Cometa no céu

Cometa no céu

Aproveite o fim de semana para tentar observar o cometa C/2020 F3 (NEOWISE)

Gustavo Rojas

23 de julho de 2020 | 20h00

Cometas são objetos intrigantes desde a antiguidade. Suas aparições inesperadas eram frequentemente interpretadas como mau agouro, presságio de guerra, fome, doença, e outras tragédias. A partir do séc. XVII, com o surgimento do método científico moderno, a natureza cósmica dos cometas passou a ser melhor compreendida. Ainda hoje, esses notáveis viajantes interplanetários guardam muitos segredos, e continuam a encantar-nos com sua beleza.

A aparição do cometa Halley em 1066, registrada nessa tapeçaria, foi interpretada como prenúncio da guerra entre ingleses e franco-normandos. Crédito da imagem: Wikimedia Commons.

Os astrônomos usam o termo “Grande Cometa” para indicar os cometas que atingem um brilho excepcional, permitindo ser observados a olho nu. Este tipo de acontecimento não é muito frequente, ocorrendo aproximadamente uma vez a cada década.

Os cometas C/2006 P1 (McNaught) (acima) e C/2011 W3 (Lovejoy) (abaixo) foram os mais brilhantes do século até agora. Crédito das imagens: S. Deiries/ESO e G. Rojas.

Neste século, já tivemos alguns cometas de brilho notável, como o C/2006 P1 (McNaught) em 2007, e o C/2011 W3 (Lovejoy) em 2011. O mais novo integrante desta seleta lista é o C/2020 F3 (NEOWISE), que na segunda quinzena de Julho atingiu grande brilho e passou a enfeitar os céus do hemisfério norte.

Não demorou muito para que imagens fantásticas do cometa (vamos chamá-lo só de NEOWISE a partir de agora) passassem a circular na Internet. Mas o NEOWISE estava acessível somente aos observadores ao norte da linha do equador, criando uma grande expectativa nos países ao sul.

Cometa C/2020 F3 (NEOWISE) sobre a Serra da Estrela, Portugal, em 7/7/2020. Crédito da imagem: M. Marques.

Agora, finalmente o NEOWISE encontra-se posicionado de maneira favorável para os brasileiros. O que todos querem saber é: será que o cometa vai dar show por aqui também?

Para a provável decepção dos mais entusiasmados, a passagem do NEOWISE pelo céu austral não deve ser muito memorável. Isso porque o cometa já está se afastando do Sol, ficando menos brilhante a cada noite que passa, tornando a tarefa de localizar o cometa no céu mais difícil para um observador casual. Por outro lado, esse desafio faz a conquista de conseguir observá-lo mais recompensadora.

        Cometa NEOWISE fotografado em Caucaia/CE em 22/7/2020. Crédito da imagem: P. R. da Rocha.

Com alguma preparação, você terá boas chances de observar esse visitante gelado antes que ele retorne para a periferia do Sistema Solar. Será uma longa espera até sua próxima passagem, que deve acontecer só daqui a 6 mil anos. Vamos conferir então as principais dicas de observação do C/2020 F3 (NEOWISE).

Não perca a hora

O cometa fica acima do horizonte somente no comecinho da noite. A melhor hora para observar é após o pôr-do-Sol, mas espere até quando o céu já estiver escuro o suficiente para enxergar pelo menos as estrelas mais brilhantes. O horário exato depende da sua longitude; em geral é por volta das 18h30. Não espere ver o cometa após as 21h este mês.

A melhor hora para observar é o início da noite, quando o céu começa a ficar mais escuro. Crédito da imagem: M. Thravalos.

Olhe para o lado certo

O cometa está posicionado próximo ao horizonte noroeste, na região do céu ocupada pelas constelações da Ursa Maior e Cabeleira da Berenice. Não há nenhuma estrela brilhante nessa região, mas você pode encontrar a direção aproximada imaginando o ponto médio entre as estrelas Spica e Arcturus, e traçando uma linha reta descendo até o horizonte.

                  Use as estrelas Spica e Arcturus para encontrar o cometa. Crédito da imagem: G. Rojas.

Outro aspecto importante é que a posição do cometa muda um pouco de uma noite para a outra. Para se orientar, use um aplicativo de astronomia como os excelentes Stellarium (para computadores) ou Star Walk (para celulares), ou consulte os mapas celestes preparados para várias regiões do Brasil pela equipe do site Céu Profundo.

Posição do cometa durante a última semana de julho para a latitude 25º Sul. Crédito da imagem: Wandeclayt M./N. Palivanas (Projeto Céu Profundo).

Horizonte e céu limpos

Como já mencionado, o cometa estará sempre baixo no céu, próximo ao horizonte. Portanto, é essencial ter uma vista desimpedida na direção noroeste. A presença de prédios, morros, e até mesmo árvores poderá atrapalhar a visualização. A observação também poderá ser prejudicada se o tempo estiver fechado, ou com nuvens espessas no horizonte. É preciso mesmo um céu de brigadeiro.

                                Cometa C/2020 F3 NEOWISE fotografado no Irã. Crédito da imagem: A. Ahmadbehi.

Fuja das luzes

A iluminação artificial dos centros urbanos é um dos seus maiores inimigos. O cometa já é um objeto fraco por si só, e torna-se invisível se ofuscado pelo clarão das cidades. Para ter qualquer chance de observá-lo a olho nu, você terá que se deslocar para uma localidade afastada, sem luzes artificiais. Se isso não for possível, será essencial usar um instrumento.

           O cometa C/2020 F3 NEOWISE e a constelação da Ursa Maior. Crédito da imagem: P. Horálek.

Use Binóculos

Mesmo em um local de céu escuro, o cometa aparecerá bastante fraco no céu. Provavelmente você terá um pouco de dificuldade para encontrá-lo na primeira tentativa. Por isso, um par de binóculos será seu melhor amigo. Até o menor exemplar desse tipo de instrumento aumenta muito a sensibilidade da visão. Use-os para vasculhar a área indicada no mapa celeste. Recomendo ajustar o foco dos binóculos antes de começar a caça ao cometa. Mire numa estrela brilhante, ou até mesmo na Lua.

Cometa C/2020 F3 (NEOWISE) sobre o monumento de Stonehenge, Reino Unido. Crédito da imagem: D. Duval.

Cuidado com os alertas falsos

Como muita gente nunca viu um cometa na vida, é de se esperar que aconteçam alguns enganos. Um dos mais comuns é confundir o cometa com os rastros deixados por aviões. Os gases liberados pelos motores das aeronaves condensam-se na fria temperatura da alta atmosfera, dando origem a nuvens estreitas e compridas. Em particular, quando iluminadas ao nascer ou pôr do Sol, essas nuvens podem assumir uma aparência sugestiva.

Observadores incautos podem confundir um rastro de avião com o cometa. Crédito da imagem: Wikimedia Commons.

Outra confusão comum é pensar que um cometa se move pelo céu. O único movimento perceptível durante a noite é o movimento causado pela rotação da Terra, que faz os astros lentamente moverem-se de leste para oeste.

Movimento aparente do cometa causado pela rotação terrestre. Crédito da imagem: M. Claro.

Contenha as expectativas

A aparência do cometa nas fotografias é espetacular, mas pode criar uma falsa expectativa. As câmeras fotográficas modernas são centenas de vezes mais sensíveis que nossos olhos, e são capazes de registrar a luz dos astros por muitos minutos. As imagens capturadas ainda são posteriormente melhoradas no computador.

Detalhes e cores do cometa só são visíveis em fotografias de longa exposição, como esta feita na China. Crédito da imagem: Z. Lin (Beijing Normal Univ.).

O olho humano, por mais fantástico que seja, é capaz de perceber apenas uma aparência difusa e sem cor dos objetos celestes, mesmo com uso de binóculos ou telescópios. Portanto, não espere um show de luzes.

A recompensa é que a observação direta do cometa traz uma sensação de conexão sem intermediários com um vizinho cósmico a dezenas de milhões de quilômetros daqui, que só retornará daqui a milênios. Para mim, esse pensamento supera tudo. Boa sorte, boas observações, e céus limpos!

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