TROCANDO DE SEXO

TROCANDO DE SEXO

Herton Escobar

26 de setembro de 2011 | 08h42

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Imagine só a seguinte situação: 1) o avião no qual você está viajando cai no meio do Oceano Pacífico, 2) apenas duas pessoas sobrevivem à queda e conseguem chegar a uma ilha deserta, levados pela corrente, 3) Você é um desses sortudos sobreviventes, mas com dois problemas: 1) a tal ilha fica a muitos quilômetros de distância do local do acidente, o que significa que vocês nunca serão encontrados e passarão o resto da vida nessa ilha perdida, e 2) a outra pessoa que sobreviveu é do mesmo sexo que você (ou seja, dois homens ou duas mulheres). E agora, como é que você passa seus genes adiante? Como é que você se reproduz?

Infelizmente para nós seres humanos, mamíferos, não haveria solução. Para muitos animais, porém, e em especial para os peixes, isso não seria problema.

Uma das coisas mais curiosas que aprendi nos últimos meses é que muitos peixes marinhos – a maioria deles, na verdade – podem trocar de sexo com relativa facilidade. Machos viram fêmeas e fêmeas viram machos, de acordo com a necessidade do indivíduo e/ou da população.

A biologia dessa transformação não é totalmente compreendida ainda, mas envolve fortes doses de hormônios sexuais, cuja liberação é coordenada pelo cérebro, e que podem desencadear mudanças tanto físicas quanto fisiológicas no indivíduo. O “gatilho” da mudança costuma ser algum fator ambiental relacionado à estrutura social e aos hábitos reprodutivos da espécie. Se faltam machos na população, algumas fêmeas podem virar machos, e vice-versa.

Um exemplo muito bom é o do peixe-palhaço. Foi com grande tristesa que descobri que um dos meus filmes favoritos, Procurando Nemo, comete uma gafe científica importante logo nos seus primórdios. Para quem não se lembra, o filme começa com Coral, esposa do Marlin e mãe do futuro Nemo (ainda no ovo), sendo devorada por uma barracuda. Marlin, então, cria Nemo sozinho dentro da anêmona que lhes serve de domicílio.

O erro científico, é que, na vida real, o pai do Nemo teria se transformado em fêmea após a morte da mãe. Na estrutura social/sexual dos peixes-palhaços, o indivíduo mais forte e dominante da anêmona é a fêmea, que impera sobre um pequeno número de indivíduos menores, machos. Quando a fêmea morre ou vai embora por algum motivo, o mais forte dentre os machos remanescentes muda de sexo e assume o papel de fêmea dominante, mantendo a estrutura social da espécie intacta.

Muitos outros peixes recifais têm essa capacidade, muito conveniente para garantir a reprodução da espécie (e do indivíduo) em determinadas situações. Imagine só!

Abaixo, algumas imagens de peixes-palhaços que fiz durante mergulhos na Indonésia. Em um deles, com a anêmona vermelha, dá para perceber bem a diferença entre o macho (menor) e a fêmea (maior).

Abraços a todos.

(PS: Nemo continua sendo um dos meus filmes favoritos.)

 

Outra curiosidade: Os tentáculos das anêmonas são cobertos de nematocistos, um tipo de célula de defesa (ou ataque) que explode e dispara um arpão microscópico, revestido de toxinas, quando tocada. Iguais aos das águas-vivas (veja este vídeo no YouTube – http://www.youtube.com/watch?v=6zJiBc_N1Zk) . É isso que causa uma sensação de “queimadura” quando tocamos esses animais. Mas os peixes-palhaços têm um muco sobre a pele que impede os nematocistos de disparar. Por isso eles podem nadar livremente por entre os tentáculos, protegidos dos predadores.

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