Sobre neurociências em Natal 5

Sobre neurociências em Natal 5

Herton Escobar

26 Fevereiro 2013 | 09h55

Abaixo, cópia dos dois textos da reportagem publicada hoje no jornal O Estado de S. Paulo, com informações adicionais de ambos os lados do debate.

Foto reproduzida do site do IINN-ELS, mostrando a equipe de pesquisadores do Incemaq, no evento de inauguração do instituto, em julho de 2010.

Ex-colegas publicam carta com críticas a Nicolelis

Herton Escobar / O Estado de S.Paulo (26/02/2013)

Sete ex-membros do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) coordenado pelo neurocientista Miguel Nicolelis divulgaram uma carta no fim de semana na qual acusam o pesquisador de omitir informações sobre suas pesquisas na Universidade Duke, nos Estados Unidos, e de agir “exclusivamente em proveito próprio” na condução do instituto brasileiro.

Segundo os autores, Nicolelis teria mantido segredo sobre um projeto de pesquisa na Duke e publicado os resultados de forma isolada, mesmo sabendo que um de seus supostos parceiros no INCT estava desenvolvendo um projeto muito semelhante na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A carta, intitulada Eu apoio a ciência brasileira, foi enviada por e-mail a dezenas de lideranças científicas do País e reproduzida no blog da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC) e no Jornal da Ciência, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Ontem, o diretor científico do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), Rômulo Fuentes, publicou duas respostas no blog da SBNeC: uma em inglês, em nome de Eric Thomson, aluno de pós-doutorado de Nicolelis na Duke, e outra em nome próprio, na qual refuta o conteúdo da carta e contra-ataca com uma série de acusações aos seus autores.

Nicolelis não comentou a carta publicamente, mas declarou apoio às respostas postadas por Fuentes e Thomson. O debate se propagou pelas redes sociais, abrindo mais um capítulo na conturbada relação de Nicolelis com vários setores da comunidade científica brasileira.

A carta é assinada por sete ex-membros do Comitê Gestor do INCT Interface Cérebro-Máquina (Incemaq), criado em 2009, sob a coordenação de Nicolelis (veja a lista completa dos autores abaixo). A sede do projeto é o IINN-ELS, em Natal, gerido por uma organização social de interesse público, presidida por Nicolelis: a Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP).

Os sete autores que assinam a carta, em ordem alfabética: Antônio Carlos Roque da Silva Filho (USP-RP), Cláudia Domingues Vargas (UFRJ), Dráulio Barros de Araújo (UFRN), Márcio Flávio Dutra Moraes (UFMG), Mauro Copelli Lopes da Silva (UFPE), Reynaldo Daniel Pinto (USP-SC) e Sidarta Ribeiro (UFRN).

O “estopim” para a carta foi a publicação de um trabalho na revista Nature Communications, no dia 12, em que Nicolelis apresenta os resultados de um experimento que ele diz ter criado um “sexto sentido” em ratos, dando a eles a capacidade de “sentir” sinais de luz infravermelha, captados por um receptor conectado ao cérebro. O trabalho é coassinado por Thomson e um aluno de graduação da USP, que fez intercâmbio na Duke.

A carta chama atenção para o fato de que um de seus autores, Márcio Moraes, do Núcleo de Neurociências da UFMG, tem um projeto muito parecido com o de Nicolelis. Esse projeto foi apresentado na primeira reunião do Comitê Gestor do Incemaq, em julho de 2010, com a presença de Nicolelis – que não teria feito nenhuma menção ao seu próprio projeto na Duke.

“Se o trabalho já estava sendo feito na Duke (…), por que manter segredo durante a reunião? Se, por outro lado, o trabalho ainda não havia sido iniciado, mas Miguel Nicolelis considerou a ideia interessante, por que não firmou colaboração com o grupo da UFMG?”, questiona a carta.

“Foi uma postura inaceitável da parte do coordenador de um INCT, cujo objetivo principal é justamente promover parcerias estratégicas entre cientistas e instituições para acelerar a produção de pesquisas inovadoras no Brasil”, disse Moraes ontem ao Estado, por telefone.

Segundo ele, sua pesquisa com receptores de infravermelho acoplados ao cérebro de ratos é desenvolvida na UFMG desde 2009. Parte dos resultados, que compõem a tese de doutorado de um aluno, não poderá mais ser publicada por conta da publicação do trabalho de Nicolelis – que apresenta basicamente a mesma ideia.

“Ao privar a ciência brasileira de uma parceria justa e prometida, o Incemaq, na figura do seu coordenador, prof. Miguel Nicolelis, não agiu pelo interesse coletivo, como seria de se esperar de um coordenador de INCT, mas exclusivamente em proveito próprio”, conclui a carta.

“Achamos que o público tem o direito de saber o que está sendo feito com seu dinheiro e os problemas que estamos enfrentando com isso; por isso decidimos publicar a carta em vez de tentar resolver a situação internamente”, diz o físico Antonio Carlos Roque da Silva Filho, da USP de Ribeirão Preto, que falou com o Estado em nome do grupo que assina a carta. Segunde ele, havia um conflito entre os interesses pessoais de Nicolelis na Duke e seu papel como coordenador do Incemaq, que deveria ter sido revelado ao Comitê Gestor do instituto. “Claro que a ciência é uma atividade competitiva, todos sabemos disso. Mas os INCTs foram criados para fomentar colaborações e avançar a ciência nacional, e a atitude do professor Nicolelis foi na direção contrária disso.”

DESLIGAMENTO. Os sete autores foram desligados do Incemaq em julho de 2012. Procurados ontem, nem Nicolelis nem o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, órgão do governo federal que financia o Incemaq) informaram quem são os integrantes atuais do instituto. Nicolelis remeteu a pergunta ao CNPq (veja entrevista acima). O CNPq, procurado pela reportagem especificamente sobre isto no fim da tarde de ontem, disse que precisava de mais tempo para levantar as informações, porque a equipe técnica do órgão já havia ido embora. O Estado reenviou o pedido à Assessoria de Comunicação hoje de manhã e aguarda as informações. (Atualização: Respostas do CNPq, recebidas na noite de terça-feira, 26/02) O Incemaq não possui um site próprio.

Na tarde de ontem, atendendo a uma solicitação enviada pelo Estado durante a manhã, pedindo um posicionamento do órgão com relação à carta dos cientistas e às respostas postadas no blog da SBNeC, o CNPq enviou a seguinte declaração:

 

  • Caro Herton,??Em atenção a solicitação sobre a situação de funcionamento do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Interfaces Cérebro-Máquina (INCEMAQ), esclarecemos: ??Em 2012, o Comitê de Coordenação do Programa de INCT’s determinou a realização de uma visita técnica ao INCEMAQ para avaliar suas condições científicas e operacionais. Após a realização da visita, a Comissão de Especialistas designada atestou as plenas condições de funcionamento e continuidade do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Interfaces Cérebro-Máquina (INCEMAQ), o que subsidiou a decisão subsequente do Comitê de Coordenação dos INCTs autorizando a continuidade do projeto sob a coordenação do Dr. Miguel Nicolelis.  Atenciosamente,  Assessoria de Comunicação Social?Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

 

A visita técnica ao Incemaq (ou seja, às instalações do IINN-ELS) teria sido motivada por uma carta enviada à presidência do CNPq em outubro de 2011 pelos então nove membros do Comitê Gestor do Incemaq, denunciando uma situação de má gestão do instituto e pedindo a substituição de Nicolelis do cargo de coordenador. “Consideramos fundamental que a Coordenação do Incemaq seja exercida por pesquisador radicado no Brasil, com disponibilidade de tempo e inclinação para coordenar uma direção colegiada. Temos convicção de que o Incemaq é inviável no atual modelo de gestão, sob o qual o Comitê Gestor inevitavelmente dissolverse-á. Em vista do exposto, solicitamos a efetivação, como coordenador, do atual vice-coordenador, Prof. Manoel Jacobsen Teixeira (USP). Acreditamos que tal substituição possibilitará a utilização adequada dos recursos do Incemaq e o alcance de suas relevantes metas científicas”, afirma a carta. Segundo os autores, grande parte dos recursos repassados pelo CNPq ao Incemaq, via AASDAP (a organização social presidida por Nicolelis, que gerencia o IINN-ELS), havia sido utilizada até aquele momento para pagamento de pessoal administrativo da própria AASDAP, “em prejuízo das metas de pesquisa do Incemaq”. “Decorridos mais de dois anos da efetivação do Incemaq, a situação nos afigura extremamente preocupante”, diz a carta. “As decisões são centralizadas e tomadas sem conhecimento do Comitê Gestor, resultando no esvaziamento de seu poder decisório.”

Para os primeiros três anos do Incemaq (2010-2012), o CNPq repassou ao instituto, via AASDAP, R$ 2,5 milhões. O projeto foi recentemente renovado por mais dois anos, para o qual receberá mais R$ 2,1 milhões.

O documento de 2011 é assinado pelo próprio Jacobsen e por Allan Kardec Barros Filho, Antônio Carlos Roque da Silva Filho, Claudia Domingues Vargas, Dráulio Barros de Araújo, Erich Fonoff, Márcio Flávio Dutra Moraes, Reynaldo Daniel Pinto e Sidarta Ribeiro. Um outro ex-integrante do Comitê Gestor que assina a atual carta de crítica a Nicolelis, Mauro Copelli Lopes da Silva, não assinou a carta ao CNPq em 2011 porque já havia deixado o comitê por vontade própria alguns dias antes.

Dos nove autores da carta ao CNPq, seis assinam também o manifesto Eu apoio a ciência brasileira, divulgada neste fim de semana, com a adição de Mauro Copelli.

Jacobsen e Fonoff não assinam o manifesto. Nicolelis e o diretor científico do IINN-ELS, Rômulo Fuentes, divulgaram ontem cópia de uma carta assinada por Jacobsen e Fonoff, datada de 2 de janeiro de 2012 e endereçada à Coordenadoria dos Projetos de INCT, em que declaram apoio a Nicolelis como coordenador do Incemaq e dizem “desconhecer a integralidade dos documentos encaminhados ao CNPq que implicaram na proposta de substituição do coordenador do projeto”.

Estado procurou Jacobsen e Fonoff para esclarecer a questão e aguarda uma resposta dos pesquisadores.

Os sete autores do manifesto dizem que nunca receberam uma resposta do CNPq à carta de 2011 e que nunca foram procurados para falar sobre o assunto pelo órgão, mesmo na ocasião da visita técnica às instalações em Natal. Em julho de 2012, receberam um e-mail de Nicolelis informando-os que não faziam mais parte do Comitê Gestor nem do corpo de pesquisadores do Incemaq.

“Não tivemos resposta do CNPq e um dia, simplesmente, recebemos um e-mail do Nicolelis nos informando que não fazíamos mais parte do INCT”, diz Roque da Silva, da USP de Ribeirão Preto. “Ficou claro naquele momento que nunca houve nenhuma intenção por parte do professor Nicolelis de colaborar de fato com nenhum de nós.”

Acusações são “levianas e irresponsáveis”, diz neurocientista

O neurocientista Miguel Nicolelis classificou a “insinuação” de que a apresentação do pesquisador Márcio Moraes, da UFMG, no Comitê Gestor do Incemaq possa ter influenciado suas pesquisas como “primária, leviana e irresponsável”. “Nada do que o professor Marcio Moraes possa ter dito ou feito teve qualquer influência no nosso trabalho”, afirmou Nicolelis, em entrevista por e-mail ao Estado.

“Não tenho nenhuma lembrança, dois anos depois, da apresentação do prof. Márcio Moraes”, relata Nicolelis. “Não duvido de que ele possa ter apresentado algum trabalho envolvendo uso de transdutor infravermelho. Todavia, nosso trabalho, como demonstram os documentos remetidos ao senhor, dedicava-se a pesquisas usando luz infravermelha como fonte de controle de uma neuroprótese cortical desde 2006.”

Nicolelis e o diretor científico do IINN-ELS, Rômulo Fuentes, divulgaram cópias de e-mails trocados entre pesquisadores da Duke desde 2006, em que a ideia de acoplar sensores de infravermelho a cérebros de ratos já era discutida. O primeiro experimento de fato teria sido realizado em janeiro de 2010.

A carta assinada pelos sete ex-membros do Comitê Gestor do Incemaq também questiona o crédito dado ao IINN-ELS no trabalho que foi publicado na Nature Communications. Segundo eles, a pesquisa foi toda produzida na Duke. “Utilizar a produção de um laboratório no exterior como justificativa para prestação de contas de um financiamento nacional tem grande potencial de comprometer o trabalho sério e sólido das agências de fomento brasileiras nas últimas décadas”, afirma a carta. “A produção deve ser resultante do investimento em infraestrutura para geração de conhecimento, formação de recursos humanos e nucleação de grupos de pesquisa em território nacional.”

Nicolelis disse que a contribuição do IINN-ELS será explicada num próximo trabalho. “Fiquei entristecido esta semana ao ver que nosso trabalho havia se tornado um tema de discussão política por um grupo de neurocientistas na internet, questionando minha afiliação ao IINN-ELS. Eu tenho orgulho de estar afiliado ao IINN-ELS. Além de visitar o instituto em 2011 e ter trabalhado para montar experimentos comportamentais, muito da minha colaboração com pesquisadores do instituto se deu via internet”, escreveu Eric Thomson, pós-doutorando do laboratório de Nicolelis na Duke, que é o primeiro autor do estudo publicado na Nature Communications, em seu comentário no blog da SBNeC. “Algumas das ideias científicas mais vibrantes e inovadoras vieram dos meus colegas brasileiros, e eu dou grande valor a essas interações únicas.”

Nicolelis e Fuentes atribuem as críticas a um suposto complô liderado pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, que estaria “totalmente obcecado com a ideia de assassinar a reputação do prof. Nicolelis”. Sidarta, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e um dos fundadores do IINN-ELS, rompeu com Nicolelis em agosto de 2011, sacramentando um “racha” que esvaziou quase que completamente o quadro de pesquisadores e alunos do instituto.

“Basicamente, o pedido de remoção do prof. Nicolelis (do posto de coordenador do Incemaq) não passava de uma tentativa de ‘golpe de estado’ perpetrado por vínculos de amizade com alguém que passou a ter como missão de vida a destruição tanto do IINN-ELS como da reputação do seu idealizador, prof. Nicolelis”, escreve Fuentes, em seu comentário no blog da SBNeC.

Fuentes acusa Ribeiro de ter omitido sua afiliação ao IINN-ELS em um trabalho publicado em agosto de 2011 na revista PNAS, assim como uma fonte de financiamento, do National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos. Em vez disso, Sidarta citou apenas sua afiliação ao recém-constituído Instituto do Cérebro da UFRN, para onde migraram a maioria dos professores e alunos que abandonaram o IINN-ELS. “Claramente, o professor Sidarta tentou usar dados colhidos enquanto ele era funcionário do IINN-ELS para tentar vender a ideia que o seu novo instituto já era capaz de produzir ciência de ponta como o IINN-ELS”, escreve Fuentes. O caso foi levado à revista e uma correção foi publicada em setembro de 2011, citando o financiamento do NIH e a afiliação de Ribeiro ao IINN-ELS. “Como é sabido no mundo acadêmico, ignorar fontes de financiamento e afiliações é considerado um exemplo de conduta inapropriada”, declara Fuentes.

Procurado ontem pelo Estado, Ribeiro disse que havia feito um acordo com o grupo de não se pronunciar individualmente, para evitar que o debate fosse taxado de “briga pessoal” entre ele e Nicolelis.

Em uma carta enviada por ele ao “managing editor” da PNAS na ocasião, porém, Ribeiro diz não ter incluído o “grant” do NIH porque não fazia parte dele e porque Nicolelis ­– que seria o responsável pelo financiamento — havia exigido que seu nome não fosse incluído como co-autor do trabalho. Dos 11 autores do trabalho, 5 eram alunos do IINN-ELS e tiveram sua afiliação ao instituto incluída já na versão original do estudo. Na carta, Ribeiro diz ao editor da PNAS que não incluíra afiliação ao IINN-ELS no seu próprio nome porque havia sido expulso de lá, e porque quem pagava seu salário de pesquisador era a UFRN (ele recebia do IINN-ELS apenas como consultor). Segundo ele, a exigência da AASDAP (associação que gerencia o IINN-ELS, presidida por Nicolelis) de que ele assinasse o trabalho como pesquisador do IINN-ELS “adicionava insulto à injúria”, e conclui dizendo que faria isso somente contra sua vontade, caso exigido pela PNAS — que foi o que aconteceu.

Prof. Sidarta Ribeiro.  FOTO: Divulgação/UFRN (Outubro 2011)