Sobre neurociências em Natal 8

Sobre neurociências em Natal 8

Herton Escobar

28 Fevereiro 2013 | 09h55

 

CNPq atesta competência de Nicolelis como gestor de INCT

Órgão fez vistoria do INCT Interface Cérebro-Máquina (Incemaq) em 2012 e recomendou continuidade do projeto; 4 dos 5 atuais membros do comitê gestor são de Natal; único integrante da USP diz que “nem sabe onde fica o instituto”

Herton Escobar / O Estado de S.Paulo

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) informou que fez uma avaliação do instituto federal coordenado pelo neurocientista Miguel Nicolelis em Natal e que não encontrou problemas na condução do projeto, criticado publicamente por alguns ex-integrantes no últimos dias.

Em respostas enviadas ao Estado na noite de anteontem, o CNPq afirma que uma visita técnica foi feita em maio de 2012 às dependências do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Interface Cérebro Máquina (INCT – Incemaq), por uma comissão de consultores indicados pelo Comitê de Coordenação do Programa INCT. E que essa comissão concluiu: “Pelo que nos foi mostrado e pelas entrevistas que fizemos in loco, julgamos que o Incemaq está cumprindo seus objetivos iniciais e deve continuar a ser apoiado. O INCT Cérebro-Máquina atende plenamente os objetivos propostos para os INCTs e recomendamos que o seu apoio seja rapidamente reativado ad referendum da comissão nacional”.

O Incemaq é um dos 126 INCTs em funcionamento no País. O instituto recebeu R$ 2,5 milhões do CNPq para os primeiros três anos e vai receber mais R$ 2,1 milhões para os próximos dois. O projeto tem como sede o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), que é gerido pela Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (Aasdap), uma organização social de interesse público presidida por Nicolelis.

Os novos recursos se somarão a outros R$ 33 milhões que a Aasdap vai receber do governo federal para o projeto Andar de Novo, que promete colocar um jovem paraplégico brasileiro para dar o chute inicial da Copa do Mundo, usando uma veste robótica controlada pelo cérebro.

No fim de semana, sete ex-membros do Comitê Gestor do Incemaq divulgaram uma carta na qual acusam Nicolelis de agir “exclusivamente em proveito próprio” na condução do instituto. O documento é assinado por Antonio Carlos Roque da Silva Filho (USP-Ribeirão Preto), Claudia Vargas (UFRJ), Dráulio Barros de Araújo (UFRN), Márcio Moraes (UFMG), Mauro Copelli da Silva (UFPE), Reynaldo Pinto (USP-São Carlos) e Sidarta Ribeiro (UFRN).

Em outubro de 2011, alguns deles e outros integrantes do Incemaq enviaram uma carta à presidência do CNPq, pedindo que Nicolelis fosse substituído na coordenação pelo então vice-coordenador, Manoel Jacobsen Teixeira, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Os sete afirmam que não foram consultados em nenhum momento pelo CNPq e que, em julho de 2012 (dois meses após a vistoria técnica), receberam um e-mail de Nicolelis desligando-os do Incemaq.

O bioquímico Walter Colli, do Instituto de Química da USP, que foi um dos avaliadores enviados a Natal, disse que talvez seja necessária uma nova vistoria. “Minha opinião é que o CNPq deveria enviar uma outra comissão agora”, disse ao Estado.

Composição. O CNPq informou também a nova composição do comitê gestor do Incemaq, formado por cinco cientistas. Quatro são do próprio IINN-ELS: Rômulo Fuentes, Edgar Morya, Hougelle Pereira e o próprio Nicolelis. O único integrante de fora de Natal é Jacobsen, da USP. Ele disse ao Estado que não participa ativamente do instituto, por conta da sobrecarga de trabalho na Faculdade de Medicina. “Nunca participei de uma reunião (do Incemaq), nunca fui a Natal, nem sei onde fica o instituto”, afirmou.

O neurocirurgião Erich Fonoff, colega de Jacobsen na FMUSP, que também já esteve associado ao Incemaq, disse que não há nenhum envolvimento prático dos dois no projeto de Natal. “Tivemos um interesse inicial de participar do Incemaq, como um braço clínico do projeto em São Paulo, mas não fomos contemplados com recursos e a parceria não se concretizou”, disse Fonoff. “Era algo que poderia ter sido muito positivo, mas infelizmente não aconteceu.”