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A sabedoria dos extraterrestres

Eles não querem ser encontrados por nós, sabem o valor de sua toca

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2017 | 03h00

Achar a entrada da toca é difícil. Coelhos despistam o inimigo antes de entrar, faz parte da estratégia de sobrevivência. Nós não somos tão inteligentes. Veja essa história.

16 de novembro de 1974. Costa Rica. Um grupo de cientistas observa o gigantesco radio telescópio de Arecibo. É o telescópio que aparece em 007 contra Golden Eye, o primeiro com Pierce Brosnan. Reformado, o telescópio estava sendo inaugurado.

Para comemorar, os cientistas resolveram usar a antena para enviar uma mensagem ao espaço. Usando 1 mil quilowatts de potencia enviaram 210 bytes de informações cuidadosamente selecionadas. Os números de 1 a 10, a estrutura do DNA, um mapa do sistema solar, indicando a Terra, e o desenho de um ser humano. Foram 168 segundos de júbilo, enquanto e mensagem era despachada. Estamos aqui. Na Terra, existe vida inteligente, orgulhosa e destemida.

Tudo era festa até o Astrônomo Real da Inglaterra, Martin Ryle, aparecer na televisão e botar a boca no trombone. Com que direito, bufou ele, um grupo de cientistas revela ao universo a toca onde se escondem os seres humanos? Se existe vida em outros planetas, quem garante que é bondosa? Ela pode estar faminta, decidida a nos destruir. O risco de expor a localização da Terra não pode estar na mão de um bando de cientistas que acreditam em extraterrestres pacíficos e cooperativos. Essa é uma decisão que nos põe em risco e deveria ser compartilhada.

A imprensa não levou muito a sério as queixas de Ryle, afinal a mensagem foi enviada para uma galáxia chamada M13, distante 25 mil anos-luz da Terra. Vamos esperar mais 24.960 anos para a mensagem chegar lá e 25 mil anos para alguma resposta voltar. Nenhum de nós vai estar vivo.

Marin Ryle não era bobo, havia descoberto o radio telescópio, combatido ferozmente a proliferação das armas nucleares e recebido o Prêmio Nobel. Morreu em 1984 quando Roger Moore era James Bond em Octopussy. A questão de Martin era moral. Quem tem o direito de colocar a humanidade a risco?

Quatro décadas depois o risco de a humanidade desaparecer nunca foi tão alto. Não que algum ser extraterrestre tenha recebido a mensagem, viajado pelo hiperespaço e esteja vagando sobre nossas cidades. Somos nós os destruidores. Reproduzindo como coelhos, nos espalhamos pelo planeta, queimamos o que podemos, floresta ou petróleo, alteramos atmosfera e mares, dizimamos a flora e a fauna. Tudo para garantir nossa expansão. 

Nas últimas décadas, começamos a sonhar em mudar para outro planeta. Filmes de colônias em Marte, investimentos em naves espaciais e mineração de asteroides estão aí para demonstrar nossa intenção. Apesar de toda cultura e ciência não conseguimos controlar nosso instinto destrutivo. Temos DNA de predador. Somos perigosos.

Agora me diga, se você pertencesse a outra civilização, localizada em algum lugar do universo, e estivesse inaugurando um radiotelescópio, teria coragem de enviar uma mensagem contando para os terráqueos as riquezas de seu planeta? Teria coragem de revelar a localização de sua toca, em algum planeta lindo e preservado? Duvido. Portanto, se existe vida realmente inteligente no universo, é muito provável que estejam nos observando de longe, mudos. 

Na pele deles ficaria quietinho, imaginando que, se os terráqueos descobrem meu planeta e decidem vir até aqui, vão aprontar uma bagunça igual a que fizeram na Terra. Enviar a eles nossa localização? Jamais. 

É por isso que não encontramos outros seres vivos no universo, eles não querem ser encontrados, sabem o valor de sua toca e não querem nada com o predador implacável que habita esse planeta.

* É BIÓLOGO

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