelis em resposta à reportagem. O chamado “apagão” refere-se especificamente ao período pós-racha (quando todos os pesquisadores que essencialmente produziam a ciência do instituto foram embora), e não diz respeito apenas à publicação de papers, mas ao esvaziamento quase que total do capital humano do IINN-ELS, considerando que o instituto teve sua equipe de pesquisa reduzida a seis pessoas, com um índice H muito abaixo do que o próprio Prof. Nicolelis diz considerar aceitável, e que, apesar disso, vai receber R$ 33 milhões em dinheiro público para desenvolver um projeto de altíssima complexidade (Andar de Novo) que é questionado cientificamente e eticamente por boa parte da comunidade científica brasileira. Esse é o grande questionamento trazido à luz pela reportagem.

O contraste é feito com as declarações do próprio Prof. Nicolelis, que em agosto de 2011 disse que o racha não teria nenhum impacto sobre a produção científica do IINN-ELS e que a nova equipe científica do instituto seria composta pela “nata da neurociência mundial”, incluindo 31 pesquisadores internacionais. O que não aconteceu, pelo menos por enquanto. Nenhum desses 31 pesquisadores estrangeiros assinou nenhum trabalho com afiliação ao IINN-ELS até agora (até porque nenhum deles trabalha de fato em Natal) e a nova equipe brasileira residente do instituto também não publicou nenhum trabalho inédito desde então ­– enquanto que os pesquisadores que se mudaram para o Instituto do Cérebro da UFRN continuaram a publicar normalmente no mesmo período. Todos os trabalhos listados como produção científica do IINN-ELS pelo Prof. Nicolelis no início desta semana foram, essencialmente, produzidos pelos antigos pesquisadores do instituto antes do racha, como mostrei na minha última reportagem. Isso não significa que a nova equipe do IINN-ELS não virá a publicar bons trabalhos no futuro (como podem indicar os resumos apresentados em congressos); mas fica claro que a produção científica do instituto sofreu um forte revés no último um ano e meio desde o racha. Daí o “apagão”.

Trabalhos produzidos pelo Prof. Nicolelis e/ou seus colaboradores na Universidade Duke não podem ser contados como produção científica do IINN-ELS simplesmente pela afiliação administrativa dele com o instituto.

6) Órgãos como o CPNq, Capes, Finep, MEC e MCTI foram consultados a respeito da produtividade do IINN-ELS? Em caso positivo, quais as respostas? Em caso negativo, por que não o foram?

Sim, todos esses órgãos foram consultados para a reportagem: MCTI, CNPq, Finep, MEC, Conep e Palácio do Planalto, por meios das suas assessorias de imprensa. Todos eles responderam, alguns de maneira esclarecedora, outros de maneira evasiva. As informações oficiais relevantes foram incorporadas à reportagem.

7) Com as facilidades atuais de telecomunicações via internet, por que consideram fundamental a presença física constante do coordenador no laboratório?

As informações que apurei, de várias fontes, é que o Prof. Nicolelis não se fazia presente no IINN-ELS em forma física nem se fazia acessível via telefone, email ou outros meios digitais para os professores e alunos do instituto. Veja que até a reitora da UFRN, que está executando um projeto de R$ 48 milhões para o Prof. Nicolelis (o Câmpus do Cérebro) tem dificuldade para falar com ele: http://jornaldehoje.com.br/angela-paiva-o-modelo-da-gestao-universitaria-nao-casou-bem-com-o-modelo-da-instituicao-dirigida-por-nicolelis/

Mais conteúdo sobre:

IINN-ELSneurociênciasnicolelis