Não compre um telescópio!

Não compre um telescópio!

Você não precisa gastar nada para observar o céu

Gustavo Rojas

21 Novembro 2016 | 23h50

“Olá Gustavo. Estou iniciando em Astronomia e gostaria de saber qual modelo de telescópio devo comprar”.

Já perdi a conta de quantos e-mails e mensagens como essa recebi. Por algum motivo, muitas pessoas pensam que é necessário um telescópio para se iniciar no fascinante universo da Astronomia. A minha resposta, que quase sempre surpreende o interlocutor, costuma ser:

“Olá, se você está perguntando isso, então ainda não é o momento de comprar um telescópio”.

Um dos grandes baratos da Astronomia é que ela é acessível a todos.  Olhar para o céu não custa nada, e o ser humano já vem equipado de fábrica com um instrumento ótico fantástico: nossos olhos.

Todo interessado em Astronomia deve começar sua exploração do cosmos observando a olho nu, reconhecendo os padrões e ritmos dos astros.  A situação melhora consideravelmente se conseguirmos nos afastar um pouco das bolhas luminosas das grandes cidades.

Você não prevcisa

Inúmeras maravilhas celestes podem ser apreciadas a olho nu (crédito: ESO/B. Tafreshi – twanight.org)

A quantidade de fenômenos celestes que podem ser apreciados sem auxílio de equipamentos é imensa, e mais que suficiente para saciar o apetite astronômico por muito tempo. É tanta coisa que terei que distribuir os assuntos em várias colunas. Espero que você, caro leitor, aprecie!

Irmão Sol, Irmã Lua

Vamos começar com os dois astros cuja presença se faz mais óbvia, o Sol e a Lua.  Eles protagonizam um dos espetáculos naturais mais impressionantes que podemos presenciar: os eclipses.

Eclipses ocorrem quando temos um alinhamento entre a Terra, a Lua e o Sol  – as famosas sizígias que foram assunto na coluna da semana passada. Quase todos os anos experimentamos 2 eclipses solares e 2 lunares.

Eclipse solar de 11/8/1999, na França (crédito: Luc Viatour / www.Lucnix.be).

Eclipse solar de 11/8/1999, na França (crédito: Luc Viatour / www.Lucnix.be).

Eclipses solares totais são visíveis apenas em uma estreita faixa na superfície terrestre, por onde passa a sombra da Lua durante a sizígia. Ao redor dessa faixa, podemos observar apenas parte da Lua encobrindo o Sol, num eclipse parcial.

Brasil em baixa

Ultimamente a sombra lunar não tem dado muita bola para os brasileiros. A última vez em que fomos agraciados com um eclipse solar total foi em novembro de 1994. A espera será longa – a próxima totalidade só será visível do Brasil em agosto de 2046.

Até lá, temos que nos contentar com os eclipses parciais. Felizmente, 2017 trará duas oportunidades imperdíveis: em 26 de fevereiro e 21 de agosto.

Eclipse solar parcial visto de São Paulo em 22/9/2006 (crédito: H. da Rocha).

Eclipse solar parcial visto de São Paulo em 22/9/2006 (crédito: H. da Rocha).

O eclipse de fevereiro cai num sábado de Carnaval e será o mais interessante. Poderá ser observado das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e quase toda a região Nordeste. Os sulistas terão as melhores condições, podendo ver mais da metade do disco solar oculto pela Lua. O eclipse total (na verdade um eclipse anular) será visível no sul do Chile e da Argentina, e também na África.

Já o eclipse de agosto vai privilegiar os habitantes das regiões Norte, Nordeste, e parte da Centro-Oeste. Não será tão impressionante quanto o de fevereiro. A totalidade será longe daqui, atravessando os Estados Unidos de costa a costa.

Proteção sempre!

A observação dos eclipses solares requer alguns cuidados. Não se deve em hipótese alguma olhar diretamente para o Sol, nem improvisar com negativos fotográficos ou vidro esfumaçado.

Quem quiser olhar diretamente para o Sol deve utilizar um filtro astronômico que bloqueia quase toda a luz solar. Esse filtro, um tipo especial de polímero ou vidro metalizado, é difícil de ser adquirido no Brasil, mas facilmente encontrado em lojas de equipamentos astronômicos estrangeiras.

Um pequeno pedaço de vidro de soldador n. 14 proporciona proteção adequada para observação solar.

Um pedaço de vidro de soldador n. 14 já é adequado para observação solar (crédito: S. Viinamäki).

Uma solução mais acessível é utilizar um vidro de máscara de solda. Tonalidades acima de 13 atenuam suficientemente a luz do Sol e permitem uma observação segura. Voltarei a falar sobre observação de eclipses quando estivermos mais próximos desses eventos.

Na sombra terrestre

Os eclipses lunares são muito mais fáceis de observar. A passagem da Lua na ampla sombra projetada pela Terra durante as sizígias pode ser acompanhada de qualquer local em que a Lua está visível durante o alinhamento. E ao contrário dos eclipses solares, os lunares não exigem proteção para os olhos.

É bem provável que você já tenha observado um eclipse lunar. Ainda no ano passado, tivemos um eclipse lunar total observado no Brasil. Não teremos que esperar muito tempo para ver novamente a Lua eclipsada. As próximas oportunidades acontecerão em 27 de Julho de 2018 e 21 de Janeiro de 2019.

Eclipse lunar de 15/6/2011, visto de São Carlos/SP (crédito: A. Torigoe e G. Rojas).

Eclipse lunar de 15/6/2011, visto de São Carlos/SP. Crédito: A. Torigoe e G. Rojas

Os eclipses são os fenômenos celestes mais espetaculares envolvendo o Sol e a Lua, mas não são os únicos acontecimentos notáveis envolvendo esses astros que podemos acompanhar. No próximo post falarei sobre isso.

Para o resto da semana …

Já está disponível o novo episódio do videocast Céu da Semana, uma produção do Laboratório Aberto de Interatividade da UFSCar em parceria com a Univesp TV.

Nesta semana o assunto do programa é Regulus, a estrela mais brilhante da constelação de Leão, e uma das quatro estrelas reais dos antigos persas. Mal sabiam os antigos habitantes do Irã que essa estrela tão venerada é na verdade um sistema múltiplo bastante peculiar.

Confira esta pílula de conhecimento, e de quebra fique sabendo quais planetas você pode ver a olho nu nesta semana. Até o próximo post e céus limpos a todos!

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