A primeira churrasqueira

Em 1990, na beira de um rio em Bruniquel, espeleologistas amadores descobriram uma caverna. Isso não é novidade no sul da França, uma região salpicada por cavernas decoradas, 10 mil anos atrás, por nossos ancestrais. Mas essa caverna era diferente. Não havia ossos de animais conhecidos ou qualquer sinal da presença de seres humanos. Nada de pinturas nas paredes. Na entrada, ossos de grandes animais extintos há tempos, ursos e outros exemplares da megafauna extinta. Um desmoronamento fechou a entrada para essa longa caverna não se sabe quando. Com mais de 600 metros de comprimento, cheia de estalactites e estalagmites, a caverna ficou na escuridão por dezenas de milhares de anos.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2016 | 07h32

No solo da caverna, a 300 metros da entrada, foram encontradas estruturas circulares. A maior delas, com quase 6 metros de diâmetro, continha no seu interior outras estruturas circulares menores com diâmetros de até um metro. Fora da estrutura maior, outras estruturas circulares semelhantes. Essas estruturas, delimitadas por paredes baixas, de menos de um metro de altura, haviam sido construídas com pedaços de estalagmites (colunas verticais de material calcário que se formam quando gotas de água contendo o mineral pingam no mesmo lugar durante séculos). Os 400 pedaços de rocha usados na construção das paredes são a parte média de longas estalagmites, não contendo sua base ou seu topo. Com o formato de troncos de madeira, cada fragmento mede aproximadamente 35 centímetros de comprimento. Esses blocos cilíndricos de pedra estavam deitados delimitando os círculos. Até quatro camadas desses fragmentos de estalagmites estavam empilhados, formando as paredes das estruturas circulares. Alguns pedaços colocados na vertical seguravam as paredes, dando sustentação à estrutura. Um total de 112 metros de estalagmites haviam sido cortados e organizados. Seu peso total foi estimado em 2,2 toneladas.

O arqueólogo que iniciou os estudos morreu e somente em 2003 eles foram reiniciados. Reexaminando o local os cientistas descobriram sinais de fogo no interior dessas estruturas. A própria rocha havia sido incinerada e alguns ossos queimados e calcificados foram encontrados no local.

Tudo indicava que nossos ancestrais Homo sapiens haviam habitado essas cavernas, como haviam habitado tantas outras na região. Mas isso mudou quando os cientistas usaram métodos de carbono 14 para descobrir a idade das construções. Esse método, que é capaz de datar com precisão objetos de até 50 mil anos de idade, indicou que essas estruturas eram de uma época anterior, muito anterior. Como o Homo sapiens só chegou a essa região da Europa 40 mil anos atrás, essas pilhas não haviam sido construídas pelos seres humanos que haviam pintado as outras cavernas da região. Eram de antes de nossa chegada à Europa.

Usando um método baseado no decaimento dos isótopos de urânio, os cientistas determinaram que as estruturas haviam sido construídas exatos 176 mil anos atrás, quase 140 mil anos antes de o ser humano aparecer no sul da França. Os únicos hominídeos que habitavam a Europa nessa época eram os Neandertais. Nossos primos distantes, essa espécie surgiu na Europa 400 mil anos atrás e sobreviveu até aproximadamente a chegada do Homo sapiens, com quem conviveu por algum tempo. Desapareceram, ou como dizem as más línguas, foram extintos, por nossos ancestrais 40 mil anos atrás.

Tudo indica que essas paredes circulares foram construídas pelos Neandertais e provavelmente são as mais antigas construções executadas que conhecemos. Se isso for verdade, significa que os Neandertais eram muito mais sofisticados do que imaginamos. Já eram capazes de habitar locais escuros, se organizavam para fraturar, selecionar e empilhar fragmentos de estalagmites em estruturas regulares e bem organizadas. E mais: acendiam e mantinham fogueiras no seu interior. 

Ninguém sabe para que serviam essas estruturas, mas meu palpite é que seu formato, a presença de ossos queimados e o fato de as paredes terem sido incineradas sugerem que essas estruturas circulares talvez fossem enormes churrasqueiras, onde assavam um bom naco de carne, no interior da caverna, protegidos dos rigores do frio e do ataque de animais. Consigo vislumbrar os pequenos filhotes de Neandertal brincando em volta do fogo enquanto seus pais lambiam os beiços esperando para devorar um filé de urso, 174 mil anos antes do nascimento de Cristo, na primeira churrasqueira.

MAIS INFORMAÇÕES: EARLY NEANTHERTHAL CONSTRUCTIONS DEEP IN BRUNIQUEL CAVE IN SOUTHWESTERN FRANCE. NATURE VOL. 534 PAG, 111 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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