Disney Enterprises, Inc.
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A Lua e o cinema

Desde tempos ancestrais, os corpos celestes exercem irresistível atração sobre os humanos. E Hollywood está sempre a postos para criar essas histórias inspiradoras e forjar mitos no inconsciente do público

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2019 | 12h00

Logo no início do longa de Jon Favreau, Mufasa, o rei dos leões, leva seu filhote, Simba, para o alto da pedra de onde se divisa todo o reino, a savana. Simba pergunta se o reino é grande, e o pai lhe diz que abarca tudo o que a luz do Sol ilumina. Mais algumas cenas e o tio invejoso, Scar, convoca as forças da noite, as hienas, para juntos tomarem o reino. Sua imagem aparece relacionada à Lua. Sol e Lua, dia e noite. Desde tempos ancestrais, os corpos celestes exercem irresistível atração sobre os humanos. Boa parte do organismo é constituída de água, e se a Lua influencia as marés como não exercerá seu sortilégio também sobre os homens?

Completam-se, neste sábado, 50 anos da história descida do homem na Lua. Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong caminhou sobre a superfície lunar e deixou aquela marca na chamada Base da Tranquilidade – um passo pequeno para um homem, gigantesco para a humanidade. A imagem foi documentada e correu mundo. Gerou controvérsia, alimentou até teorias da conspiração.

Como o programa espacial dos EUA estaria atrás do da URSS – eram os anos duros da Guerra Fria –, Stanley Kubrick, que colhia os louros de seu clássico de ficção científica, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, teria sido chamado para encenar a alunissagem. O cineasta teria sido advertido para manter o segredo, mas, sendo um artista e um humanista, teria deixado mensagens secretas no restante de sua obra. Códigos para decifrar o enigma. Existem documentários que buscam desvendar o segredo nos numerosos símbolos que Kubrick teria deixado especialmente em O Iluminado, o terror que adaptou de Stephen King.

Pura besteira, sempre disseram a mulher e a filha do cineasta, mas, no mundo das fake news, a falsa alunissagem até hoje alimenta as fantasias dos que até hoje duvidam que o homem teria realizado a façanha.

Há que retornar ao mito. O Sol, imenso forno, consumiria qualquer intruso com suas chamas, mas a Lua seria habitada por um povo das cavernas, os selenitas. Em 1902, sete anos após a histórica primeira sessão de cinema dos Irmãos Lumière, e é bom lembrar que eles não viam muito futuro para sua invenção, o mágico Georges Méliès, com a ajuda de seu irmão Gaston, resolveu provar que eles estavam enganados.

Baseado em dois livros de Jules Verne e H.G. Wells, Da Terra à Lua e Os Primeiros Homens na Lua – e mesmo com os incipientes recursos da época –, Méliès deu asas à imaginação e fez Le Voyage dans la Lune. Na sua concepção primitiva, e humorada, a nave dos terráqueos pousa no olho do Homem da Lua e a ruidosa acolhida fica por conta das mulheres selenitas. O filme fez sucesso em feiras populares e tornou-se um clássico ao mostrar o potencial comercial do chamado 'cinematógrafo'.

Martin Scorsese recriou a cena – a descida na Lua – em A Invenção de Hugo Cabret, seu longa de 2011, baseado no livro de Brian Selznick. Mais de 100 anos separam os dois filmes – 109. E serão ainda mais, 117, se a distância temporal for a que separa Méliès de Jon Favreau, e a Lua de O Rei Leão.

Chama-se selenofilia a fascinação pela Lua que, desde o início, caracteriza a humanidade. A ciência terminou por mostrar que está próxima da Terra – em termos –, mas o que mais mexeu com a humanidade foi a inconstância da Lua, suas diferentes fases. Cheia ou minguante, a Lua foi a musa de Apolo, na mitologia, e a de Galileo, que em seu tratado de astronomia reproduziu a Lua tal como a viu em seu pioneiro telescópio refrator.

A Lua que inspirava poetas em sonetos românticos inspirou também os artífices da fotografia, e em 1840 o norte-americano John William Drapper fez o primeiro daguerreótipo detalhado do satélite da Terra. Por ser visível à noite, ela foi sempre associada a sonhos e desejos velados. Desde tempos imemoriais, a Lua Cheia invoca a fertilidade, mas também carrega uma maldição.

Loucos são chamados de lunáticos, nas noites de Lua Cheia atacam os lobisomens, cujos relatos remontam às Metamorfoses, de Ovídio. Houve uma longa tradição de lobisomens em Hollywood, e alguns filmes bem bizarros – Frankenstein e o Lobisomem, Os Lobisomens do Terceiro Reich etc -, mas na versão de Mike Nichols, Lobo, de 1994, com Jack Nicholson, ao transformar o herói em licantropo e restituir sua força primitiva, a suposta maldição multiplica sua potência e faz dele o melhor dos amantes.

Numa outra pegada, bem diversa, Francis Ford Coppola, em seu episódio de Contos de Nova York, de 1989, faz da própria filha, Sofia Coppola, a garota – Zoe – que, na Acrópole, realiza a fusão entre Sol e Lua, representando seus pais separados. No quesito representações poéticas, os Irmãos Taviani foram insuperáveis em Kaos, de 1984, que adaptaram das histórias de Luigi Pirandello.

Em Mal di Luna, Batà, recém-casado e apaixonado pela mulher, ao descobrir que está virando lobisomem trata de protegê-la, mas, ao convocar para isso o belo Saro, na verdade está oferecendo a Sidora um amante. Além de um patético licantropo, torna-se também um patético 'cornuto'.

Lua rima tanto com poesia que Steven Spielberg utilizou a imagem da bicicleta voadora contra a Lua, um momento inesquecível de seu clássico E.T. – O Extraterrestre, de 1982, não apenas o cartaz do filme, mas o emblema de suja produtora, Amblin Entertainment.

Num registro mais realista, mas também ficcional – e científico –, Ron Howard recriou o momento em que a equipe de astronautas, à frente Tom Hanks, contactou a Nasa com a frase que entrou para a história: “Houston, temos um problema.” Em Apollo 13, de 1995, o problema vira solução e o que poderia ser tragédia vira triunfo do programa espacial norte-americano.

No ano passado, Damien Chazelle fez de Ryan Gosling o seu Neill Armstrong. Em O Primeiro Homem, o astronauta, primeiro homem a pousar na Lua, na verdade foi assim tão longe para poder enterrar a filha na lembrança, e homenagear a garota. Outra homenagem fúnebre veio de Clint Eastwood, em Caubóis do Espaço, de 2000, naquele final glorioso, ao som de Frank Sinatra – Fly Me Into the Moon. Hollywood está sempre a postos para criar essas histórias inspiradoras e forjar mitos no inconsciente do público.

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