A loteria genética da reprodução

Imagine só: Todo ser humano é resultado da combinação genética de um único óvulo com um único espermatozóide. Nesse caso, 1 + 1 = 1. Mas a matemática da reprodução sexual que antecede a fertilização é ainda mais complexa e estranha do que isso. Na verdade, funciona como uma loteria genética. E você é o bilhete premiado.       No ato da reprodução (para usar uma terminologia bem científica), o homem ejacula, em média, uns 300 milhões de espermatozóides dentro do útero da mulher. Por fora, cada um desses espermatozóides pode parecer igual. Mas por dentro, a história é outra. Mesmo vindo todos do mesmo pai, cada espermatozóide carrega no seu núcleo um genoma levemente diferente do outro. Cada um desses 300 milhões de espermatozóides é um indivíduo em potencial, assim como cada óvulo que a mulher ovula por mês é geneticamente um pouco diferente do outro.       Você, portanto, é o resultado da combinação de um único espermatozóide específico com um único óvulo também específico, fertilizados em um mês igualmente específico. E não poderia ser de outro jeito. Se fosse qualquer outro daqueles 300 milhões de espermatozóides que tivesse entrado no óvulo, você não seria você. Seria uma pessoa completamente diferente, talvez com olhos mais claros, com um nariz menor ou um cabelo mais liso. Talvez tivesse mais jeito para jogador de basquete do que de futebol. Talvez tivesse mais propensão ao câncer.Talvez fosse cientista em vez de jornalista ... vai saber. Talvez você fosse a sua irmã.       A explicação é a seguinte: Tanto os espermatozóides quanto os óvulos – chamados gametas – são formados a partir de um processo chamado meiose, no qual uma célula de 46 cromossomos se multiplica em duas iguais de 46 cromossomos cada uma, que por sua vez se dividem em outras duas células com metade dos cromossomos (23) cada uma. São essas células haplóides, com apenas uma cópia de cada cromossomo, que vão se juntar na fertilização para formar um novo indivíduo diplóide, com 23 PARES de cromossomos, ou 46 cromossomos no total – metade do pai e metade da mãe.       (Se você precisou ler o parágrafo acima mais de uma vez, não se preocupe. Eu também precisei escrevê-lo mais de uma vez até fazer algum sentido.)       Mas enfim, o importante aqui é entender que cada gameta não é geneticamente idêntico ao outro, apesar de serem produzidos pelo mesmo pai ou pela mesma mãe. Isso porque, no processo meiótico de divisão celular, os cromossomos maternos e paternos da célula germinativa primordial (aquela de 46 cromossomos) são distribuídos aleatoriamente entre as células filhas. Uma célula pode acabar com os cromossomos 1, 2 e 3 da mãe, 4, 5 e 6 do pai e assim por diante, em qualquer combinação possível.        Além disso, quando os cromossomos homólogos se aproximam no centro da célula, ocorre uma espécie de bacanal genético ("crossing over", na linguagem científica), no qual pedaços de DNA pulam da ponta de um cromossomo para outro. No fim das contas, portanto, o genoma embutido no núcleo de cada espermatozóide e cada óvulo é sempre um pouco diferente do outro. Imagine que todas as células são construídas do mesmo balde de Lego, mas com algumas peças colocadas em ordens diferentes. É esse embaralhamento de genes e cromossomos na meiose que garante a variabilidade genética dentro da espécie. Caso contrário, todos os gametas seriam iguais e você seria idêntico ao seu irmão.         Além disso, tem o sexo. Nesse troca-troca genético, alguns espermatozóides acabam com o cromossomo X e outros, com o cromossomo Y. Se o sortudo que conseguir penetrar no óvulo tiver o X, o bebê será mulher (XX). Se tiver o Y, o bebê será homem (XY). "A culpa é sempre do homem", brinca a especialista em embriologia Irene Yan, da Universidade de São Paulo. "O óvulo é sempre X. O espermatozóide é que pode ser X ou Y."     Pense nisso a próxima vez que contribuir para a reprodução da espécie.

08 de maio de 2008 | 16h41

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