‘A Igreja tem hierarquia pouco democrática’, diz religioso

Em entrevista ao 'Estado', dom Clemente defende idéias reformistas como o fim da exigência do celibato

Alexandre Rodrigues, de O Estado de S.Paulo,

28 de junho de 2008 | 17h08

Prestes a completar 91 anos, dom Clemente Isnard conserva o espírito jovem de um revolucionário. Descontente com uma Igreja Católica rigidamente hierarquizada e conservadora, o monge beneditino dedica boa parte do tempo de sua aposentadoria a escrever sobre temas que muitos não ousam falar em voz alta dentro das paredes das cúrias e palácios apostólicos. Bispo emérito de Nova Friburgo (RJ), onde atuou por mais de 30 anos, dom Clemente defende o fim da exigência do celibato para sacerdotes e a ordenação de mulheres. Para ele, há muitas religiosas prontas para dirigir paróquias e padres que trocaram a vocação pastoral pelo casamento que fazem falta à Igreja.  Reformista, ele é um dos poucos sacerdotes brasileiros que participaram do Concílio Vaticano II, cujas transformações acredita terem sido interrompidas pelo papado conservador de João Paulo II. No pequeno livro Reflexões de um Bispo Sobre as Instituições Eclesiásticas Atuais, lançado recentemente, ele também defende a democratização da Igreja, com a participação dos leigos na eleição de bispos. Morador do Mosteiro de São Bento, no Rio, dom Clemente passa uma temporada no Recife, de onde concedeu a entrevista abaixo ao Estado por e-mail. Em seu livro, o senhor aborda temas delicados para a Igreja Católica, como o celibato, a ordenação de mulheres. Por que o senhor decidiu escrever sobre isso agora?  Porque me parecem de grande atualidade. A ordenação de mulheres acaba de ser proposta na Europa pelo cardeal Martini e tem aprovação do cardeal Lorscheider no seu livro Mantenham as Lâmpadas Acesas. Não propus o fim do celibato eclesiástico, mas apenas a possibilidade de dispensar bons sacerdotes do celibato para continuarem o ministério. O senhor não teme sofrer uma censura pública do Vaticano ou de instâncias da Igreja no Brasil? A Santa Sé publicou oficialmente um livro onde se diz que o bispo emérito, como sucessor dos apóstolos pode pregar. Se pode pregar, pode também escrever. Na opinião do senhor, a exigência do celibato reduz a qualidade dos padres que atualmente estão à frente das paróquias e favorece personalidades perturbadas, como a dos padres envolvidos em casos de pedofilia? A exigência do celibato trás uma carga psicológica que pode favorecer personalidades desequilibradas, embora não sempre. O celibato, como resposta ao convite do Evangelho e da Epístola de São Paulo aos Coríntios, deverá existir sempre na Igreja. Os monges deverão ser sempre celibatários, como nas Igrejas Orientais. O senhor acredita que, se pudessem constituir família, os padres poderiam se dedicar ao trabalho pastoral da mesma forma? Se o padre tivesse família não poderia se dedicar a trabalhos de pesquisa, mas não impediria o trabalho habitual de um pai de família. Tudo depende da vocação do indivíduo. Um padre que se casou em minha diocese era professor e sustentava esposa e dois filhos. O senhor elogia em seu livro o trabalho de diáconos permanentes.Acha que há leigos prontos para dirigir paróquias e que poderiam se tornar sacerdotes sem abandonar suas vidas seculares?  Acho que depois de uma certa idade, um diácono permanente que conheço bem, poderia ser ordenado sacerdote sem abandonar sua vida secular. E teria o auxílio de sua esposa. Um diácono mal casado não deve esperar o sacerdócio. A formação dos padres atualmente no Brasil é deficiente? Que problemas o senhor vê?  A formação de um Jesuíta de alguns Religiosos continua sendo muito boa. Já a de alguns seminários não é a mesma coisa. Os problemas são a falta de recursos para o estudo, a carência de bons professores, a situação de algumas dioceses. O senhor também defende a ordenação de mulheres. Na sua opinião, apesar de toda a emancipação feminina na sociedade, por que isso ainda não tem lugar em discussões dentro da Igreja? O senhor conhece religiosas que gostariam de dirigir paróquias?  A ordenação sacerdotal das mulheres é uma praxe adotada nas Igrejas Anglicana e Luterana. É curioso que Lutero não o tenha feito logo, mas que essas igrejas tenham esperado até o século XX. Dois cardeais modernos, Lorscheider e Martini, são favoráveis. Sem dúvida Ione Buyst teria competência para dirigir uma paróquia. Irmã Penha Campanedo também. De fato, o assunto não é discutido na Igreja, mas penso que vai se tornar mais discutido depois dessa manifestação de dois cardeais.  O senhor acha que a Igreja Católica demora muito para promover mudanças e reconhecer erros? Isso afasta fiéis? A Igreja é uma organização muito séria e não pode se aventurar em qualquer novidade. Tem de ser muito prudente em reconhecer erros, pois isso também afasta os fiéis. O senhor pondera que o pontificado de João Paulo II interrompeu uma tendência de mudanças na Igreja. Como o senhor avalia o pontificado de Bento XVI até agora? No que o senhor mais concorda e no que mais discorda? O Papa João Paulo II foi certamente um grande Papa por suas qualidades espirituais, mas se esperava dele uma correspondência maior nos rumos ao Concílio Vaticano II. Depois de Paulo VI, havia uma série de coisas para mudar na Igreja, mas pouco se fez. Parece que faltou coragem ao Papa. O pontificado de Bento XVI, pelo fato dele ter sido um colaborador de João Paulo II, não se distancia muito daquele. Não concordo com o documento de junho passado em que voltou ao antigo rito da Missa de São Pio V, colocando-o ao lado do rito do Vaticano II. Não concordo com uma volta ao latim como língua da Igreja.O senhor defende a participação dos leigos na escolha dos bispos. Que efeitos acha que isso provocaria? O senhor vê a Igreja como uma hierarquia pouco democrática? No meu livro, coloco os leigos ou um grupo de leigos como parte dos eleitores de um novo bispo, junto com os padres, diáconos, e religiosos. Esse modo de eleição evitaria certos equívocos que aconteceram em nomeações que prejudicaram muito a Igreja. Hoje a Igreja é uma hierarquia pouco democrática, que, sem perigo para a sua constituição, tornaria-se democrática.  O senhor acha que se houvesse maior poder de decisão dos fiéis na escolha dos líderes da Igreja as pessoas se aproximariam mais dela? O senhor ousaria defender uma participação direta dos fiéis na escolha do Papa?  Penso que um grupo de leigos, homens e mulheres, que ajudariam a eleger o bispo faria a comunidade diocesana mais próxima dele. Quanto à eleição do papa, que é bispo de Roma, concordo com a opinião do cardeal Lorscheider que escreve no seu livro: "Deve-se dissolver o Colégio Cardinalício e fazer o papa ser eleito pelos Presidentes das Conferências Episcopais". O senhor é um dos poucos brasileiros que participou do Concílio Vaticano II. Na sua opinião, que reformas a Igreja deveria empreender agora, para aperfeiçoá-lo?  É uma alegria para mim ter sido membro do Concílio Vaticano II. Acho que a Igreja deve formular um novo tipo de eleição dos bispos, com participação do clero, das religiosas e dos leigos. Deve também suprimir os bispos auxiliares, fazendo com que o bispo diocesano seja o único na diocese, opinião do cardeal Lorscheider. Deve dar uma missão pastoral aos bispos eméritos e às religiosas.  É verdade que o Núncio Apostólico tentou impedir a publicação do seu livro? Como o senhor vê essa atitude e como conseguiu vencê-la?  O Núncio Apostólico chamou o Provincial dos Padres Paulinos, que iam publicar meu livro, e proibiu a publicação. Mas não se dirigiu a mim. Procurei então tranqüilo outra editora, pois o livro nada contém contra a fé e as leis da Igreja. Como bispo emérito tenho o direito de pregar e de escrever.

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