A eterna aventura de Piccard, o balonista

A maioria das pessoas ficaria entediada com a rotina do dia-a-dia após viver a emoção e o triunfo de dar a volta ao mundo num balão. Mas não o suíço Bertrand Piccard. Aventureiro por natureza, filho e neto de grandes exploradores, hoje em dia ele consegue sua adrenalina dando palestras, conhecendo pessoas e angariando fundos para ajudar crianças vítimas do subdesenvolvimento. "A maior aventura do ser humano é a própria vida e o desafio de fazer alguma coisa boa com ela", disse Piccard, que chega amanhã ao Brasil para uma série de atividades. "Gosto de aventuras para explorar a vida, o mundo, o ser humano. Posso fazer isso no meu balão, ou cada vez que conheço uma pessoa nova." Piccard, de 44 anos, casado e pai de três filhas, é um explorador em vários aspectos. Como balonista, em 1999, deu a primeira e única volta ao mundo sem escalas, com o amigo inglês Brian Jones. Como psiquiatra, estuda o comportamento humano diante de dificuldades e desafios. Ele compara a vida a um vôo de balão. "Você está totalmente à mercê do vento, empurrando-o para o desconhecido. Se quiser mudar o rumo, precisa mudar de altitude para procurar novos ventos que o levem na direção certa", disse Piccard, em entrevista ao Estado, de Caracas, na Venezuela. "Na vida deveria ser igual: quando nos deparamos com um problema, a solução não é lutar contra o vento, mas procurar novas altitudes. O balão nos ensina a usar o desconhecido como estímulo para criatividade e desempenho; nos obriga a buscar soluções que não encontraríamos normalmente." Em suas palestras, Piccard fala sobre trabalho em equipe e espírito de aventura, duas coisas que conhece bem. A viagem de 20 dias que ele e Jones fizeram ao redor do globo não foi nenhum passeio. Percorreram 46 mil quilômetros, do interior da Suíça ao deserto do Egito. "Só manter o balão no ar por três semanas foi um desafio enorme", lembra Piccard. "Você precisa estar concentrado 100% do tempo. Não pode relaxar um minuto." A cápsula do balão Breitling Orbiter 3 está guardada para a história no Smithsonian Air and Space Museum, em Washington, ao lado do Spirit of St. Louis, de Charles Lindbergh, do avião dos irmãos Wright e da cápsula da missão Apollo 11. Muitos balonistas tentaram completar a viagem pioneira antes de Piccard. Ele próprio fracassou duas vezes, em 1997 e 1998. "A principal característica da minha família é a perseverança. Quando tentamos algo, vamos até o fim", diz Piccard, herdeiro de dois gloriosos aventureiros. O avô Auguste foi o primeiro homem a entrar na estratosfera, em 1931. Físico, inventou o princípio da cabine pressurizada e o batiscafo, pequeno submarino para exploração de águas profundas. O pai, Jacques, construiu o primeiro submarino turístico e inventou o "mesoscafo", para profundidades médias. Também foi o homem que mergulhou mais fundo até hoje: 10.916 metros. Piccard pegou gosto pela aventura aos 16 anos, quando fez seu primeiro vôo de asa-delta. Agora, aquietou-se um pouco. "Acho que circundar o globo num balão era a última aventura pioneira na atmosfera. Confesso que não sei o que fazer agora. Não sou caçador de recordes; gosto de ser o primeiro." Após o vôo, Piccard e Jones fundaram a organização filantrópica Winds of Hope (Ventos da Esperança). Todos os anos, em março, eles fazem uma doação para combater "causas esquecidas ou negligenciadas ao redor do mundo", especialmente com relação a crianças. "A humanidade não está voando na altitude certa", resume o viajante. Piccard chega amanhã a São Paulo e faz palestra aberta ao público no Sesc Paulista, às 18h30. Na quinta-feira, às 6 horas, ele participa de um vôo com 20 balões, organizado em sua homenagem, em Boituva, a 98 quilômetros da capital paulista.

Agencia Estado,

12 de março de 2002 | 13h37

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