UMA RELAXANTE TARDE DE CALOR

UMA RELAXANTE TARDE DE CALOR

Herton Escobar

04 Junho 2011 | 03h56

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Acredite se quiser, mas esses dois indivíduos da foto aí acima, com pinta de mercenário faminto e motoboy perdido, são autênticos pescadores de Bali, na Indonésia.

Esbarrei com eles ontem à tarde, numa caminhada pela praia próxima do hotel onde estou morando aqui na ilha (temporariamente), na cidade de Sanur. Com eles e mais centenas de outros com o mesmo estilo, de chapeuzinho (ou capacete) na cabeça, varinha retrátil na mão, cestinha de palha na cintura e o corpo todo coberto, da cabeça aos pés, com calça comprida, agasalho, luvas e até um eventual gorro. Tudo isso num calor de mais de 30 graus, diga-se de passagem …

Minha primeira reação foi: “Coitados desses caras!” Devem estar sofrendo como loucos para ganhar alguns trocados em troca de alguns peixinhos.

Mal sabia eu que eles não estavam sofrendo coisa nenhuma. Pelo contrário. Estavam ali puramente pelo prazer de pescar, como qualquer bom pescador.

Quem me abriou os olhos foi o companheiro Charlie, segurança de praia de um hotel de luxo ali das redondezas (que acha que a seleção brasileira está carente de atacantes, e que o tal do garoto Neymar, de cabelo moicano, parece ter futuro, mas não se compara ao grande Ronaldo Fenômeno).

Aquele montão de roupas, apesar do calor, é para se proteger do Sol, segundo Charlie. Afinal de contas, ninguém está ali para se bronzear! Melhor passar calor do que arriscar uma queimadura … E o peixe não é para vender, nem para subsistência, até porque os dali são tão pequeninos que mal rendem um petisco. É puramente pelo prazer de pescar mesmo. E só.

“Estão aqui para se refrescar”, explicou-me Charlie.

“Refrescar-se! Com um gorro de lã na cabeça debaixo do Sol quente?”,  foi minha resposta imediata, obviamente.

Na verdade, o que Charlie quis dizer com “refresh”, no seu inglês um tanto precário, estava mais para “relaxar” do que para se “refrescar”. “A pescaria exige muita concentração. Tem de focar toda a sua atenção no peixe”, explicou-me ele, de novo. O Charlie mesmo não pesca, porque diz não ter concentração suficiente para isso. Prefere futebol.

Então, todos os dias, na maré baixa, centenas de homenzinhos de chapéu e capacete migram para essa parte rasa da praia, protegida das ondas do mar aberto por uma barreira de corais, para fumar um cigarrinho, passar um calorzinho e pegar alguns peixinhos. O que poderia ser mais divertido?

Os turistas do hotel de luxo, por sua vez, mal entram na água. A praia está longe de ser um paraíso tropical. A areia é escura e a água, um tanto turva. O fundo do mar é lamacento e completamente coberto de algas. Péssimo para nadar. Ótimo para pescar. Imagine só!

Abraços a todos.

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FOTOS: Herton Escobar