Sobre neurociências em Natal 4

Sobre neurociências em Natal 4

Herton Escobar

14 Fevereiro 2013 | 10h19

Pesquisa confere a ratos capacidade de “ver” luz infravermelha

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

(cópia da matéria publicada na edição de hoje do Estadão, com algumas informações complementares)

Um estudo publicado esta semana na revista digital Nature Communications mostra que é possível usar a tecnologia de interface cérebro-máquina para dar a animais capacidades sensoriais adicionais. Nesse caso, a capacidade de “sentir” um sinal de luz infravermelha, invisível ao olho, por meio de um sensor acoplado ao crânio e conectado ao cérebro por eletrodos.

O trabalho, feito com ratos, é assinado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, nos EUA; por Eric Thomson, aluno de pós-doutorado de seu laboratório; e Rafael Carra, estudante de graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Nicolelis e Thomson assinam o trabalho também como pesquisadores do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), apesar de Thomson não estar listado como pesquisador no site do IINN-ELS. Carra, por sua vez, passou um período como intercambista no laboratório de Nicolelis em 2012, de modo que não fica claro se alguma parte do trabalho foi feita no Brasil.*

Procurado pelo Estado, Nicolelis se recusou a dar entrevista sobre o estudo. Questionado por e-mail sobre quais partes da pesquisa haviam sido feitas no Brasil e qual era a relação de Thomson com o IINN-ELS, não respondeu e disse: “Em duas semanas, quando sair o outro trabalho numa outra revista do grupo Nature você vai saber”.

Reportagens publicadas pelo Estado em dezembro denunciaram um estado de “apagão científico” no IINN-ELS desde agosto de 2011, quando praticamente toda sua equipe científica abandonou o instituto, alegando impossibilidade de trabalhar com Nicolelis.

Lideranças científicas criticam o fato de Nicolelis raramente estar presente em Natal e produzir sua ciência fora do País, apesar de o IINN-ELS receber um volume de recursos públicos federais muito acima dos padrões da ciência brasileira. Entre eles, um aporte direto (sem edital) de R$ 33 milhões para o projeto Andar de Novo, no qual Nicolelis promete colocar um jovem paraplégico para dar o chute inicial da Copa do Mundo de 2014.**

* As afiliações institucionais dos autores listadas no trabalho indicam que Rafael Carra participou da pesquisa durante o período que esteve como intercambista na Universidade Duke, pois a afiliação à USP (onde é aluno de graduação) aparece apenas como “endereço atual”. A pesquisa, segundo as referências apresentadas no trabalho, foi financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos e os experimentos com animais foram autorizados pelo comitê de ética da Universidade Duke, o que indica que todo o trabalho experimental da pesquisa foi de fato realizado nos Estados Unidos. Não há nenhuma referência técnica no trabalho de que dados tenham sido produzidos no Brasil, apesar das afiliações nacionais citadas em sua autoria.

** Esse aporte de R$ 33 milhões foi empenhado em dezembro de 2012 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), via Finep, conforme revelado pela reportagem do Estado na ocasião, por meio de consultas ao Portal da Transparência do governo federal. Os recursos saíram do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), e quem autorizou o empenho foi o Ministério da Educação (MEC). O dinheiro foi empenhado diretamente em nome da Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP), associação que administra o IINN-ELS, presidida por Nicolelis, para uso no projeto Andar de Novo. Questionado pelo Estado como esse dinheiro será aplicado em pesquisas no Brasil, Nicolelis não respondeu. (Para mais informações, veja abaixo os posts anteriores sobre “neurociências em Natal”)

Image courtesy of Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory

Pesquisas com interface cérebro-máquina estão em alta

(versão atualizada de reportagem publicada em 21/12/2012 no jornal O Estado de S. Paulo)

As pesquisas com interface cérebro-máquina (ICM) estão em alta. A área foi recentemente escolhida como um dos Top 10 destaques de 2012 pela prestigiosa revista Science, graças a um trabalho publicado no final do ano na revista médica Lancet. Nele, pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, descrevem os resultados preliminares de um experimento clínico em que uma mulher tetraplégica de 52 anos foi capaz de controlar os movimentos de um braço robótico avançado apenas com o cérebro.

Não é a primeira vez que se demonstra isso. O diferencial do trabalho está na destreza com que a mulher foi capaz de comandar o braço robótico e na velocidade com que ela aprendeu a fazer isso. Assim como na tecnologia robótica da prótese, que imita as articulações reais humanas com grande afinidade (foto acima).

Ao longo de 13 semanas de treinamento, a mulher aprendeu a executar uma série movimentos complexos e refinados o suficiente para segurar e movimentar objetos próximos a ela com o braço robótico. Vítima de uma doença chamada degeneração espinocerebelar, ela não consegue mover o corpo abaixo do pescoço. O controle do braço robótico é feito por meio de eletrodos implantados no seu cérebro e conectados a um computador, que traduz seus comandos cerebrais em comandos digitais e os transmite para a prótese.

Esperança. São resultados experimentais, com um único paciente, mas que, segundo a Science, colocam a tecnologia de interface cérebro-máquina mais próxima de uma aplicação clínica. A ideia é que, no futuro, pessoas paralisadas por lesões ou doenças poderão usar aparatos robóticos controlados pelo cérebro para se movimentar ou executar tarefas simples do dia a dia.

O texto da revista menciona também o trabalho do neurocientista Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, que em 2011 publicou um trabalho na Nature mostrando que é possível, também, enviar informações sensoriais dos robôs de volta para o cérebro. Por exemplo, sobre a textura de um objeto tocado pela prótese. O trabalho, neste caso, foi feito com macacos, tocando objetos virtuais.

A pesquisa na Universidade de Pittsburgh, comandada pelo cientista Andrew Schwartz, é o único estudo clínico sobre interface cérebro-máquina em andamento com seres humanos nos EUA, segundo informações do banco de dados ClinicalTrials.gov. Segundo informações obtidas em dezembro pelo Estado junto à Universidade Duke, nos EUA, e à Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça (instituições parceiras do projeto Andar de Novo), Nicolelis não realizou nenhum teste de sua tecnologia em seres humanos até agora, em nenhum desses países, o que tem gerado preocupações técnicas e éticas na comunidade científica brasileira sobre sua proposta de já colocar um jovem brasileiro paraplégico para dar o chute inicial da Copa do Mundo de 2014, usando uma veste robótica controlada por ICM. (mais informações neste link)