Kai Geng via The New York Times
Kai Geng via The New York Times

A descoberta do crânio do ‘homem dragão’ pode adicionar espécie à árvore genealógica da humanidade

Um operário de construção descobriu o crânio e o manteve escondido em um poço por 85 anos. Cientistas dizem que o fóssil pode ser o elo na árvore genealógica da humanidade que explicará como nossa espécie apareceu

Carl Zimmer, The New York Times

26 de junho de 2021 | 05h00

Cientistas anunciaram nesta sexta-feira, 25, que um grande crânio fossilizado de pelo menos 140 mil anos pertence a uma espécie humana ancestral desconhecida anteriormente, uma descoberta com capacidade de transformar a visão científica a respeito de como - e mesmo onde - nossa espécie, Homo sapiens, evoluiu.

O crânio é de um hominídeo adulto, que tinha um cérebro enorme, testa proeminente, olhos profundos e um nariz bulboso. O fóssil ficou escondido em um poço abandonado por 85 anos, após um operário encontrá-lo em uma construção na China.

Os pesquisadores batizaram a nova espécie como Homo longi e lhe deram o apelido de "Homem Dragão", em homenagem à região do Rio do Dragão, no nordeste da China, onde o crânio foi descoberto.

Os cientistas afirmaram que o Homo longi é a espécie humana mais próxima à nossa, e não os neandertais. Se a conclusão for confirmada, poderia mudar a maneira como a ciência considera a origem do Homo sapiens, construída ao longo dos anos a partir de descobertas de fósseis e análises de DNAs ancestrais.

Mas vários especialistas discordaram da hipótese, publicada em três artigos científicos que detalharam pela primeira vez as características desse fóssil. Entretanto, muitos deles acreditam que a descoberta poderia ajudar os cientistas a reformular a árvore genealógica da humanidade e rever a maneira como nossa espécie, Homo sapiens, apareceu.

Todos os especialistas que revisaram os dados dos estudos afirmaram que se trata de um fóssil magnífico.

"É lindo", afirmou John Hawks, paleoantropólogo da Universidade de Wisconsin-Madison. "É muito raro encontrar um fóssil como esse, com a face em boas condições. A gente sonha em encontrar algo assim."

Em 1933, um operário que trabalhava na construção de uma ponte na cidade de Harbin descobriu o peculiar crânio. É possível que esse homem - cujo nome foi preservado por sua família - soubesse que tinha encontrado uma amostra de importância científica. Quatro anos antes, pesquisadores tinham encontrado um outro crânio de humanoide, apelidado de Homem de Pequim, próximo à capital chinesa. Parecia ser o elo entre os povos da Ásia e seus ancestrais evolucionários.

Em vez de entregar o novo crânio às autoridades do Japão, que ocupava o nordeste chinês naquela época, o operário preferiu escondê-lo. Ele não comentou com ninguém a existência do fóssil por décadas. Em um dos relatos a respeito da descoberta do crânio, os autores dos novos estudos especularam que o operário poderia sentir vergonha de ter trabalhado para os japoneses.

Pouco antes de sua morte, em 2018, ela contou à família a respeito do fóssil. Os parentes foram ao poço e encontraram o crânio. A família doou o achado para o Museu de Geociência da Universidade Hebei GEO, onde cientistas perceberam imediatamente que o crânio havia sido preservado de maneira excelente.

Nos estudos publicados nesta sexta-feira, os pesquisadores argumentaram que o crânio do Homo longi parece de um adulto de porte grande. Suas bochechas eram achatadas e sua boca, larga. A mandíbula inferior está faltando, mas com base no aspecto da mandíbula superior do Homem Dragão e de outros crânios humanos fossilizados os pesquisadores inferiram que ele tinha pouco queixo. Os cientistas afirmam que o cérebro dele era aproximadamente 7% maior do que o cérebro dos humanos atuais.

Os pesquisadores argumentam que as características anatômicas do Homem Dragão não haviam sido encontradas anteriormente em nenhuma outra espécie conhecida de hominídeo, a linhagem de macacos bípedes que se diferenciou de outros macacos africanos e posteriormente evoluiu para diversas espécies com cérebros maiores que se espalharam pelo planeta.

"São distintivas o suficiente para serem consideradas de uma outra espécie", afirmou Christopher Stringer, paleoantropólogo do Museu de História Natural de Londres e coautor de dois dos três estudos a respeito dos Homens Dragão.

Os cientistas analisaram a composição química do fóssil e determinaram que ele tem entre 146 mil anos e 309 mil anos.

Atualmente, a Terra abriga somente uma espécie de hominídeo - o Homo sapiens. Mas o Homem Dragão existiu em uma época em que vários tipos de hominídeos drasticamente diferentes entre si coexistiam, incluindo o Homo erectus - um hominídeo alto, com cérebro um terço menor que o nosso - e hominídeos pequenos, como o Homo naledi, na África do Sul, o Homo floresiensis, na Indonésia, e o Homo luzonensis, nas Filipinas.

Os fósseis mais antigos de Homo sapiens também datam dessa época. Os neandertais, que compartilham conosco cérebros grandes e capacidade de fabricar ferramentas sofisticadas - se espalhavam da Europa à Ásia Central no período em que o Homem Dragão pode ter vivido.

Nos anos recentes, estudos de DNA de fósseis também revelaram que uma outra linhagem de humanoides ocorreu nesse período, os denisovanos. Esse DNA veio na maior parte de dentes isolados, ossos lascados e até de terra. Esses vestígios não são suficientes para aferir como os denisovanos eram fisicamente.

O mais fóssil promissor já encontrado poderia provar que os denisovanos emergiram de uma caverna do Tibete: uma maciça mandíbula com dois molares robustos, de pelo menos 160 mil anos. Em 2019, cientistas isolaram proteínas da mandíbula, e sua composição molecular sugere que ela pertenceu a um denisovano e não a um humano moderno nem a um neandertal.

Essa evidência molecular - combinada com as evidências dos fósseis - sugere que ancestrais comuns ao Homo sapiens, aos neandertais e aos denisovanos viveram 600 mil anos atrás.

Nossa linhagem se diferenciou por conta própria e, posteriormente, há 400 mil anos, os neandertais e os denisovanos se diferenciaram. Em outras palavras, neandertais e denisovanos são nossos parentes extintos mais próximos. Eles até acasalaram com ancestrais dos humanos modernos, e nós carregamos pedaços do DNA deles até hoje.

Para decifrar a maneira como o Homo longi se insere na árvore genealógica da humanidade, os cientistas compararam sua anatomia à de outros 54 fósseis de hominídeos. Os pesquisadores descobriram que ele pertence a uma linhagem que inclui a da mandíbula tibetana identificada como denisovana.

O crânio era ainda mais similar a um pedaço de crânio de 200 mil anos descoberto em 1978 na região da cidade chinesa de Dali. Alguns pesquisadores pensaram que o fóssil de Dali fosse da nossa espécie, enquanto outros consideraram que pertencia a uma linhagem mais antiga. E outros até qualificaram o fóssil como uma nova espécie, o Homo daliensis.

Os autores dos novos estudos argumentam que o Homem Dragão, a mandíbula tibetana e o crânio de Dali pertencem a uma mesma linhagem - que é o ramo mais próximo à nossa espécie. Ao mesmo tempo em que o Homo longi teve características distintivas, ele também compartilhava nossos traços, como um rosto uniforme abaixo da linha das sobrancelhas, em vez de saliente, como no caso dos neandertais.

"Acredita-se amplamente que os neandertais pertençam à linhagem extinta mais próxima à nossa espécie. Contudo, nossa descoberta sugere que a nova linhagem que identificamos e inclui o Homo longi é na verdade o grupo mais próximo ao do H. sapiens", afirmou em um comunicado à imprensa Xijun Ni, coautor dos estudos e paleoantropólogo da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade Hebei GEO.

Essas conclusões causaram debate entre paleoantropólogos.

"Quando vi a foto do fóssil pela primeira vez, pensei que finalmente conheceríamos a aparência dos denisovanos", afirmou Philipp Gunz, paleoantropólogo do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, em Leipzig, Alemanha.

Karen Baab, paleoantropóloga da Universidade Midwestern, no Arizona, concordou. "A melhor forma de entender o fóssil de Harbin é como denisovano."

Uma série de pistas aponta nessa direção. O dente na mandíbula superior do Homem Dragão tem o mesmo formato grande, como o da mandíbula denisovana encontrada no Tibete, por exemplo. Em ambas, o terceiro molar não é presente. O Homem Dragão viveu na Ásia no mesmo período, e o DNA denisovano nos diz que eles vieram do mesmo lugar.

Mesmo se o Homem Dragão for denisovano, poderia haver mais enigmas para desvendar. O DNA dos denisovanos mostra claramente que seus primos mais próximos eram os neandertais. O novo estudo, porém, com base na anatomia dos fósseis, indica que o Homo longi e o Homo sapiens são parentes mais próximos entre si do que em relação aos neandertais.

"Acho que, nesses casos, dados genéticos são mais confiáveis do que dados morfológicos", afirmou Bence Viola, paleoantropólogo da Universidade de Toronto que não está envolvido no novo estudo. / Tradução de Augusto Calil

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