UMA JANELA PARA ENTENDER A BIODIVERSIDADE

UMA JANELA PARA ENTENDER A BIODIVERSIDADE

Herton Escobar

10 Novembro 2010 | 23h45

Vista do Rio Hozu, no Parque de Arashiyama, em Kyoto, Japão. (FOTO: Herton Escobar)

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Para encerrar a série de posts sobre a COP 10 de Nagoya, no Japão, gostaria de fazer uma reflexão sobre o que é, afinal, essa tal de “biodiversidade” e porque você deveria se preocupar com ela. Tanto quanto com as mudanças climáticas!

O termo “biodiversidade”, no seu sentido mais amplo, refere-se ao conjunto de todas as formas de vida do planeta. Ou de uma floresta, ou de um oceano, ou de uma lagoa, ou de um deserto … dependendo do contexto. Pode ser até o conjunto de bactérias que vivem na sua pele, na sua boca ou no seu intestino. É um coletivo de espécies que compartilham um ambiente qualquer, independentemente do tamanho. Desde um vaso de flores até um planeta inteiro.

Mas seja qual for o ambiente, pode ter certeza de uma coisa: nós fazemos parte dessa biodiversidade e dependemos dela para nossa sobrevivência (salvo raríssimas exceções, tipo a biodiversidade das planícies abissais dos oceanos ou de micróbio extremófilos que vivem nas profundezas da terra, dentro de rochas e coisas mais bizarras desse tipo). O ser humano é o predador mais feroz que já existiu sobre a Terra. E também um dos mais vulneráveis. Nós vivemos no topo da cadeia alimentar, e portanto dependemos de tudo que está abaixo de nós para sobreviver. Das plantas, dos microrganismos e dos outros animais … não só para alimentação, mas para tudo.  Tudo mesmo!

Cerca de metade do oxigênio na atmosfera é produzido por algas microscópicas fotossintéticas que vivem nos oceanos. Tudo que nós comemos é fruto da biodiversidade, da mais simples alface ao mais suculento bife. Essas plantas e esses bichos todos não caem do céu nem brotam do concreto! Elas dependem de solos férteis, cheios de microrganismos, e de chuvas, produzidas muitas vezes por florestas distantes, e de insetos polinizadores, e assim por diante … Toda a vida na Terra está conectada. Toda mesmo!

A perda de uma espécie pode parecer irrelevante para a maioria das pessoas. Especialmente para quem vive na cidade, compra comida no supermercado e não precisa tirar o sustento diretamente da terra, dos rios ou dos mares. Que diferença faz para mim em São Paulo se o mico-leão-dourado for extinto na Mata Atlântica? Ou o atum-azul nos oceanos? Ou o tigre-de-bengala nas florestas do sudeste asiático? E se as florestas do Congo forem dizimadas? Ou se os recifes de coral do Caribe deixarem de existir?

De fato, vistos isoladamente, nenhum desses fatores afeta nossa vida diretamente de maneira significativa. O problema é que eles não podem ser vistos isoladamente! Pois o mico-leão, o atum, o tigre, os recifes e as florestas não existem isoladamente. São todas peças do mesmo quebra-cabeça, partes de um mesmo todo, fios de uma mesma teia. “O que acontece lá nos afeta aqui”, como diz o Harrison Ford naquela campanha da ONG Conservação Internacional. Seja lá onde for o “lá” e onde seja o “aqui”, não importa … tudo está conectado.

Durante os 10 dias que fiquei em Nagoya cobrindo a conferência da Convenção sobre Diversidade Biológica tive a oportunidade de fazer uma entrevista com o Sr. Ford, que além de astro de Hollywood é um ativista ambiental do mais alto gabarito. E ele falou duas coisas com as quais concordo totalmente: 1) que o movimento ambientalista falhou até agora em explicar para a sociedade a importância da biodiversidade e 2) que um dos erros foi focar as campanhas de conservação apenas sobre espécies individuais, e não sobre os ecossistemas dos quais elas fazem parte. Que é o que eu estou tentando dizer aqui também…

A biodiversidade não vive nas florestas. Ela é a floresta!
A biodiversidade não vive nos recifes de coral. Ela é o recife de coral!
Nós não vivemos na natureza. Nós somos parte dela. Indissociável!

As campanhas focadas em espécie específicas, tipo “salvem o mico-leão”, “salvem o panda” ou “salvem as baleias”, têm a sua importância, claro. Essas espécies muitas vezes são usadas como “bandeiras” para atrair a atenção do público, e os esforços agregados para preservá-las acabam beneficiando muitas outras espécies por tabela, pois é impossível preservar uma única espécie isoladamente na natureza. Para preservar o mico-leão, é preciso preservar a Mata Atlântica, e, por tabela, todas as outras espécies que a compõem. Para preservar o panda é preciso preservar as florestas de bambu da China, e assim por diante.

Do ponto de vista da percepção pública, porém, a estratégia pode ter um efeito colateral perverso também, dando a impressão de que só bichinhos fofinhos, belos ou simpáticos merecem ser protegidos. Como se a conservação fosse uma questão de compaixão e não de sobrevivência. É preciso deixar claro para as pessoas que preservar uma espécie não é um benefício apenas para aquela espécie, mas para toda a biodiversidade. Ou seja: para nós!

Estamos exterminando a biodiversidade e degradando o meio ambiente do qual dependemos para sobreviver, não apenas para contemplar. Um atum a menos, um macaquinho a menos, um coral a menos não vai matar ninguém … mas vai tirando um tijolinho aqui, outro ali, e uma hora a casa vai cair.

Quando falamos de salvar a biodiversidade, não estamos falando de salvar só um macaquinho, um ursinho ou um sapinho. Coitadinho deles, tão bonitinhos. Ou mesmo só uma floresta ou uma savana. Coitadinhas delas, tão bonitas, tão exuberantes. Estamos falando de salvar a nós mesmos. Coitadinhos de nós! Biodiversidade não é luxo. É subsistência! Ou você começa a fazer fotossíntese e viver de luz, ou começa a se preocupar.

Abraços a todos.