Astronomia e a nova indústria

Astronomia e a nova indústria

A Astronomia e a indústria estão mais conectadas do que você imagina

Gustavo Rojas

10 Julho 2018 | 10h55

Uma das perguntas mais comuns que um astrônomo encontra é para que serve a Astronomia. É uma pergunta simples e ao mesmo tempo complexa. A Astronomia é considerada a ciência mais antiga de todas, que tenta responder algumas das questões mais fundamentais já imaginadas: se estamos sós no Universo, qual o início e o futuro do Universo, entre tantas outras. Mas, para uma parcela da população, estudar o Universo aparentemente não tem conexão nenhuma com nossa vida cotidiana, e o dinheiro investido nas pesquisas científicas é até visto como desperdício.

Uma das melhores maneiras de ilustrar o impacto que as pesquisas astronômicas tem no nosso dia a dia é mencionar a transferência de tecnologia. Ao apresentar contribuições tangíveis para a sociedade, é possível mostrar que a Astronomia é uma das ciências mais dinamicamente integradas com o progresso da humanidade.

A invenção dos detectores digitais de imagens baseados em CCDs revolucionou a astronomia e eventualmente chegou ao grande público nas câmeras digitais (Crédito: Lucent Technologies Bell Labs).

Exemplos não faltam. Desde o calendário, invenção milenar construída a partir da observação paciente dos ciclos do Sol, Lua e estrelas, até a hoje onipresente câmera digital que inunda as redes sociais de selfies. Contribuições que tiveram início num observatório ou laboratório astronômico incluem técnicas de processamento de imagens utilizadas em exames médicos, cromatógrafos de gás usados em aeroportos para detecção de drogas e explosivos, e a transmissão de dados por redes sem fio. Este interessante artigo elenca uma série de inovações oriundas das pesquisas de astronomia que eventualmente chegaram ao nosso dia-a-dia.

O que me motivou a escrever essa coluna foi a participação de uma cientista brasileira num importante evento realizado em São Paulo na semana passada, falando justamente sobre esse tema. O evento Brasil em Código, promovido pela Associação Brasileira de Automação-GS1 Brasil, reuniu centenas de executivos das principais empresas do país e especialistas em tecnologia para debater a influência na sociedade provocada pela transformação digital e o grande volume de dados gerados diariamente, naquilo que tem sido chamado de Quarta Revolução Industrial ou Indústria 4.0.

Duília de Mello no palco do evento Brasil em Código. (Crédito: Divulgação/GS1)

Uma das principais atrações do evento foi a astrofísica brasileira Duília de Mello. Radicada no exterior há 21 anos, Duília trabalha com o telescópio espacial Hubble da NASA e atualmente é vice-reitora da Catholic University of America em Washington, D.C., EUA. Duília conversou rapidamente comigo sobre a aparentemente inusitada participação de uma astrofísica num evento empresarial.

Você é uma cientista com sólida trajetória acadêmica. Como se sente ao ser convidada para participar de um evento voltado ao público empresarial?

DUÍLIA – O público empresarial é bem diferente do público que os cientistas estão acostumadas a falar, o que torna muito importante essa experiência. Precisamos comunicar aos empresários a importância dos investimentos em ciência, os grandes resultados que a ciência traz e os benefícios que são gerados por essas descobertas. Fiquei orgulhosa de ser convidada e poder explicar a tecnologia que utilizamos nas pesquisas de astronomia e que acabam beneficiando a sociedade como um todo.

Grandes projetos científicos como os de Astronomia observacional envolvem aquisição e interpretação de quantidades colossais de informação, o “Big Data”. Como os astrônomos podem ajudar a indústria a lidar com o grande volume de dados gerado diariamente na sociedade?

DUÍLIA – A Astronomia já tem trabalhado com Big Data há algum tempo, e estamos nos preparando para lidar com uma quantidade ainda maior de dados. Além de trabalhar com a migração de dados há mais de uma década, os astrônomos têm empregado cada vez mais a Inteligência Artificial em suas pesquisas. Acredito que a crescente importância do Big Data na indústria pode favorecer um maior diálogo com os cientistas. Temos muita experiência nessa área.

A astrofísica brasileira Duília de Mello (Crédito: Divulgação/GS1)

Na sua opinião, as universidades brasileiras conseguem preparar seus estudantes para trabalhar na indústria 4.0? O que podemos melhorar?

DUÍLIA – Temos boas universidades no país que travam contato intenso com a indústria e preparam seus estudantes para a indústria 4.0, mas acho que isso ainda é apenas o começo. Os jovens de hoje estão por dentro das novas tecnologias, que chega até eles não só pela universidade mas também pelas informações que obtém da Internet. A modernização do ensino para se adaptar à nova indústria é uma tendência mundial, e o que tenho visto no Brasil acompanha o que acontece em outros países do mundo. Mas devemos melhorar sempre. É preciso investir mais em inovação, que é algo que nasce na Universidade e somente depois chega à indústria.


 

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