A origem da cigarra e da formiga

Muito, muito tempo atrás, surgiu o sistema nervoso. Sua função era mediar a relação entre as informações recebidas do meio ambiente e as ações executadas pelo organismo. No início, essa mediação era direta. Uma informação, uma resposta. Algo encosta no organismo, ele retrai o corpo. Simples e direto, mediado por algumas dezenas de neurônios. 

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

A mediação executada pelo sistema nervoso facilitou a adaptação dos seres vivos às mudanças repentinas no meio ambiente, o que melhorou as chances de sobrevivência e reprodução. E aos poucos, ao longo de milhões de anos, sistemas nervosos mais complexos foram selecionados. Os órgãos sensoriais, capazes de captar estímulos externos, aumentaram de número, surgiram olhos e ouvidos. E as opções de ação mediadas pelo sistema nervoso também aumentaram.

O tempo passou e a complexidade aumentou. As informações captadas pelo sistema nervoso agora envolviam sinais vindos do próprio corpo, de outros animais da mesma espécie, ou mesmo de outros seres vivos. Surgiram os primeiros animais sociais.

Em outra dimensão, a mediação do sistema nervoso, entre os sinais recebidos e as ações executadas, deixou de ser imediata, podendo ser atrasada no tempo com o surgimento da memória (estou com fome, mas estou fazendo sexo, depois vou procurar alimento), o que permitiu armazenar “decisões” antes de executá-las. A memória também permitiu armazenar e relembrar o resultado de uma ação ocorrida no passado e incorporar essa informação na mediação entre o estímulo e a ação. É o aprendizado com a experiência.

Faz poucos anos, talvez 1 milhão, o sistema nervoso começou a atuar de modo mais complexo. Passou a reconhecer as ordens que gerava para o resto do corpo e a reconhecer a si próprio como parte do corpo. É o que costumamos chamar de consciência: a capacidade de observar a si próprio, e ao corpo em que habita, como se fosse parte do meio ambiente. E foi assim que surgiu o que identificamos em nós mesmos como nosso eu, nossa consciência, o reconhecimento que existimos. 

A consequência direta do aparecimento da consciência foi a descoberta que o corpo é mortal e que a morte é inevitável. A consequência mais importante do surgimento da consciência da morte é a tradução desse conhecimento em ação. São duas as opções diametralmente opostas que emergem desse sistema nervoso consciente de sua finitude. E em cada pessoa ou cultura, elas se combinam em diferentes quantidades.

A primeira é foco total no usufruto dos prazeres do presente, onde todas as ações são guiadas para o agora, onde o futuro vale pouco. E isso acontece porque, ciente da morte, a melhor solução para garantir a sobrevivência da espécie é viver intensamente o presente. Na fábula da cigarra e da formiga, são as cigarras, e muitas das civilizações que se desenvolveram em climas temperados onde abundam os alimentos e os recursos naturais. Música e festa estão sempre por perto.

A segunda é o foco total no controle do presente, visando a evitar a morte prematura. É o trabalhar agora e se divertir depois. O sistema nervoso, consciente da morte, tenta prolongar a vida a todo custo. Na fábula, são as formigas que seguramente sobreviverão quando chegar o inverno. São civilizações que se desenvolveram em climas frios, onde o alimento tem de ser estocado e as festas são menos espontâneas.

De certa maneira, grande parte das angústias da civilização humana decorre da consciência da morte e da dificuldade em conviver com as instruções contraditórias geradas por um sistema nervoso que às vezes é cigarra, às vezes formiga.

Essas divagações, resultado de um sonho na noite em que acabei de ler o excelente livro Trópicos Utópicos, de Eduardo Giannetti, talvez merecessem um pouco mais de reflexão antes de serem colocadas no papel, mas hoje meu sistema nervoso está mais para cigarra que formiga.

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

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