TIRA-TEIMA CELULAR

TIRA-TEIMA CELULAR

Herton Escobar

16 Setembro 2010 | 18h29

Foto: ROBSON FERNANDJES/AE - Pesquisador observa células-tronco no microscópio.

Foto: ROBSON FERNANDJES/AE - Pesquisador observa células-tronco no microscópio.

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A Sociedade Internacional para Pesquisas com Células-Tronco (ISSCR, em inglês) lançou no início de junho um site de informações especificamente voltado para tirar dúvidas de pacientes interessados em se submeter a terapias com células-tronco (A Closer Look at Stem Cell Therapies). O site, aparentemente, foi um sucesso, refletindo o enorme interesse e esperança que as pessoas têm com relação a essas terapias (quase todas elas, por enquanto, experimentais). Segundo um comunicado enviado ontem pela ISSCR a seus associados, o site recebeu mais de 67 mil visitantes nos últimos 3 meses. E o país de origem com o segundo mais número de visitantes foi o Brasil, atrás dos Estados Unidos e à frente da Grã-Bretanha.

A grande procura de brasileiros por essas informações não é uma surpresa. Pesquisadores de referência nessa área no País recebem e-mails quase que diariamente de pacientes e parentes de pacientes pedindo informações sobre tratamentos experimentais com células-tronco. Especialmente quando sai alguma notícia na imprensa sobre pessoas que dizem ter se curado com elas! A internet está cheia de sites de clínicas e hospitais na China e em outros países que oferecem terapias com células-tronco, e que relatam resultados fantásticos dessas terapias. Portanto é mais do que compreensível que as pessoas fiquem esperançosas e corram atrás desses tratamentos, por mais experimentais (ou até arriscados) que sejam. Não faltam exemplos de famílias que chegaram a vender tudo o que tinham para viajar para a China e receber injeções de células-tronco.

Eu mesmo, que não sou médico nem cientista, mas já escrevi várias matérias sobre esse assunto no Estadão, frequentemente recebo e-mails e consultas de pacientes me perguntando se esses tratamentos são verdadeiros e se são seguros. O caso mais recente foi o do Edival, de uma família humilde de Fortaleza, que estava numa dúvida desesperadora se deveria levar seu irmão (portador de esclerose lateral amiotrófica em estágio avançado) para receber injeções de células-tronco numa clínica da Alemanha, por US$ 7.500 cada. Ele sabia que a técnica não era comprovada, que não havia nenhuma garantia de resultados, e tinha medo de que se irmão, já muito fragilizado pela doença, não sobrevivesse à viagem (detalhe: era inverno na Alemanha) … mas, se não fosse, tinha medo da culpa que carregaria pelo resto da vida por não ter tentado.  Em respeito à sua privacidade, não vou entrar nos detalhes, mas posso dizer que ele foi, que o irmão sofreu muito, e que não melhorou absolutamente nada.

O site da clínica alemã, assim como todos os outros que oferecem essas terapias, porém, está cheio de relatos de pacientes que dizem ter se beneficiado das células-tronco. Pode até ser. Mas há muitas ressalvas que precisam ser feitas antes que se possa aceitar esses relatos como prova de alguma coisa. E é esse, justamente, um dos objetivos principais do site da ISSCR — que tem uma versão traduzida para o português no site da Rede Nacional de Terapia Celular.

Uma dessas ressalvas — a número 4 numa lista de 10 — remete a um dos assuntos mais polêmicos que já abordei neste blog. O efeito placebo. Vou resumir apenas o título do que diz a ISSCR: “Só porque as pessoas dizem que as células-tronco as ajudaram, não significa que ajudaram de fato.”  O problema é o mesmo da homeopatia: sem um estudo controlado comparativo, não há como saber 1) se houve alguma melhora clínica de fato, ou 2) se essa eventual melhora foi efeito das células-tronco, ou se foi efeito das terapias complementares (tipo acupuntura e fisioterapia, que são administradas junto com as células), ou se a pessoa teria melhorado de qualquer maneira, naturalmente, independentemente de qualquer tratamento. Se as pessoas já se sentem melhor com uma pílula de farinha, imagine com uma injeção de células-tronco! O efeito placebo pode ser fortíssimo numa situação dessas.

Enfim … vou resumir o que dizem os especialistas da seguinte forma: A única terapia com células-tronco testada e aprovada cientificamente e clinicamente até agora é o transplante de medula óssea, para o tratamento de doenças do sangue. Há muitas outras terapias promissoras sendo pesquisadas por aí, algumas em animais, outras já em seres humanos, mas são todas experimentais. E terapias experimentais não podem ser cobradas. Portanto, se alguém te cobrar para fazer qualquer coisa com células-tronco que não seja um transplante de medula óssea, não aceite e não faça. Ou faça, mas tenha consciência de que 1) não é um tratamento comprovado; 2) não há garantia nenhuma de resultados; e 3) há risco de efeitos colaterais, potencialmente sérios.

Claro que uma pessoa que está presa a uma cadeira de rodas ou sofre de uma doença terminal vai tentar tudo que for possível para se curar, por menores que sejam as chances ou maiores que sejam os riscos. Não há como condenar isso. Mas vender falsas esperanças e fazer com que famílias vendam tudo o que têm para pagar um tratamento “made in China” (ou mesmo “in Germany”) que não vai trazer benefício nenhum é condenável em qualquer lugar do mundo.

Abraços a todos.