Spaceflight Industries via The New York Times
Spaceflight Industries via The New York Times

A ameaça da reentrada de lixo espacial

Com áreas mais povoadas e aumento de voos, engenheiros estão trabalhando duro para evitar mortes

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2019 | 17h26

Diariamente, uma ou duas toneladas de satélites mortos, pedaços de foguetes e outros tipos de lixo fabricado pelo homem que estão em órbita são despejadas na atmosfera. Quatro quintos desse lixo queimam e se transformam em poeira inofensiva, mas ainda sobra um bom número de fragmentos grandes o bastante para serem letais. Como grande pedaço da superfície da Terra é constituída por mar e a parte remanescente continua escassamente povoada, as únicas vítimas registradas dessa chuva de granizo artificial são cinco marinheiros a bordo de um navio japonês, que foram feridos em 1969, e uma mulher em Oklahoma, atingida por um pedaço de foguete em 1997. Mas também é uma prova de sorte – e as probabilidades de que essa sorte vai ser mantida estão diminuindo.

Com o crescimento da população, a fração da superfície da Terra que os detritos do espaço podem atingir sem causar danos está encolhendo. Ao mesmo tempo, mais naves espaciais vêm sendo colocadas em órbita (111 lançamentos bem-sucedidos em 2018, comparados com os 66 uma década antes, e muitos transportando múltiplas cargas explosivas). E as cargas são cada vez mais projetadas para que o equipamento que já cumpriu seu objetivo se descole da órbita anos ou décadas mais cedo do que deveria, para não colidirem com algum espaçonave em atividade.

Por isso, mais atenção vem sendo dada à eliminação segura de satélites ou outro tipo de lixo espacial. As agências espaciais e empresas privadas querem destinar os detritos para locais menos perigosos e reduzir também o número de fragmentos que sobreviverão a uma reentrada na atmosfera terrestre, colocando em risco pessoas e propriedades.

Uma gota no oceano

Uma solução testada e comprovada é mergulhar uma nave que reentra na atmosfera numa zona conhecida como Área Desabitada do Oceano Pacífico Sul. Trata-se de uma região marítima entre o Chile e a Nova Zelândia, livre de ilhas, com pouca navegação e sobrevoos. Tais reentradas controladas não são cientificamente precisas. Quaisquer navios e aviões que se dirigem para áreas vizinhas naquele momento serão aconselhados a se manterem afastados da região potencial de impacto que pode exceder 10 mil quilômetros quadrados – o tamanho aproximado do Líbano.

Bom trabalho, você pensaria. Mas só algumas reentradas controladas são realizadas a cada ano, por causa do custo. Se uma nave espacial deve ser colocada numa trajetória vertical mirando um alvo, será preciso duas ou três vezes mais combustível para ajustes orbitais padrão. E também serão exigidos propulsores maiores. Esse combustível e os propulsores são acrescentados ao peso de uma missão e, portanto, seu lançamento envolverá mais gastos. Controladores de campo também serão necessários para supervisionar a reentrada na atmosfera. Encerrar uma missão com uma reentrada controlada deve aumentar o custo em mais de US$ 22 milhões.

Uma alternativa mais barata é a reentrada semicontrolada. Em vez de um mergulho num alvo preestabelecido, um satélite desce gradativamente ao entrar na atmosfera usando ou o restante de combustível do propulsor ou um equipamento especialmente desenhado para isso. Ele intercepta as moléculas de ar que vazaram para o espaço, desacelerando o satélite ao qual está ligado e reduz a altitude da nave até ela atingir o ponto em que a resistência à própria fuselagem a puxa para a atmosfera.

A questão é que a zona de risco associada é muito maior do que uma reentrada na atmosfera adequadamente controlada. Ainda é possível fazer com que essa zona tenha muito oceano e poucas cidades grandes. Mas não há certeza de que ninguém será vitimado na Área Desabitada do Oceano Pacífico Sul. Além disso, embora seja mais econômica do que a entrada totalmente controlada, a semicontrolada não é gratuita.

A análise da capacidade de sobrevivência em uma reentrada é feita usando software que reúne dados sobre tamanho, forma, configuração, composição e espessura dos componentes de um satélite. Ela fornece uma estimativa do número, peso, porte e forma – e a capacidade potencial de provocar danos – de peças que a fricção atmosférica não reduzirá a poeira. A probabilidade de vítimas pode assim ser calculada à luz da densidade populacional sob a órbita do engenho espacial.

Sem discussão

Algo que ninguém parece estar discutindo é qual seria na verdade o nível de segurança apropriado para as reentradas de um satélite. A razão original para adotar o nível de um para cada 10 mil como risco aceitável se perdeu nas brumas do tempo. Para cada indivíduo numa população de 7,5 bilhões na Terra, isso se traduz em uma chance de ser vitimado em 75 trilhões em cada reentrada – uma cifra minúscula, mesmo em num mundo onde essas reentradas chegam a centenas por ano. Por outro lado, qualquer morte advinda do espaço sideral desta maneira seria péssima e resultaria em apelos para serem impostas regras ainda mais rígidas. Até agora as atividades com satélites têm se mostrado bastante confiáveis. E o desejo é de manter as coisas desta maneira. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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