Daniel Teixeira
Daniel Teixeira

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2017 | 18h42

SÃO PAULO - Começam a ganhar espaço no Brasil projetos de estudos que envolvem o conceito de "ciência do cidadão", isto é, que contam com a participação de pessoas comuns e pesquisadores amadores para produzir conhecimento científico de verdade.

Em áreas de pesquisa como biodiversidade e mudanças climáticas, algumas instituições já começam a perceber que podem se beneficiar da participação popular - seja para mapear espécies de animais em regiões extensas, ou para coletar dados meteorológicos em tempo real em múltiplos locais, por exemplo. Mas é no campo da astronomia que atuam por enquanto a maior parte dos cidadãos cientistas.

Um caso exemplar de cidadão cientista é do astrônomo amador Tasso Napoleão, de 66 anos. "Sou engenheiro de formação, trabalhei a vida toda nessa área e já me aposentei, mas me interesso pelos cosmos desde os 6 anos de idade e adquiri meu primeiro telescópio aos 10", contou Tasso ao Estado.

Ao longo dos anos, ele frequentou cursos de extensão do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, estreitou o contato com astrônomos profissionais e criou clubes de ciência amadora. Hoje, ele coordena um grupo de observadores que colabora diretamente com o IAG, onde também coordena um curso voltado para astrônomos amadores.

"Nosso grupo trabalha há seis anos com a busca de supernovas. Há 17 desses objetos astronômicos descobertos por brasileiros e o nosso grupo foi responsável por 15 delas", disse.

Segundo ele, há uma grande sinergia entre amadores e profissionais. "Os cientistas têm telescópios muito mais potentes à disposição, mas o tempo de uso é muito restrito e caro. Os amadores têm redes espalhadas em todo o globo e todo o tempo que quiserem - podemos varrer 700 galáxias por noite. Por isso há complementaridade"

Há grupos que se dedicam a outras especificidades da astronomia, como o Sonear, coordenado pelos astrônomos amadores Cristóvao Jacques, João Ribeiro e Eduardo Pimentel, que mapeia asteroides próximos à Terra.

"Investimos nisso porque o Hemisfério Sul é muito pouco vigiado e há muitas lacunas no conhecimento. Já descobrimos 25 asteroides e cinco cometas", disse Jacques. Os dados são sempre enviados à União Astronômica Internacional, que confirma as descobertas. Os artigos científicos que são publicados dão crédito aos astrônomos amadores, que podem batizar o novo asteroide ou cometa.

“Temos acesso às regiões que são vasculhadas pelos telescópios profissionais e procuramos observar justamente as lacunas deixadas por eles”, afirmou Jacques, que mora em Belo Horizonte e de lá controla remotamente seu observatório, montado na cidade de Oliveira, no interior mineiro - onde a menor luminosidade urbana e a poluição permitem observações melhores. .

Agricultura e desastres. A ciência do cidadão não se restringe, porém, à astronomia. A colaboração das pessoas comuns também poderá ajudar a evitar que eventos extremos, causados pelas mudanças climáticas, causem prejuízos a agricultores do semiárido. Esse é o objetivo do projeto Agrisupport, criado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do governo Federal.

De acordo com Ana Paula Cunha, uma das pesquisadoras do Cemaden que coordenam o programa, os agricultores inserem, em um aplicativo no celular, dados relacionados às suas técnicas de manejo, datas de plantio, monitoramento da produção ou previsão de colapso da safra.

"O aplicativo não é nada mais que um coletor de dados, que serão, depois de integrados e cruzados com as informações climatológicas de que dispomos, utilizados para nos ajudar a modelar prognósticos de produtividade agrícola relacionados às condições hidrologicas, incluindo as previsões de inundações e secas", explicou Ana Paula.

Na primeira fase, a plataforma foi calibrada em dois projetos-piloto, no norte de Minas Gerais e no nordeste do Pará. "A ideia era testar se o aplicativo é simples o suficiente para o agricultor. Constatamos que funciona perfeitamente e agora vamos à segunda fase do projeto, que é de coleta sistematizada das informações. No póximo calendário agrícola, teremos pelo menos 500 pontos com dados coletados - praticamente toda a zona rural do semirárido no Brasil", afirmou.

Animais e carbono. Um dos principais projetos de ciência do cidadão planejados no Brasil é uma parceria entre instituições brasileiras e americanas para coletar dados sobre animais, plantas e solos no estado de Roraima. Liderado no Brasil por Pedro Galetti Jr, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e nos Estados Unidos pelo biólogo português José Fragoso, da Universidade de Stanford, o projeto tem o objetivo de engajar moradores locais para obter uma imensa séries de dados e avaliar a influência da fauna e da flora nos estoques de carbono da região - uma questão crucial também para as ciências do clima.

"É fundamental contar com as pessoas que moram em áras rurais e já estão envolvidos no dia a dia com o meio ambiente. Os voluntários serão treinados por uma semana em campo e ficarão responsáveis por coletar informações sem o acompanhamento dos cientistas", explicou Fragoso, que coordenou um projeto semelhante na Guiana, em uma região do tamanho da Costa Rica. "Em uma área tão grande, um projeto desses seria inviável sem participação dos cidadão", disse.

Em Roraima, a população local registrará os animais que são caçados, coletará espécies da fauna e amostras de solo, e fará medidas de tamanho das árvores para calcular sua biomassa e determinar a quantidade de carbono. O projeto, que ainda precisa ser aprovado pela Fapesp, contará com cerca de 15 pesquisadores e um grupo de 50 cidadãos cientistas.

"Os dados serão anotados em um smartphone com um aplicativo que identifica e contabiliza plantas e fauna. Vamos saber quantos animais estão na floresta em diferentes períodos e se há sustentabilidade para caça na região, por exemplo. Esperamos também encontrar muitas espécies novas", explicou Fragoso.

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Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2017 | 18h39

SÃO PAULO - Se para a ciência a participação dos cidadãos é cada vez mais fundamental - e mais viável, graças à internet e aos recursos digitais -, para os cidadãos a experiência de participar de um projeto científico real é considerada extremamente gratificante e apaixonante.

Colaborador frequente da plataforma de E-Bird, que reúne registros de cidadãos cientistas sobre a abundância e distribuição de aves em todo o planeta, o músico Francisco Falcon registra aves desde 2009. "É muito emocionante saber que acabamos contribuindo para o conhecimento, com informações que até então a ciência não tinha", disse Falcon. Os dados da plataforma são utilizados por cientistas de todo o mundo.

Contrabaixista profissional em Niterói (RJ), Falcon começou a se interessar por aves na infância, mas nos últimos anos passou a fotografá-las e a entrar em contato com ornitólogos e grupos de observação de pássaros.

"Aí comecei a perceber que há muito mais aves do que imaginamos. Comecei a observar principalmente na minha casa, na área verde que tenho no quintal. Só ali já registrei 64 espécies diferentes. No ano passado, em Búzios, descobri uma ave migratória que até agora não havia sido registrada no estado do Rio", contou.

Para estimular a formação de novos cientistas cidadãos como Falcon, a Ong SAVE-Brasil criou o projeto Cidadão Cientista. Segundo a coordenadora do projeto, Karlla Barbosa, a iniciativa se baseia em convocar grupos de interessados para jornadas de 24 horas de observação em parques e unidades de conservação. Os dados também são enviados à plataforma E-Bird.

"Esse tipo de projeto é importante não penas porque contribui com a ciência, fornecendo dados para monitoramento e pesquisas, mas principalmente porque envolve o participante, que percebe a importância da conservação", explicou Karlla.

Depois da jornada de observação, os participantes são orientados a registrar as espécies com todos os dados, incluindo fotos e sons. Um grupo de monitores, ornitólogos profissionais, faz a verificação dos dados. "Cada encontro tem a participação de cerca de 50 pessoas, que ficam fascinadas com a atividade. Um dia não precisarão mais da nossa presença, vão monitorar as aves espontaneamente, disse Karlla.

Atropelamento de animais. Outro projeto de ciência cidadã que tem grande interesse dos participantes é a Plataforma Urubu, que mapeia atropelamentos de animais nas estradas brasileiras. Segundo o coordenador da plataforma, Alex Bager, do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, na Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais),

Há três anos, os usuários, que já chegam a 20 mil, usam o aplicativo do projeto para registrar animais mortos em  1,7 milhão de quilômetros de estradas existentes no Brasil. "Acreditamos que hoje a Plataforma Urubu é a maior rede de ciência cidadã da América Latina. Os usuários enviam as fotos e nós temos 800 pesquisadores que ajudam a identificá-las. Já temos cerca de 25 mil registros", disse Bager.

Segundo ele, um dos grandes problemas de ciência cidadã é a qualificação dos dados. "Nós resvolvemos isso no nosso sistema, onde cada foto é avaliada no pelo menos cinco especialistas diferentes.

Número astronômico. Trabalhando com ecologia de estradas há mais de 20 anos, em 2012 Bager fez uma análise para estimar a quantidade de animais atropelados anualmente. Ele chegou ao número astronômico de 475 milhões de vertebrados selvagens mortos a cada ano nas estradas.

"Não seria possível monitorar tanta estrada - e tantos atropelamentos - apenas com cientistas. Era preciso criar uma ferramenta que usasse a contribuição da população. Quando os dados são integrados no nosso mapa, é possível identificar quais são os locais onde há alta mortalidade de determinada espécie. Isso é depois usado pelos gestores públicos para planejar passagens, túneis ou passarelas nos locais críticos."

Segundo Bager, não é possível sabe quantos animais o sistema já salvou. "Nós atuamos em em políticas públicas, o que desencadeia um processo em cascata cujo alcance é difícil de medir. Mas já atuamos com mais de 20 Unidades de Conservação. Agora estamos renovando o preojto e já há mais de 200 unidades interessadas em adotar o protocolo que usamos e em adotar o Sistema Urubu como ferramenta de planejamento", afirmou.

Uma das usuárias mais assíduas da plataforma é Elaine Marin, de 42 anos, que se dedica a competições de moutain bike em São José do Rio Pardo, no interior paulista.

"Pedalo muito pelas estradas, entre as cidades da região, e frequentemente encontro animais atropelados. Meu filho é biólogo e me mostrou a Plataforma Urubu.Quando acesso o aplicativo, mesmo sem internet, ele liga o GPS automaticamente. Quando chego em casa, envio a foto ao sistema e ele já registra o local exato. Para mim é uma coisa muito gratificante poder ajudar. Tenho muito orgulho", disse Elaine.

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Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2017 | 20h11

Entre as mais de 800 chuvas de meteoros catalogadas pela União Astronômica Internacional, nenhuma havia sido descoberta por brasileiros. Isso mudou no último dia 20 de março, quando a organização registrou oficialmente em sua lista dois desses fenômenos, descobertos por astrônomos amadores brasileiros, e que jamais haviam sido observados por cientistas profissionais.

Uma chuva de meteoros ocorre quando, ao orbitar em torno do Sol, a Terra atravessa uma região onde há concentração de poeira e partículas. Ao entrar na atmosfera, as partículas se incendeiam, formando rastros luminosos no céu - as chamadas "estrelas cadentes".

Batizadas de Epsilon Gruids e August Caelids, localizadas nas constelações do Grou e do Cinzel, respectivamente, as duas novas chuvas de meteoros foram descobertas por membros da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (Bramon), depois de três anos de trabalho, que incluiu a análise de mais de 86 mil registros do céu.

Pode-se dizer que o crescimento da Bramon foi mesmo "meteórico". De acordo com um de seus fundadores, o analista de dados Carlos Augusto Di Pietro, a rede criada em 2014 já conta atualmente com 54 membros, que operam 82 estações de monitoramento espalhadas em 19 Estados brasileiros. Eles já registraram 4205 órbitas de asteroides e agora comemoram uma importante descoberta de impacto internacional. 

"A Bramon foi a rede de observadores de meteoros que mais cresceu no mundo em um período muito curto - já é uma das maiores e uma das únicas do Hemisfério Sul. Temos membros de todas as idades, desde o Maranhão até o Rio Grande do Sul. Podemos dizer que a rede também é um experimento social", disse Di Pietro ao Estado.

Segundo Di Pietro, a pulverização da rede em todo o território do País é importante para a observação dos meteoros sob grande número de pontos de vista. Quando os meteoros são observados de vários ângulos, os astrônomos podem determinar a órbita que ele possuía antes de encontrar a Terra pelo caminho. 

"Também é importante termos muita gente espalhada em todos os lugares por causa das condições meteorológicas. Se o céu estiver encoberto em um determinado lugar, temos os registros obtidos em outras partes do País.

De acordo com Di Pietro, vários esforços para montar uma rede de observação de asteroides foram feitos no passado, mas nunca foram adiante porque o preço dos equipamento era proibitivo.

 

"Não trabalhamos com observação visual e sim com videomonitoramento. Isso nos permite obter dados válidos e úteis para esse tipo de pesquisa. A partir de 2014 conseguimos encontrar equipamentos no mercado nacional, o que reduziu o custo de montagem de uma estação pela metade - cerca de R$ 1 mil. Hoje, já conseguimos montar uma estação com cerca de R$ 250."

Equipamento adaptado. Nas estações, o principal equipamento utilizado consiste em câmeras de alta sensibilidade luminosa, que são ligadas por um sistema de cabos a um computador. Um software grava as imagens cada vez que um meteoro passa diante da câmera, que em geral fica fixa em um ponto do céu previamente escolhido.

"Normalmente utilizamos câmeras de monitoramento de banco usadas. Os bancos costumam colocá-las à venda quando adquirem equipamentos mais modernos. Conseguimos comprá-las pela internet por cerca de 90 reais", conta Di Pietro.

As câmeras fazem a captura das imagens durante toda a noite. "Quando amanhece temos as imagens de uns 15 a 20 meteoros, mesmo sob o céu iluminado e poluído de São Paulo", conta. "Depois fazemos a análise dessas capturas remotamente - no trabalho, na hora do almoço e nas horas livres. Em épocas de chuvas de meteoros, chegamos a capturar 100 meteoros por câmera."

Di Pietro conta que a astronomia é uma paixão de infância - algo que parece ser uma característica comum entre profissionais e amadores. "Meu interesse começou, como o de toda uma geração, com a série Cosmos, de Carl Sagan. Quando tinha uns 16 anos, aprendi a ler inglês e francês, como autodidata, para poder ler os livros científicos. Foi ali o meu primeiro contato com os meteoros", disse.

Segundo ele, a Bramon está desenvolvendo um projeto para a inserção das estações de observação em escolas. "É uma ferramenta pedagógica de baixo custo e alto impacto educacional, promovendo a participação e dando ao aluno a percepção de que ele já pode fazer ciência", contou.

Participação juvenil. Um dos membros mais jovens da Bramon, Gabriel Zaparolli, de 16 anos, já é o coordenador da área de eventos atmosféricos transitórios da rede. Estudante do primeiro ano do ensino médio e morador de Torres, no Rio Grande do Sul, diz ter se apaixonado à primeira vista pela observação do céu.

"Em 2014 conheci a Bramon um pouco por acaso, via todos aqueles registros e queria muito ter uma estação para participar. Só que eu não podia comprar", contou Gabriel.

Algum tempo depois, seu amigo Carlos Fernando Jung, de Taquara (RS), deu a ele de presente uma estação completa. "No dia 15 de junho daquele ano comecei a captar meteoros e sprites", disse. Sprites, segundo o estudante, são fenômenos atmosféricos relacionados a descargas elétricas nuvem-solo. 

"Eles ocorrem de 30 quilômetros acima da base da nuvem a até 90 quilômetros de altitude bem na Ionosfera. Duram menos de 50 microssegundos. São muito rápidos. As colorações deles são vermelho na parte mais alta e um azul alternando para roxo nas partes mais baixas", explicou.

"No dia em que peguei os primeiros sprites, viciei em apontar a câmera para qualquer tempestade forte", contou Gabriel. O jovem se informa sobre a chegada das frentes frias a partir dos dados divulgados pelos satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

Gabriel diz que tem estudado meteorologia e quer se especializar nessa área no futuro. O apoio é geral. "Meus pais e amigos veem como uma coisa boa essa contribuição à ciência."

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