UMA NOITE COM CARANGUEJOS

UMA NOITE COM CARANGUEJOS

Herton Escobar

30 Julho 2011 | 09h47

(NOTA: O post abaixo está relacionado a uma reportagem especial sobre a biodiversidade do Triângulo dos Corais, que será publicada neste domingo, dia 31, no Estadão. Não percam!)

Fim de tarde. Maré baixa. Recife exposto. Hora de o biólogo Robert Lasley sair para trabalhar.

Com o Sol alaranjado já quase tocando a água, ele caminha pela costa de Sanur, no sudeste de Bali, em busca de caranguejos. Uma barreira de recifes a cerca de 100 metros da praia bloqueia as ondas que vem do mar aberto, formando uma enorme piscina marinha de águas rasas que, nos períodos de maré baixa, fica quase que totalmente exposta na superfície. O substrato é uma mistura de areia com “entulho” de corais, pontuado por campos de algas e piscinas naturais recheadas de pequenos peixes, ouriços, estrelas e pepinos-do-mar.

“Esse é o meu escritório, e o balde é minha pasta”, brinca Robert, pesquisador associado ao Centro de Pesquisas sobre Biodiversidade da Indonésia (IBRC). “Não posso reclamar muito.”

Seus instrumentos básicos de trabalho são uma lanterna, um martelo e um balde cheio de tubinhos e saquinhos plásticos, que ele usa para coletar seus espécimes. A cada passo, Robert escaneia o solo em busca de caranguejos. Eu sigo atrás, a passos de tartaruga, tomando cuidado para não pisar em nada vivo (especialmente nos ouriços de espinhos longos e pontiagudos, espalhados por todos os lados como num campo minado). Também nos acompanha a pesquisadora indonésia Rita Rachmawati, que faz pós-graduação em ecologia molecular na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), mas voltou à terra natal para participar das atividades de verão do IBRC e trabalhar no seu projeto de pesquisa sobre corais.

Aqui e ali, paramos para investigar algum bloco de coral morto. Parecem pedras, mas, na verdade, são esqueletos calcários de corais que se quebraram do recife e foram arrastados na direção da praia pelas marés. Uma estrutura cheia de túneis, frestas e buraquinhos, como se fosse um queijo-suíço, que serve de abrigo para uma variedade enorme de organismos.

“O coral está morto, mas seu esqueleto está recheado de vida”, explica Robert. A cada bloco de coral que levantamos, um monte de bichos parecem sair correndo (ou nadando) em todas as direções, tipo crianças descobertas num jogo de esconde-esconde.

Os pequenos caranguejos que Robert procura, porém, não correm. Eles têm uma outra estratégia de defesa. Ou se enfiam em algum buraco próximo ou se agarram ao substrato e permanecem imóveis, contando com sua camuflagem para não serem detectados. Os olhos do pesquisador, porém, já estão treinados contra isso. Mesmo que o caranguejo não seja muito maior do que um botão. Várias vezes vejo Robert pegar algo na ponta dos dedos que parece ser uma “pedrinha” … até que a “pedrinha” estica uma perninha para cá, uma perninha para lá, e começa a se mexer. É um caranguejo. Muitos e muitos caranguejos.

A variedade de cores e formatos dos pequens crustáceos é inacreditável.

Mais incrível ainda é a capacidade de Robert de identificar a espécie (ou pelo menos o gênero, ou família) de quase todos eles. Em pouco mais de uma hora, ele coleta mais de 100 caranguejos, representando mais 50 espécies. Como parte dos esforços do IBRC, seu objetivo é coletar, identificar e registrar o maior número possível de espécies, para produzir um retrato mais preciso da biodiversidade marinha da Indonésia. Uma vez que ele tiver tempo de analisar todos os espécimes em detalhe, sob o microscópio, é provável que vários deles sejam espécies novas, nunca descritas pela ciência.

Depois de quase duas horas na escuridão, sentimos que a maré começa a subir. Hora de voltar para casa. Quanto mais funda a água, mais difícil é caminhar por ela sem pisar em nada no qual não se deveria pisar. No meio do caminho topamos com algumas moreias e duas serpentes marinhas, que fizeram o favor de passar raspando pelas minhas pernas. Confesso que fiquei surpreso e impressionado com a quantidade de vida que vi, numa praia realivamente bastante urbanizada e bastante frequentada por pescadores.

Esses caranguejinhos e Cia. podem parecer apenas uma curiosidade de cientista, mas eles são organismos essenciais aos ecossistemas recifais. Segundo o pesquisador Chris Meyer, do Instituto Smithsonian, são esses pequenos invertebrados os responsáveis por muitos dos serviços básicos de operação e manutenção dos recifes de corais. Ele faz a seguinte comparação: “Imagine que o recife de coral é uma cidade e você, o mergulhador, está olhando para ela da janela de um avião. Você vê montes de prédios e outros edifícios, e talvez alguma multidão nas ruas, mas não vê todas as pessoas que estão trabalhando dentro dos prédios, no subsolo, dirigindo caminhões e fazendo a cidade funcionar de uma forma geral.  Esses organismos são como os encanadores, garis, eletricistas, operários e seguranças dos recifes, sem os quais o ecossistema não funcionaria.”

Imagine só!

Abraços a todos.

Robert usa um martelo para investigar o que vive dentro de um bloco de coral morto.

Um dos caranguejos coletados. (esse era grande, então foi fácil fotografar)