TAPA NA CARA, PARA ACORDAR

Herton Escobar

29 Julho 2011 | 08h09

Para despertar o blog de sua longa hibernação submarina, aqui vai uma notícia triste e selvagem, diretamente de Kuala Lumpur, na Malásia (onde estou agora).

As organizações Traffic e WWF divulgaram hoje um vídeo-documentário sobre os desafios de conservação do tigre-da-malásia na região do Parque Estadual Royal Belum e da Reserva Florestal de Temenggor, no norte do país, divisa com a Tailândia. O problema aqui é incomodamente familiar à realidade brasileira: muita floresta, muito bicho e muito caçador para pouco dinheiro, pouca infra-estrutura e pouca fiscalização. Só o Royal Belum tem 1.175 km2 – bem pequeno em comparação com parques da Amazônia brasileira, mas enorme para um país do tamanho da Malásia, e quase duas vezes o tamanho de Cingapura, o país vizinho ao sul (que, aliás, eliminou a Malásia das Eliminatórias da Copa do Mundo ontem, para tristeza nacional). O parque vive infestado de caçadores, mas tem apenas 9 guarda-parques para cuidar dele.

“Imagine se Cingapura tivesse só 9 policiais para manter a segurança do país”, comparou William Schaela, diretor regional da rede Traffic para o sudeste asiático. (Mais uma vez, há parques muito maiores no Brasil que adorariam ter 9 guarda-parques, mas só porque nós não temos nada não significa que outros tenham de se contentar com pouco, não é mesmo? — Para mais informações, veja matéria publicada recentemente pela minha colega Afra Balazina, sobre a falta de funcionários nas unidades de conservação do Brasil.)

O Royal Belum, coberto de floresta tropical, tem uma biodiversidade incrível. Mas a sua grande estrela, sem dúvida, é o tigre-da-malásia (Panthera tigris jacksoni). Um animal espetacular, como todo grande felino. E igualmente cobiçado e ameaçado pela sua beleza. Os pesquisadores não sabem exatamente quantos felinos vivem na região (a estimativa é de 40 a 50 tigres, somando as populações de Royal Belum e Temenggor, que juntos têm mais de 3 mil km2, segundo o biólogo Mark Rayan Darmaraj, da WWF, que está fazendo um estudo sobre isso para sua tese de doutorado). Mas sabem que eles estão sendo caçados de forma cruel e persistente em ambas as áreas “protegidas” – como vocês podem ver no vídeo.

E o pior é que esses tigres não são mortos para servir de comida nem proteger rebanhos de agricultores pobres ou qualquer coisa assim. São mortos pela sua pele, seus dentes e seus ossos, que os chineses acreditam ter propriedades medicinais antiinflamatórias. Que provavelmente não têm … mas mesmo que tivessem … precisa mesmo matar um tigre para curar uma inflamação? Nos dias de hoje?

No caminho de volta da coletiva de imprensa para o meu hostel, conheci um senhor taxista muito simpático, de 71 anos, muito conversador, que queria saber tudo a meu respeito. Disse que era jornalista, brasileiro, que estava viajando a trabalho pelo sudeste asiático e que de Kuala Lumpur iria, amanhã, para a região de Sarawak, no norte de Borneo, para ver animais selvagens lá. Ele ficou todo entusiasmado com a palavra “wildlife” (vida selvagem) e disse que queria muito também poder ir para a África ou para a Amazônia, ver animais selvagens com os próprios olhos. Aí eu disse: “Mas o senhor tem um monte de “wildlife” aqui no seu país mesmo. Inclusive o tigre-da-malásia, etc e tal. Não precisa ir até a África para isso.” Acreditem se quiser, mas acho que ele não acreditou. Ou, pelo menos, não pareceu muito entusiasmado com a notícia.

Muitos criticam as ONGs internacionais por tentar proteger a biodiversidade dos outros. Mas a verdade é que muitas vezes não damos o devido valor ao que nós mesmos temos. Ou nem nos damos conta do que temos. Até que vem alguém de fora e nos dá um tapa na cara. Acorda!

Abraços a todos.