O OSCAR DAS ESPÉCIES NOVAS

O OSCAR DAS ESPÉCIES NOVAS

Herton Escobar

24 Maio 2012 | 18h17

FOTO: CAROLINE FUKUSHIMA/INST.BUTANTAN/IB-USP

Foi anunciada hoje a lista das “Top 10 Novas Espécies” de 2011, eleitas como as mais curiosas do ano pelo Instituto Internacional para Exploração de Espécies da Universidade do Estado do Arizona, nos EUA. Ela inclui uma aranha brasileira e uma cubo-medusa (um tipo de água-viva) descoberta no Caribe, mas descrita com a participação de pesquisadores brasileiros.

A aranha é uma tarântula azul, maravilhosa, chamada Pterinopelma sazimai, em homenagem a Ivan Sazima, um biólogo muito querido e muito respeitado da Unicamp, que coletou os primeiros exemplares desse bicho na Chapada Diamantina, ainda na década de 70. (é comum na taxonomia — a ciência de descrever e classificar espécies — haver um intervalo, às vezes bem grande, entre a descoberta de uma espécie e sua descrição científica … porque às vezes a descrição é difícil e/ou faltam taxonomistas para descrevê-la, especialmente em um país megadiverso como o Brasil, onde novas espécies são descobertas quase que diariamente … mas o que vale como “data de nascimento” da espécie, cientificamente falando, é a data de publicação do trabalho descritivo, não a data de descoberta na natureza)

A descrição, publicada na revista Zootaxa, foi feita por três pesquisadores brasileiros, associados ao Instituto Butantan e à USP: Rogério Bertani, Roberto Nagahama e Caroline Fukushima.

A tal da cubo-medusa foi batizada de Tamoya ohboya, e sobre ela eu posso falar um pouquinho mais, pois ela vem de um lugar que eu conheço bem: a ilha de Bonaire, no sul do Caribe, onde já vivi e trabalhei como guia de mergulho durante 5 meses. Além disso, foi descrita por dois pesquisadores que eu também conheço bem: Allen Collins, do Instituto Smithsonian, e Antonio Carlos Marques, o “Tim”, do Instituto de Biociências da USP.

As cubo-medusas são bichinhos danados, para se olhar sem tocar, pois “queimam” bastante a pele quando tocadas (como se costuma dizer, apesar de não ser uma queimadura propriamente dita). Tim me conta que ela já era conhecida dos mergulhadores há muitos anos em Bonaire, mas ninguém tinha se dado ao trabalho de estudá-la. Até que, em 2008, Allen fez uma coleta científica e, finalmente, se pôs a descrevê-la — sem saber ao certo se era uma espécie nova mesmo, ou apenas uma variedade local de alguma espécie já conhecida.

A espécie conhecida mais parecida com o bicho de Bonaire era a Tamoya haplonema, de águas brasileiras, e por isso todo o trabalho comparativo que serviu de base para descrever a nova espécie foi feito em colaboração com a equipe de Tim, no Brasil, incluindo análises morfológicas e de DNA.

Uma curiosidade que colocou a Tamoya ohboya na lista das Top 10 não é exatamente científica: foi o fato de seu nome ter sido escolhido por meio de um concurso aberto, em que mais de 300 pessoas submeteram propostas de nomes e depois foi feita uma votação aberta para escolher o favorito. O nome vencedor, “ohboya”, sugerido por uma professora do ensino fundamental nos EUA, é uma referência à expressão “oh boy!”, que os americanos usam para demonstrar espanto com alguma coisa … algo como “caramba, meu!”, em bom paulistano.

Acho difícil acreditar que esse era o melhor nome na lista de opções … mas enfim, pelo menos rendeu uma classificação nos Top 10!

A descrição da medusa também foi publicada na Zootaxa, e uma foto dela está abaixo.

Caramba, meu!