SOBRE NEUROCIÊNCIAS EM NATAL 1

SOBRE NEUROCIÊNCIAS EM NATAL 1

Herton Escobar

17 Dezembro 2012 | 00h27

O jornal O Estado de S. Paulo publicou neste domingo (dia 16) uma reportagem sobre o andamento dos projetos de pesquisa científica liderados pelo neurocientista Miguel Nicolelis nas cidades de Natal e Macaíba, no Rio Grande do Norte. A reportagem, produzida por mim em parceria com o repórter Felipe Frazão, traz à tona uma série de críticas e questionamentos da comunidade científica brasileira com relação ao andamento destes projetos e à quantidade de recursos públicos que está sendo destinada a eles.

Copio abaixo, ipsis literis, o email que enviei ao Prof. Nicolelis no início da noite de segunda-feira, dia 10 de dezembro, com 24 perguntas relacionadas aos temas abordados na reportagem. O email foi reenviado na terça, na quarta e na quinta-feira, com cópia para a assessora do Prof. Nicolelis na AASDAP em São Paulo. Simultaneamente aos emails, enviei mensagens por celular e tentei falar com ele diversas vezes por telefone durante a semana, pedindo que ele confirmasse o recebimento das perguntas, mas não obtive resposta. Na quinta-feira à noite, dia 13, o Prof. Nicolelis me enviou uma resposta por email, copiada também aqui, abaixo das perguntas. Vale ressaltar que em nenhum momento ele pede mais tempo para responder nem questiona qualquer uma das informações contidas nas perguntas.

A íntegra das matérias pode ser lida neste link.

As perguntas continuam à disposição do Prof. Nicolelis para respondê-las.

CÓPIA DO EMAIL:  

Prezado Prof. Nicolelis,

No meu papel de jornalista, gostaria de solicitar uma entrevista com o senhor sobre o andamento dos projetos científicos administrados pela AASDAP em Natal e Macaíba, que nos últimos anos receberam aportes significativos de recursos públicos federais. As principais perguntas estão abaixo. Por favor fique à vontade para repondê-las por escrito, por telefone ou pessoalmente. As perguntas referem-se exclusivamente aos projetos de pesquisa científica administrados pela AASDAP (IINN-ELS, Centro de Pesquisa de Macaíba e Câmpus do Cérebro), sem envolver os projetos sociais de saúde e educação científica (Centro de Saúde Anita Garibaldi e Escola Alfredo J. Monteverde).

Peço, por favor, que confirme o recebimento desta mensagem. O prazo para fechamento da reportagem é sexta-feira, 14 de dezembro. Obrigado.

PERGUNTAS:

SOBRE PRODUÇÃO CIENTÍFICA:

1) Qual foi o motivo do rompimento com os pesquisadores da UFRN em julho de 2011? Em seu artigo publicado em agosto de 2011 na página do IINN-ELS (http://www.natalneuro.org.br/noticias_brasil/2011-08agosto.asp) o senhor diz que “o término da colaboração já estava previsto” e não representava “nenhum prejuízo na continuidade das pesquisas” no IINN-ELS. O que isso significa exatamente? O rompimento já estava previsto em algum documento da parceria do instituto com a UFRN? Conforme divulgado amplamente pela mídia na época, os pesquisadores que saíram do instituto atribuem o “racha” ao seu estilo de gestão, que seria excessivamente autoritário, a ponto de impedi-los de trabalhar adequadamente (por exemplo, não autorizando a instalação de equipamentos, a realização de experimentos e a entrada de pessoas no prédio). Há alguma verdade nisso?

2) Do ponto de vista de um gestor/administrador, como o senhor avalia o fato de quase 100% da sua equipe de trabalho (incluindo pesquisadores, técnicos e alunos) ter abandonado o IINN-ELS simultaneamente, do dia para a noite? Como o principal responsável pelo instituto, o senhor reconhece alguma falha de gestão ou liderança na condução do projeto?

3) De acordo com o site do IINN-ELS, a equipe de pesquisa do instituto atualmente é composta de seis pessoas: Rômulo Fuentes, Edgard Morya, Marco Aurélio Freire, Mariana Araújo, Hougelle Simplício Pereira e Robson Savoldi. Além de três alunos de pós-graduação: uma pós-doc (Carolina Kunicki) e dois doutorandos (Maxwell Santana e Ivani Brys). O senhor confirma essa informação?

4) Em entrevista ao caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 27 de agosto de 2011 (http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,daqui-nao-sai-mais-um-ovo,764739,0.htm), o senhor questionava a qualificação científica da equipe que rompeu com o IINN-ELS, afirmando o seguinte: “Um índice 10 é muito ruim, é o cara que acabou o pós-doutorado, no máximo”, diz Nicolelis. O H da questão é que, numa reunião com os dez pesquisadores em setembro passado, ele disse que o currículo do grupo tinha um índice da idade da sua sobrinha de 5 anos. “Eles não têm massa crítica como instituto, ninguém ali tem um índice-H maior que 15, há quem tenha índice 2”, diz Nicolelis.” Segundo os dados disponíveis na base de dados Scopus, o índice H médio dos seis pesquisadores que compõem a equipe atual do IINN-ELS (sem contar o senhor e os três alunos) é 3,8. O índice mais alto é 7 (Marco Aurélio Freire) e o mais baixo é 1 (Robson Savoldi). Tomando o índice H como referência de qualificação científica e com base no que o senhor disse na entrevista, seria justo dizer que a qualificação científica da atual equipe do IINN é “muito ruim”?

5) O IINN-ELS pode ser considerado um instituto “de ponta” na neurociência brasileira e/ou internacional? Como o senhor avalia a produção científica do instituto? E com relação à formação de recursos humanos?

6) Em uma notícia institucional publicada no site do IINN-ELS em agosto de 2011 (http://www.natalneuro.org.br/noticias_brasil/2011-08agosto.asp) o senhor anuncia a formação de uma nova equipe de pesquisadores do instituto, que seria formada “pela nata da neurociência mundial“. A notícia inclui uma lista com os nomes de 31 cientistas estrangeiros que passariam a “colaborar permanentemente com a equipe científica do instituto, atuando como orientadores, pesquisadores e chefes de projetos”. O que fazem, exatamente, esses 31 pesquisadores estrangeiros no IINN-ELS? Quanto tempo eles passam fisicamente presentes em Natal? Têm laboratórios dentro do instituto? Já assinaram algum trabalho científico com vínculo ao IINN-ELS?

7) Quem são as pessoas na foto atachada a este email, que ilustra a notícia de agosto de 2011 no site do IINN-ELS (http://www.natalneuro.org.br/noticias_brasil/2011-08agosto.asp)? O senhor poderia identificar cada uma delas e descrever o vínculo de cada uma delas com o IINN-ELS? Há quem diga que o senhor, naquela ocasião, trouxe pessoas da sua equipe na Universidade Duke, nos EUA, para “fazer volume” e mascarar a falta de pesquisadores mais gabaritados no IINN-ELS. Há alguma verdade nisso?

8) Desde agosto de 2011, segundo o seu currículo Lattes, o senhor publicou 13 trabalhos científicos em revistas indexadas. Em todos eles, com uma única exceção (Freire et al., PLoS One, Nov. 2011), o senhor é o único autor com vínculo ao IINN-ELS. Todos os outros autores são estrangeiros; a maioria deles vinculada à Universidade Duke. Na prática, quanto da ciência que dá fundamento a estes trabalhos foi produzida efetivamente dentro dos laboratórios do IINN-ELS? Quanto tempo o senhor passa, em média, fisicamente dentro do IINN-ELS, fazendo pesquisa?

9) O único trabalho dentre estes 13 que tem outros autores vinculados ao IINN-ELS (Freire et al., PLoS One, Nov. 2011) foi produzido antes do rompimento da equipe (a data de submissão do trabalho à PLoS One é 4 de julho de 2011). Diante disso, seria correto dizer que a atual equipe de pesquisadores “residentes” do IINN-ELS não publicou nenhum trabalho científico novo desde agosto de 2011?

10) Por que o senhor não publicou em revista científica indexada os resultados do experimento em que a macaca Idoya caminhando em uma esteira no seu laboratório nos EUA comandou os movimentos de um robô no Japão, com os comandos cerebrais transmitidos via internet, em 2008? O experimento foi amplamente divulgado na mídia internacional e o senhor dá grande destaque a ele em suas palestras, mas os dados científicos nunca foram publicados em revistas indexadas, impossibilitando outros cientistas de reproduzir e validar os resultados. Por que o senhor optou por não seguir o protocolo-padrão de publicação científica neste caso específico? Como o senhor avaliaria essa mesma postura de um concorrente seu?

11) Por que a parceria do senhor com o Hospital Sírio-Libanês não foi renovada?

SOBRE FINANCIAMENTO:

1) Quanto dinheiro exatamente, em recursos públicos federais, já foi investido nos projetos da AASDAP em Natal e Macaíba desde a sua fundação? Em nome da transparência, favor identificar o órgão financiador associado a cada montante (por exemplo, MEC, MCTI, Finep, CNPq, etc), o destino que foi dado a cada montante (por exemplo, compra de equipamentos, construção de prédios, projetos de pesquisa, etc) e o projeto associado a cada montante (IINN-ELS, Centro de Pesquisa de Macaíba ou Câmpus do Cérebro).

2) O senhor afirma no seu artigo de agosto de 2011 no site do IINN-ELS (http://www.natalneuro.org.br/noticias_brasil/2011-08agosto.asp) que “2/3 da captação total de recursos da AASDAP até hoje advêm de fontes de financiamento privadas nacionais e estrangeiras; isso quer dizer que para cada real público recebido pela AASDAP, 2 reais foram captados de fontes privadas“. Sendo assim, seria correto deduzir que o volume de recursos privados captado pela AASDAP é o dobro do valor que o senhor indicar como resposta para a pergunta anterior? Qual é a aplicação dada a esses recursos privados? Quanto disso é usado para fins de pesquisa (compra de equipamentos, reagentes e outros insumos de pesquisa, por exemplo) versus pagamento de salários e outros custos administrativos?

3) Qual é o status operacional neste momento do projeto de construção do Câmpus do Cérebro em Macaíba? Os prédios já estão prontos? Já há equipamentos dentro deles? Há uma data prevista de inauguração e início dos trabalhos de pesquisa (em entrevistas recentes o senhor disse que ele seria inaugurado em 2012)?

4) Qual é o tamanho do prédio de pesquisa do Câmpus do Cérebro, especificamente? Notícias no site do IINN-ELS dizem que ele terá 25 laboratórios. Quantas pessoas (incluindo cientistas, técnicos, alunos, pessoal administrativo e prestadores de serviço) o senhor estima que serão necessárias para operar uma infraestrutura desse porte?

5) Com relação à disputa sobre posse e uso dos equipamentos de pesquisa no IINN-ELS: Há algum equipamento com tombo da UFRN ainda dentro do instituto? A quem pertencem, exatamente, os equipamentos de pesquisa do IINN-ELS — à AASDAP, à UFRN ou aos órgãos financiadores do governo federal que pagaram pelos equipamentos? Os laboratórios e os equipamentos científicos comprados com dinheiro público federal que estão dentro do instituto podem ser usados por alunos e professores da pós-gradução em neurociências da UFRN?

6) Com relação ao computador BlueGene, doado pelo governo da Suíça em 2010: Onde está esse computador agora e qual é o status operacional dele? Há quem diga que o computador já está bastante defasado, e que será muito mais custoso colocá-lo para funcionar do que seria comprar um sistema novo ou pagar por tempo de uso em sistemas já instalados e mais modernos, disponíveis no mercado acadêmico e privado. Como o senhor avalia essa relação de custo-benefício? Quem pagou e quanto custou para trazer o BlueGene para o Brasil?

7) Diante das aparentes dificuldades de atrair e fixar pesquisadores de alto nível no IINN-ELS em Natal, qual é a estratégia do senhor para fazer isso no Câmpus do Cérebro, em Macaíba, onde as dificuldades logísticas, estruturais e os custos operacionais serão ainda maiores do que na capital?

SOBRE O PROJETO WALK AGAIN:

1) Qual é o custo previsto e quais são as fontes de financiamento para a realização do projeto Walk Again no Brasil, associado à meta de colocar uma criança/jovem brasileira com lesão medular para dar o chute inaugural da Copa do Mundo de 2014? O senhor já recebeu ou espera receber recursos do governo federal para esse projeto?

2) Há quem diga que a proposta do senhor no projeto Walk Again para a abertura da Copa do Mundo é prematura, do ponto de vista ético e científico. O senhor acredita que já há resultados suficientes dessa tecnologia em modelos animais para propor um experimento com seres humanos nesses mesmos moldes? Quais são esses resultados? O senhor já fez algum experimento semelhante de locomoção motora comandada via interface cérebro-máquina com seres humanos no seu laboratório da Duke ou na Suíça?

3) Uma das preocupações levantadas por outros pesquisadores diz respeito à duração da funcionalidade dos eletrodos implantados no cérebro, que supostamente perderiam a capacidade de registrar os impulsos cerebrais após algumas semanas. O que os resultados obtidos até agora dizem sobre isso? O implante dos eletrodos seria permanente, ou os eletrodos teriam de ser removidos e/ou movidos para diferentes pontos do córtex de tempos em tempos?

4) Como será feita a seleção dos pacientes no Brasil para este experimento e onde (em qual instituição) será feita a implantação dos eletrodos no cérebro dos pacientes selecionados? Faltando 17 meses para a abertura da Copa do Mundo, o senhor já submeteu algum projeto de pesquisa à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep)? Qual é o cronograma de pesquisa e experimentação do projeto para cumprir a meta de fazer uma demonstração já na abertura da Copa?

5) Em experimentos com seres humanos, a identidade dos participantes costuma ser mantida em sigilo. O senhor vê alguma preocupação ética em expor uma pessoa que participa de um ensaio clínico como este em um evento esportivo, que será assistido ao vivo por milhões de pessoas no mundo todo?

SOBRE O PRÊMIO NOBEL:

1) Há uma grande expectativa no Brasil de que o senhor, a qualquer momento, será o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio Nobel. O senhor, pessoalmente, também se vê como um candidato ao prêmio?

Cordialmente,

Herton Escobar

……

RESPOSTA DO PROF. NICOLELIS:

Prezado Herton,
Tudo bem com vc? Desculpe-me pela demora em responder, mas infelizmente não terei como atender seu pedido tão gentil. Na minha condição de cientista profissional, nesse momento, eu estou imerso e totalmente focado numa série de experimentos, escrita de trabalhos e relatórios. Assim, não tenho como responder a volumosa série de perguntas que vc me remeteu no prazo tão minúsculo que me foi oferecido. Quem sabe numa outra oportunidade podemos conversar? Que tal assim? Podemos agendar para depois da abertura da Copa de 2014!
Gde abc e boa sorte nos seus projetos.
Miguel
MINHA RESPOSTA AO PROF. NICOLELIS:
(enviada logo na sequência, ainda na noite de quinta-feira)
Caro Prof. Nicolelis,
Resposta registrada. A matéria continua de pé para a edição de domingo. Se o senhor mudar de ideia e se interessar em responder ao menos parte das questões, estarei à disposição.
Obrigado.
Herton Escobar